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19 de setembro de 2020

The Babysitter: Killer Queen (2020)


Com a quantidade de novos títulos adicionados à Netflix numa base semanal, é fácil deixar escapar alguns filmes que têm um enorme potencial de entretenimento puro, onde a diversão reina acima de tudo. Foi o caso de The Babysitter, que em 2017 tornou-se num dos filmes mais divertidos, mas menos falados no catálogo. O seu sucesso de nicho garantiu que McG fizesse uma sequela, com The Babysitter: Killer Queen.

Dois anos após os eventos sádicos, Cole (Judah Lewis) continua a viver a sua vida com o trauma da noite que a sua ama lhe traiu. Com o apoio da sua amiga Melanie (Emily Alyn Lind), este convence-o a ir até uma festa no lago, com o seu namorado Jimmy (Maximilian Acevedo) e os seus amigos Boom-Boom (Jennifer Foster) e Diego (Juliocesar Chavez). Mas numa reviravolta inesperada, o culto de sangue regressa, em busca novamente por Cole.


Tal como da última vez, a reviravolta que inicia o festival de morte, vem de uma forma tão inesperada, que quando dão por vocês, quase parece que foram atingidos por um camião; e apesar do seu registo algo repetitivo no que toca à estrutura da narrativa, existem novos elementos capazes de meter o filme lado-a-lado com a sua prequela.

Começando com a introdução de Phoebe (Jenna Ortega), uma nova aluna inserida num programa de reabilitação, que apresenta um lado mais rebelde à série, que tanto necessitava. Phoebe é acompanhada com muito mistério durante grande parte do filme e a sua química com Cole, faz com o regresso do membros originais do culto sejam mais dinâmicas, sobretudo quando fazem referências do filme anterior ou da cultura-pop em geral, ainda que algumas destas sejam relativamente datadas.


Entretanto, os novos cenários forçam uma fuga criativa, recorrendo a alguns truques de tanto divertidos como perigosos, onde não falta todo o sangue e gore que vai para além do esperado, conseguindo balancear um filme que, noutras circunstâncias, teria tudo para falhar. Mas McG e a sua equipa de argumentistas, da qual Brian Duffield não regressou, conseguiram expandir o pequeno universo de The Babysitter por caminhos diferentes, mas não inteiramente novos, realizando o que é talvez uma das séries de comédia-terror na era moderna do streaming.

Assim, The Babysitter: Killer Queen, é um filme deliciosamente focado em oferecer um espectáculo sangrento, onde novas e velhas personagens juntam-se para completar o ritual que lhes é devido. Mesmo tendo algumas falhas superficiais à vista, estes são compensados com uma aventura emocionante, repleto de risos e um bom serão, impossível de desgostar.

Nota Final: 4/5

2 de setembro de 2020

The Babysitter (2017)


Por vezes, as pessoas que mais gostamos podem revelarem ser piores do que alguma vez imaginamos. É o que fazemos com essa revelação que conta e neste filme da Netflix, The Babysitter, descobrimos um grupo curioso de personagens e uma babysitter com intenções inesperadas.

Cole (Judah Lewis) é um rapaz que se vê numa situação muito estranha com Bee (Samara Weaving), uma babysitter atenciosa e divertida. Numa noite em que os pais de Cole os deixa sozinhos, este descobre o que acontece depois de ir dormir, quando vê um grupo de estranhos na sua sala, acabando numa aventura pela sua própria sobrevivência.


A curiosidade inata que o filme estabelece desde cedo deixa-nos colados ao ecrã, nem que seja ao cairmos pelo encanto de Bee, retratada como a imagem da perfeição, mas que esconde um grande segredo. E quando esse é descoberto perante os nossos olhos, todas as expectativas que poderíamos ter num filme que aparentava ser apenas mais um slasher de adolescentes no meio de muitos, acaba por ser algo muito mais interessante, com choque atrás de choque ao nosso sistema vulnerável.

