11 de janeiro de 2020

Bombshell | Bombshell - O Escândalo (2019)


Vivemos numa era pós-#MeToo e com ele foram reveladas várias histórias de má conduta de assédio sexual, vindo de algumas das pessoas mais poderosas, um bocadinho por todas as indústrias, mas principalmente os media. Talvez um dos mais controversos, ao lado de Harvey Weinstein, é a queda de Roger Ailes, chefe da FOX News. Jay Roach (Austin Powers – O Agente Misterioso, Trumbo) traz-nos uma versão dramatizada dos acontecimentos em Bombshell – O Escândalo.

Numa altura em que Donald Trump estava ainda a fazer a sua campanha presidencial em 2016, coube a Megyn Kelly (Charlize Theron) ser uma das moderadoras do primeiro debate republicano, que acabaria por se tornar num dos momentos mais interessantes da televisão, quando confrontou o actual presidente dos EUA sobre o seu comportamento perante mulheres. As suas acções não caíram inteiramente bem com o seu superior, Roger Ailes (John Lithgow), amigo de Trump, mas aplaudida pela sua ousadia.


Do outro lado está Gretchen Carlson (Nicole Kidman), uma apresentadora que fora retirada do popular programa FOX and Friends para a sua própria plataforma fora do horário nobre, após as suas várias queixas sobre o tratamento por parte dos seus colegas masculinos; acabando por a forçar a tomar medidas mais extremas.

Finalmente, conhecemos Kayla (Margot Robbie), uma jovem produtora, ambiciosa para sair de trás das câmaras. É importante referir que Kayla é uma das personagens fictícias do filme, considerada um aglomerado de pessoas da redacção, criada somente para demonstrar em primeira-mão algumas das acções de Roger no tempo presente.


Contando a história destas três mulheres, ficamos a conhecer o ambiente tóxico e o abuso de poder dentro da FOX News, onde o sucesso garantido estava associado à possível obrigação de haver trocas de favores. Não conseguimos deixar de sentir uma certa revolta que começa muito cedo e se estende durante toda a obra.

No entanto, a forma que esta dramatização dos factos é apresentada, não é propriamente a melhor. Isto porque Jay Roach faz de Bombshell – O Escândalo um filme com um ambiente altamente sensacionalista, numa mistura entre documentário e um vídeo viral feito com o único propósito de deixar-nos incomodados mais que informados, onde uma mensagem importante acaba por perder todo o seu poder no meio de tanto ultraje.


O trio de Theron, Kidman e Robbie, actrizes que de certa forma vêm de gerações diferentes, acabam por ser o ponto alto do filme, havendo um equilibro que nos permite ver os seus percursos na história. Mas no meio de tanta falsa urgência, é frequente sentir que as suas actuações sejam diluídas em troca da provocação que o tema causa. O mesmo acontece com Lithgow, tendo a responsabilidade de encarar um dos homens mais perversos nos media e que por mais difícil que tenha sido, consegue de facto incomodar o espectador com aquilo que faz.

Com isto, Bombshell – O Escândalo é um filme que parece brincar com o tema, sem consideração pela seriedade que lhe é devida. Até Adam McKay, com a sua abordagem de meia paródia, como vimos em Vice e A Queda de Wall Street, conseguiu encontrar um meio termo para, no mínimo, deixar os espectadores a reflectir no quão marado este mundo é. Por aqui, mais valia este filme ter sido uma super-produção da TMZ, que ninguém se espantava.

Nota Final: 1.5/5 (originalmente 3/10)


Originalmente publicado em Central Comics a 11 de Janeiro de 2020.

9 de janeiro de 2020

The Farewell | A Despedida (2019)


A ideia de haver uma morte na família é sempre um tópico complicado para abordar, seja em que meio for. Mas Lulu Wang, através das suas próprias experiências traz-nos um dos filmes mais sentimentais, com A Despedida.

Billi (Awkwafina) é uma rapariga que tenta sobreviver como uma escritora em Nova Iorque, mantendo uma relação de proximidade com Nai Nai (Shuzhen Zhao), a sua avó paterna. Certo dia, é revelado que Nai Nai está numa fase avançada de cancro e que tem pouco tempo de vida, mas é deixada na ignorância, quando o resto da família é convocada para passarem, em segredo, os últimos momentos com ela, sob disfarce de um casamento.


A diferenças entre o ocidente e o oriente são imediatamente aparentes quando as discussões baseiam-se principalmente na questão se deverão dizer a Nai Nai a verdade, ou deixá-la continuar a viver a sua vida feliz. Sendo a morte um tema universal, este ressoa com uma honestidade brutal dentro de nós, expondo uma vulnerabilidade que sentimos na pele.

É importante destacar Awkwafina, que continua a sua ascensão no cinema, naquele que será um dos seus papéis definidores de carreira, após o sucesso de Asiáticos Doidos e Ricos, e ver os seus projectos musicais a ganharem mais atenção. Por outro lado, Shuzhen Zhao aquece-nos o coração enquanto a avó querida e atenciosa que é, deixando-nos com um carinho muito especial, ao vermos o seu altruísmo pelos seus familiares. É de facto uma pessoa com muita bondade para oferecer, quase deixando-nos a querer ser adoptados por esta mulher tão querida e bondosa.