Talvez aquilo que faça deste filme tão divertido, é o seu elenco variado de caras conhecidas, suportadas por pseudo-estereótipos e as suas qualidades auto-depreciativas, como se de uma paródia tratasse. Com ele, contamos com Max (Robbie Amell), o jovem musculado, desportista e com um ego inflacionado; Sonya (Hana Mae Lee), a asiática cirurgicamente estranha; Allison (Bella Thorne), a cheerleader fútil; e John (Andrew Bachelor), o negro que, apesar de tudo, recusa-se a conformar com o género que normalmente o mataria primeiro. 


Existe uma cena entre Max e Cole, que interrompe a violência sádica constante no filme, onde o musculado força-lhe a confrontar o seu bully, como se de um irmão maior se tratasse. É uma cena altamente inesperada, e muito querida no filme, apesar de ser curta e resumir devidamente aquilo que estava a fazer. Há até tempo para uma pequena história de amor com a crush de Cole, Melanie (Emily Alyn Lind), que pede para ser mais visto.

Assim, The Babysitter é um filme de puro divertimento, com a grande qualidade de se poder assistir novamente vezes sem conta, sem que este perca a sua alma. Existe uma mensagem qualquer no meio sobre confiança, amor adolescente e auto-estima, mas por mais que tente mostrar o seu lado mais normal, há sempre um homicídio maníaco à espreita, pronto para fazer esquecer qualquer ideia séria que possamos ter perante o filme, de uma forma que só McG sabe fazer, com um slasher de grande eficácia.

Nota Final: 4/5

11 de julho de 2020

The Old Guard | A Nova Guarda (2020)


A imortalidade é um conceito já intensamente explorado em vários meios, de múltiplas formas, ao ponto de ser necessário recorrer a outras ideias que justifiquem uma variante de viver para sempre, como é o caso dos universos paralelos. No entanto, a banda-desenhada da Image Comics, criada por Greg Rucka e Leandro Fernández mereceu agora uma adaptação para cinema, na forma de A Velha Guarda, realizada por Gina Prince-Bythewood.

Andromache of Scythia ou Andy (Charlize Theron) é a guerreira líder de um pequeno grupo de imortais que durante séculos fazem tudo para o bem do mundo vêem-se numa posição desmotivadora ao perceberem que as suas acções tiveram o mínimo de impacto. Prestes a desistir das suas missões eternas, o grupo aceita uma missão de salvamento onde são encurralados, levando-os num caminho de vingança, ao qual se junta a novata Nile (KiKi Layne), uma soldado que descobriu recentemente que é incapaz de morrer.


O que se segue é um filme que aparenta ser um grande episódio piloto para algo muito maior e mais profundo, ficando aquém das expectativas. Enquanto que a primeira metade do filme introduz as personagens e a narrativa principal, contando com o tradicional antagonista vindo do mundo maquiavélico das grandes farmacêuticas, buscando capturar o grupo para extrair o DNA deles, e depois criar produtos que prolonguem a vida de meros mortais; a segunda já mostra alguma acção perante as consequências da perseguição, que são frequentemente paradas pelo seu antagonista básico e aborrecido.

Ver Charlize Theron a retomar papéis de acção é sempre um autêntico prazer, como temos visto nos últimos anos em filmes como Mad Max: Estrada da Fúria e Atomic Blonde - Agente Especial, podemos igualmente remeter ao ano de 2005 e Aeon Flux, provando que Theron tem uma queda quase secreta por adaptações de banda desenhada.


No entanto, o restante elenco parece estar presente para suportar a actriz, tendo um raro momento de destaque, como a relação homossexual de séculos entre Joe (Marwan Kenzari) e Nicky (Luca Marinelli), que mantêm uma cumplicidade de valor, mas que de de um modo geral são desprezadas por uma narrativa quebrada, e um inimigo que não passa para além de uma figura corporativa à procura de mais lucro, custe o que custar, mais que um vilão a sério. Entretanto, a realização de Gina Prince-Bythewood é incapaz de acompanhar o ritmo da acção, principalmente durante os vários combates à-lá-John Wick, que vêem a suas qualidades quase todas elas desperdiçadas por uma realização pouco preparada para o estilo.

Dito isto, A Velha Guarda mostra um potencial interessante em reviver um conceito clássico, escolhendo não ser melhor do que sabe que consegue ser. Com a possibilidade de uma sequela a caminho, será com certeza interessante ir mais a fundo a este universo e conhecer as personagens que integram, com uma melhor tradução para cinema. Se alguma coisa, este filme apenas fez-nos ter saudades de Christopher Lambert e a série Duelo Imortal.

Nota Final: 3/5

1 de fevereiro de 2020

Uncut Gems | Diamante Bruto (2019)



Adam Sandler é um actor que mais rapidamente associamos como um dos reis da comédia das últimas décadas, com filmes como O Maluco do Golfe ou tanto odiado como amado em Jack e Jill, esquecendo que o actor também é capaz de encarar papéis dramáticos com a mesma naturalidade, como em Gente Gira ou Embriagado de Amor e mais recentemente este último filme de Benny e Josh Safdie, em Diamante Bruto.

Howard Ratner (Sandler) é um joalheiro carismático do chamado distrito de diamantes de Nova Iorque, onde estão concentrados os mais altos especialistas em rochas que reflectem luz. O grande problema dele é penhorar alguns objectos valiosos que não são seus para fazer apostas desportivas, de modo a poder repagar a alguns homens cujo tempo é dinheiro.


É incrível como Sandler protagoniza o filme de uma forma natural, não apenas de modo visual, desde os caracóis no cabelo e a barba ou o casaco de cabedal, típico daquela zona da cidade; como também a sua personalidade contagiante sendo um daqueles vendedores que só param quando têm a venda feita. No fundo, ele também não é propriamente uma boa pessoa, já que muito da vida dele é o que pode ser considerado duvidoso, entre trair a sua mulher, a usar dinheiro que não é seu, cavando um buraco fundo com as pessoas erradas.

Os irmãos Safdie apresentam uma obra que é difícil de tirar os olhos, mantendo-nos atentos a todos os momentos gloriosos das subidas e das quedas de Howard. oferecendo uma narrativa, no mínimo, intrigante e realizada de uma forma muito excitante, dando-nos a sensação de sentir na pele as mil e uma coisas que a personagem principal tem de fazer para sobreviver nos erros dele. É algo de tanto barulhenta como de desordenada, e sinceramente, não queríamos de outra forma, com uma das melhores bandas sonoras do ano.


Felizmente existem várias surpresas neste filme, na forma de LaKeith Stanfield como Demany, um gangster de bairro com as conexões certas, trazendo o negócio do jogador de basquetebol Kevin Garnett – que aqui encara uma versão exagerada da sua personalidade – em busca da pedra perfeita e capaz de inspirar a ganhar os jogos. Finalmente, Julia Fox faz a sua grande em cinema como a assistente a amante de Howard, num papel que certamente trará a atenção certa, sendo esta a primeira de muitas que iremos ver a actriz.

No fim, Diamante Bruto é uma viagem de pouco mais de duas horas na vida de um homem quebrado, dividido entre fazer a coisa certa e aquilo que lhe mais convém, deixando-nos enaltecer com a empatia que merece e que, juntamente com a realização ousadia dos Safdie, nos dá em troca algo equivalente ao título do filme.

Nota Final: 5/5 (originalmente 10/10)

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Originalmente publicado em Central Comics a 1 de Fevereiro de 2020.

11 de agosto de 2019

Shaft (2019)


Na era dos re-tudo e mais alguma coisa, não seria de estranhar que os clássicos de blaxploitation onde um vigilante negro vai em busca de causar caos e destruição por onde passa seriam devidamente actualizados. Mas será que era necessário trazerem Shaft de volta, se não fosse para aproveitar tudo o que o universo desta emblemática personagem traz com ela?

De alguma forma, Shaft (Samuel L. Jackson) teve um filho, JJ, ou Shaft Junior (Jessie T. Usher), que acabaria por se afastar para lhe proteger dos perigos da sua profissão. Eventualmente, JJ iria crescer seguindo uma carreira como analista de dados no FBI, pensando que tinha sido abandonado pelo seu pai, que não teria qualquer interesse em reconectar. Ao fim de mais de duas décadas, JJ recorre a Shaft para resolver um caso pessoal: a morte suspeita do seu amigo Karim (Avan Jogia).