É entre tristeza e risos sinceros que A Despedida se divide, e de uma educação lógica que entra em conflito com os valores tradicionais, onde a empatia pelo outro e o respeito pelos mais velhos nos força a reflectir perante os nossos próprios laços familiares. Ainda que o filme seja, grande parte dele, falado em mandarim, é tudo facilmente relacionável com a vida de qualquer um, sendo algo que toca a todos.

Assim, Lulu Wang apresenta-nos uma obra de sentimentos genuínos e contagiantes, enquanto faz homenagem à sua própria família, mostrando como as coisas são feitas do outro lado do mundo e como ninguém tem a resposta correcta quando a morte está a bater à porta.


Equilibrado quase de uma forma perfeita, A Despedida tem o peso emocional certo para nos deixar a sorrir enquanto lágrimas escorrem pela cara, dando graças pelas pessoas que temos à nossa volta.

Nota Final: 4/5 (originalmente 8/10)


Originalmente publicado em Central Comics a 9 de Janeiro de 2020.

8 de janeiro de 2020

The Informer | O Informador (2019)


Para Andrea Di Stefano, adaptar um dos romances de crime mais badalados vindos da Suécia, Tre sekunder, autoria da dupla Anders Roslund e Börge Hellström, pode parecer tarefa difícil, mas o realizador de Escobar: Paraíso Perdido mostra uma boa tentativa de agradar a fãs de thrillers com O Informador.

Pete Koslow (Joel Kinnaman) é um informador para o FBI, infiltrado na máfia polaca. Junto com a agente Wilcox (Rosamund Pike), têm a intenção em acabar com o cabecilha. As coisas correm mal quando Pete testemunha o assassinato a um polícia sob disfarce, e é feito o bode expiatório com o propósito de gerir a entrada de drogas para dentro da prisão para onde vai. Entretanto, Grens (Common), um detective do crime organizado, investiga a morte do seu colega, acabando por descobrir mais do que deve.


A primeira metade de filme estabelece todas as peças no tabuleiro, entre situações perigosas e as personagens que activamente participam no rumo da narrativa, independente da sua significância, sobretudo a família de Pete, onde a sua mulher Sofia (Ana de Armas) tenta apoiar o marido da melhor forma possível, mas que não é mais que um elemento dramático.

A partir da segunda metade, as coisas vão ficando mais ou menos interessantes, com o thriller a tornar-se num filme de prisão, indo mais longe em criar uma teia de conspiração com algumas complicações e reviravoltas, muitas delas desnecessárias e pouco originais, mas que criam toda uma rede de segurança que permite que a história se desenvolva com o mínimo dos percalços.


Na verdade, por mais banal que seja O Informador, o filme faz o melhor em seguir os passos de outros do seu género, proporcionando assim uma obra que entretém o suficiente, sem grandes alaridos. Talvez onde mostre as suas verdadeiras falhas é quando se apoia nas várias linhas interligadas dentro de uma conspiração que é muito mais pequena do que realmente aparenta.

Assim, O Informador põe-nos perante uma filme com algum conteúdo e que deverá satisfazer aqueles que procuram uma narrativa séria, mais virada para as histórias da velha guarda, onde o bom, o mau e o verdadeiro vilão entram numa rota de colisão, com cada um deles a lidar com as devidas consequências; com um elenco competente, que adiciona a credibilidade necessária para que tudo seja encarado de uma forma aceitável. Certamente que existem propostas melhores por aí, mas com certeza que ninguém há de ficar mal com esta mais recente.

Nota Final: 2.5/5 (originalmente 5/10)


Originalmente publicado em Central Comics a 8 de Janeiro de 2020.

5 de janeiro de 2020

Dark Waters | Dark Waters - Verdade Envenenada (2019)


O facto de que durante anos muitas das grandes corporações pelo mundo têm ignorado vários perigos para os consumidores nos seus produtos não é novidade, um pouco em todo o tipo de indústrias, mas sobretudo aquelas ligadas aos farmacêuticos e bioquímica. É com essa revolta que Todd Haynes traz finalmente ao grande ecrã Dark Waters – Verdade Envenenada, retratando uma história verídica em como um químico intencionado a facilitar a nossa vida se tornou num dos maiores pesadelos da saúde pública.

Robert Bilott (Mark Ruffalo) é um advogado corporativo em Cincinnati, até que um dia Wilbur Tennant (Bill Camp), um agricultor de uma pequena cidade em West Virginia revela-lhe as suas suspeitas que uma das maiores corporações do mundo, DuPont, está ligada ao desenvolvimento de humanos e animais e à morte de diversos outros, devido às descargas de químicos tóxicos dentro da água local. Robert aceita um caso que mais ninguém teria coragem de pegar e segue durante mais de uma década a perseguir a justiça, revelando todas as verdades por detrás de um químicos fluorosurfactantes, conhecidos como os químicos permanentes.