Nunca se esperava que fosse esta a direcção que a saga Shaft tomaria, anos após anos de manter uma certa reputação como um género de filmes onde a violência fosse ligeiramente mais gratuita do que gostaríamos de admitir, mas que funcionava em prol da consistência histórica. Afinal, o Shaft original, desempenhado por Richard Roundtree, que faz também uma aparição neste filme para o tornar canon, a dada altura foi até África resolver os problemas locais à lei da bala. Logo, é de estranhar de longe esta abordagem familiar.

Infelizmente por mais estranho que seja, nunca entrenha, apesar da sua narrativa policial minimamente interessada, prosseguindo todos os passos cliché de o que normalmente se viria numa série de televisão. Shaft sofre do mal de ser um longo piloto televisivo que facilmente deveria se ter tornado em algo a longo prazo, onde a introdução das inúmeras personagens novas, entre a mãe de JJ, Maya (Regina Hall) e a crush dele, Sasha (Alexandra Shipp), que acabam por suportar muito da obra.


Talvez o pior de Shaft é estar a léguas do seu verdadeiro significado, algo que o filme de 2000 levou muito a sério com um dos melhores thrillers do virar do milénio, no mesmo ano que  American Psycho viria definir Christian Bale como um dos grandes novos actores, tal como Jeffery Wright. Aqui, estamos perante uma mistura de uma acção e comédia sem o foco no objectivo principal. São poucos os momentos em que as notas acertam no ponto, acabando por vezes ser demasiado tolo na sua comédia ou não ser sério suficiente em momentos importantes.

Não ajudando a este caso está a sua produção altamente polida, quem nem a quantidade de violência e vocabulário inapropriado é capaz de levar este filme às suas merecidas origens obscuras, com a realização de Tim Story (Táxi de Nova Iorque, Polícia em Apuros) a dar um tom leve e brincalhão à grande reunião de família. Não deverá ser a última vez que veremos Shaft, mas a este ritmo nem há vontade para apreciar o trabalho do detective mais duro de Harlem, agora com companhia.

Nota Final: 2/5

14 de maio de 2019

Extremely Wicked, Shockingly Evil and Vile | Extremamente Perverso, Escandalosamente Cruel e Vil (2019)


Ted Bundy é o mais recente dos assassinos em série que voltou a receber alguma cobertura mediática, tudo por causa de um homem: Joe Berlinger, que no início do ano, lançou na Netflix o documentário de quatro partes Conversas Com Um Assassino: As Gravações de Ted Bundy, onde entre entrevistas e imagens de arquivo, ficamos a conhecer as acções dementes dum dos assassinos mais notórios de sempre. Não contente em ter-se ficado pela mostra da vida real, Berlinger regressa ao cinema tradicional com uma reencenação da vida de Ted e da sua namorada, Elizabeth Kendall, com Extremamente Perverso, Escandalosamente Cruel e Vil.

Neste filme, Zac Efron encara Ted Bundy, um então jovem encantador que em 1969 conheceu o que provavelmente seria o amor da sua vida, Liz (Lily Collins), uma estudante universitária e mãe solteira, onde ambos acabariam por se relacionar. Anos mais tarde, em 1974, novos indícios de assassinatos começam a aparecer, com todas as provas a apontar para Ted, através de retratos-robô e outras que acabariam por ser incriminatórias para a sentença dos seus crimes nos anos seguintes.


Recusando a declarar-se culpado, Bundy cria um circo mediático à volta das suas acusações, quando o mesmo está no centro do primeiro julgamento em tribunal transmitido em televisão, onde pessoas em todo o mundo testemunham a sua loucura, numa recriação de uma das partes cruciais da sua vida.

Para quem viu As Gravações de Ted Bundy, poderá ver aqui uma versão menos grotesca daquilo que viu e ouviu na série documental, pois ainda que muitos dos detalhes estejam presentes, não existe um único momento de violência que reforce a ideia que estamos perante um sociopata nato. Pelo contrário, Efron faz um brilhante trabalho em vestir a pele do assassino cheio de charme, que é difícil não nos sentirmos encantados pelas suas atitudes e como vagueia pela vida.


Claro que, sabendo o desfecho da história, existe um certo sentimento de desprezo, e francamente nojo, em vermos como Bundy trata o seu próprio julgamento como uma brincadeira, recorrendo a tácticas de diversão, pondo à prova o sistema judicial norte-americano. Ainda assim, somos confrontados com um lado mais carinhoso da vida de Bundy, aproximando o filme ao género drama romântico, algo que não seria de esperar.

Extremamente Perverso, Escandalosamente Cruel e Vil é uma perfeita extensão ao documentário da Netflix, dando uma oportunidade a todos para conhecerem um pouco mais de uma das piores pessoas da história moderna.

Nota Final: 3.5/5 (originalmente 7/10)

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Originalmente publicado em Central Comics a 14 de Maio de 2019.

25 de janeiro de 2019

Polar (2019)


No inicio de 2012, o espanhol Víctor Santos lançou ao mundo o que seria o primeiro passo na sua mais recente obra: Polar, um webcomic inspirado no estilo noir e focado nos visuais, e no pouco ou mesmo ausência de texto. O grande sucesso entre os internautas levou a que a Dark Horse Comics lançasse em livros, as colectâneas das histórias, e com a Netflix a fazer uma adaptação cinematográfica em imagem real, realizado por Jonas Åkerlund.

Em Polar, acompanhamos a vida de Duncan “The Black Kaiser” Vizla (Mads Mikkelsen), um dos últimos grandes assassinos a contrato, que por acordo com a organização com que trabalha, é forçado a reformar-se aos 50 anos de idade. Vizla esperava viver uma vida pacata, mas é perseguido numa acção de ganância por Blut (Matt Luca), o líder da organização, que caso seja morto antes da sua reforma, os mesmos recebem a sua pensão no valor de 8 milhões de dólares. Uma ideia rebuscada, sobretudo quando consideramos todos os recursos envolvidos em fazer algo do género.


Neste filme, altamente estilizado, existe uma relativa concordância entre o material original e a adaptação, onde todas as personagens tendem ser eclécticas. O humor negro tem uma presença algo bizarra, sobretudo na forma que Åkerlund mostra as personagens, sendo elas talentosas o suficiente para matar a sangue frio, mas não ao ponto de pensarem um pouco num plano para encontrar Duncan ou como vão matar um dos melhores assassinos existentes. É este ligeiro abuso da caricatura que deixa grande parte de Polar cair por terra, falhando constantemente no alvo.

As comparações com o filme-sensação John Wick, ou Atomic Blonde – Agente Especial, este último também uma adaptação de uma novela gráfica; não são de todo descabidas, já que as diversas cenas de acção remetem para tiros certeiros e lutas altamente bem coreografadas. No entanto, todo este estilo não assenta tão bem quando remetem para obras mais selvagens, como Crank – Veneno no Sangue ou Jogo, do duo Neveldine/Taylor, automaticamente metendo-o na categoria de filme de série-B.


Pelo meio, Vanessa Hudgens tem um sub-plot discreto, no papel de Camille, vizinha de Duncan. A mesma acompanha uma boa parte do filme, mas nunca se esforça para se manter relevante, o que faz parecer que esta linha da narrativa seja forçada, sendo apenas uma razão pouco convicente para motivar o protagonista. Não adicionando muito à narrativa, é fácil perdê-mo-la de vista e questionar o que realmente está ali a fazer.

A divisão dos vários actos são claramente tracejados pela duração deste filme, podendo prever o caminho que acaba por tomar, apenas perdendo pela demora nas várias cenas de lutas e tiroteios, que apesar de tudo, são mais entusiasmantes do que o esperado.


Assim, podemos adicionar Polar à relativa curta lista de filmes baseados em banda desenhada, fora do universo dos super-heróis, onde existem tantas consequências como leis da física aplicadas e nem sequer as autoridades fazem parte deste faroeste moderno.

Nota Final: 3/5 (originalmente 6/10)

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Originalmente publicado em Central Comics a 25 de Janeiro de 2019.