É incrivelmente poderosa a abordagem de Haynes perante um caso de tamanha complicação, repleto de detalhes relevantes, enquanto mantém o foco na narrativa principal, e a sua acessibilidade para que o espectador não fique sobrecarregado de informação. Por mais árdua que essa tarefa tenha sido, esta é cumprida, ao acompanharmos as diversas fases do caso ao longo dos muitos anos do seu desenvolvimento, mostrando igualmente as diversas falhas dentro da justiça norte-americana. A passagem do tempo é notada não só pela evolução tecnológica, principalmente como utilizamos o telefone.

Longe de retratar estes acontecimentos de uma forma sensacional, tem tanto de cativante como chocante, como a DuPont tem conseguido escapar tanto tempo sem consequências, enquanto que a tecnologia Teflon provou ser algo extremamente perigoso para a saúde pública. Todas as vítimas são respeitadas neste filme, ao mesmo tempo que a culpa é apontada directamente aos perpetradores.


É importante destacar a prestação de Mark Ruffalo como o advogado que foi contra um gigante ao defender o homem mais pequeno, numa altura em que o actor está a voltar para papéis dramáticos, após as sua participação no universo da Marvel. Por outro lado, Anne Hathaway entra num papel secundário que, apesar de manter uma excelente postura como Sarah Bilott e vista por muito pouco tempo, a sua contribuição como um apoio importante para o seu marido Robert é essencial para retratar as consequência pessoais por ter aceitado um caso desta magnitude.

No fim, Dark Waters – Verdade Envenenada é uma história impressionante com o objectivo de trazer para a ribalta as acusações contra a DuPont, dando uma noção de como uma industria inteira foi capaz de distorcer factos para os seus próprios ganhos e possivelmente criar um pequeno pânico à saída do cinema, ao irmos a correr desfazer-nos de todas as panelas que possam ter um revestimento Teflon.

Nota Final: 4/5 (originalmente 8/10)


Originalmente publicado em Central Comics a 5 de Janeiro de 2020.

1 de janeiro de 2020

The Grudge | The Grudge: Maldição (2020)


Em 2002, quando o primeiro Ju-on: A Maldição estreou no Japão, uma nova onda do cinema de terror espalhou-se pelo mundo a olhos vistos, contando com inúmeras sequelas e remakes, tanto asiáticos como norte-americanos, todos baseando na premissa de um espírito vingativo que segue aqueles que ousam entrar na casa onde reside. Por alguma razão, alheia a muitos, o mito regressa pelas mãos de Nicholas Pesce com The Grudge: Maldição.

Conhecemos a Detective Muldoon (Andrea Riseborough) que se muda com o seu filho para uma pequena cidade nos Estados Unidos, após a morte do seu marido. O seu primeiro caso, em parceria com o Detective Goodman (Demián Bichir), envolve uma mulher encontrada num estado de descomposição, que relembra Goodman de um caso antigo, referente a uma casa assombrada. Esse mesmo caso levou o seu antigo parceiro à loucura e o pior cenário possível parece ser novamente real, agora que enfrentam novamente a ameaça.


Tudo o que sabemos sobre Ju-on, The Grudge, casas assombradas e espíritos maléficos como os conhecemos, já foi abordado em dezenas de filmes nos últimos 20 anos, não encontrando aqui qualquer justificação para a falta de originalidade, ou sequer uma tentativa disfarçada de introduzir uma ideia minimamente interessante. Tendo em conta que em 2020 vivemos num mundo onde David Robert Mitchell nos deliciou com Vai Seguir-te, agarrando na mesma trupe e dando uma reviravolta que o fez um dos grandes filmes de terror da década, esta nova entrada de nada serve a não ser para perder tempo.

A revolta continua quando temos noção que o filme foi escrito e realizado por Nicholas Pesce, auteur de dois incríveis filmes de género, Os Olhos da Minha Mãe, que contou com a participação da actriz portuguesa Kika Magalhães; e o grande Piercing, que deixou os espectadores boquiabertos no MOTELX em 2018 e que passou pelas salas nacionais em Abril deste ano. Duas obras que mostram distintamente o talento do realizador nova-iorquino, que fora uma mão cheia de planos intrigantes, segue o resto do filme tal e qual aos que vimos nos remakes da década passada, fúteis e sem qualquer tipo de impacto. É grave quando um filme de terror causa risos que não são nervosos, e que recorre a sustos básicos para tentar ganhar algum tipo de reacção.


Com isto, The Grudge: Maldição é completamente passível, provando que até os autores mais respeitados podem comprometer a sua integridade com meros truques cinematográficos, esperando que seja apenas uma fase e não o inicio do fim de um dos artistas mais interessantes dos últimos tempos. Sobre o filme, ganham mais em ir passear à beira-mar. Pelo menos para a vossa sanidade mental.

Nota Final: 0.5/5 (originalmente 1/10)


Originalmente publicado em Central Comics a 1 de Janeiro de 2020.