20 de janeiro de 2019

Close (2019)


Quando Bodyguard, uma série da BBC lançada em Outubro do ano passado, da qual a Netflix tem os direitos de distribuição fora do Reino Unido, foi um tremendo sucesso entre os subscritores, não é surpresa que a plataforma quisesse capitalizar esse feito com um novo filme dentro do mesmo género. Desta vez com Noomi Rapace no centro, em Close.

Neste filme realizado por Vicky Jewson, acompanhamos a vida de Sam (Rapace), uma guarda-costas dura e feroz, especialista em contra-terrorismo. O seu talento é reconhecido quando é chamada para proteger Zoe (Sophie Nélisse), uma jovem herdeira duma fortuna vida da exploração de minas. Nenhuma das duas está propriamente contente com a presença uma da outra, até que uma tentativa de rapto de Zoe as une, enquanto andam fugidas.


Se em alguma altura tínhamos dúvidas de o quão intimidante Noomi Rapace pode ser, já com uma filmografia recheada de papéis que provam ser uma grande protagonista, vindo de filmes como a versão sueca da trilogia Millennium ou Prometeus; do outro lado Sophie Nélisse insiste em ser uma vítima altamente irritante, não largando a teimosia mesmo em situações entre a vida e a morte, arriscando levar um tiro sempre que pode.

Ao fim de meia hora, Close, rapidamente se torna aborrecido, apenas voltando a ganhar a atenção nas várias cenas de acção onde Sam anda à tareia com meia dúzia de polícias, mercenários ou assassinos que lhe perseguem, com o resto do filme a ser focado nas fracas políticas da herdade de Zoe e a sua madrasta. As ruas perigosas de Marrocos, mostram serem difíceis de se passarem despercebidas, com o duo em modo de sobrevivência permanente.


As várias tentativas que o filme faz para puxar algum interesse neste thriller acabam por ser rapidamente desmanchadas com confrontos previsíveis e uma linha narrativa que já vimos ser feita melhor em dezenas de outras películas semelhantes, sendo este exemplo do mais medíocre que já se viu ultimamente. É bom suficiente para vermos alguma violência duma benfeitora, mas não tão bom quando esperamos que a história se desenvolva em algo mais interessante.

No fim, Close não oferece nada demais além de uma narrativa básica que se limita a ser uma demonstração do quão incrível são os dotes marciais de Rapace, sendo a grande heroína desta história previsível. Tentando salvar-se da sua própria desgraça tarde demais, o final parece ter sido apressado a modo de atar o máximo de pontas soltas em menos tempo possível, acabado por se tornar inteiramente esquecível.

Nota Final: 2/5 (originalmente 4/10)

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Originalmente publicado em Central Comics a 20 de Janeiro de 2019.

2 de janeiro de 2019

The Kindergarten Teacher | A Educadora de Infância (2018)


Somos constantemente confrontados que as crianças são o nosso futuro e devemos prestar atenção aos seus talentos, na possibilidade de a nossa ser um espécimen raro com algo inigualável. É com base nesta ideia que Sara Colangelo fez o remake norte-americano do filme israelita com o mesmo nome, A Educadora de Infância.

Lisa (Maggie Gyllenhaal) é uma educadora de infância preocupada com os seus alunos e insatisfeita com alguns aspectos da sua vida monótona, com o amor pelo seu marido a ficar sem chama e com os seus filhos mais crescidos a ignorarem quase por completo. Lisa também assiste a aulas de poesia, dadas por Simon (Gael García Bernal), o qual os seus colegas de turma creem que os seus poemas não são nada especiais.


Como todos os milagres, Lisa percebe que um dos seus alunos, Jimmy (Parker Sevak) recita em voz alta um dos poemas mais bonitos que ela já ouviu, e ela apropria-se do texto dele para apresentar nas suas aulas de poesia. Lisa começa assim a criar uma obsessão por Jimmy e o pelo seu talento, chegando a ter actos menos correctos.

Não existe um grande sentimento de culpa da forma como Lisa literalmente rouba a arte do pequeno Jimmy, desenvolvendo uma relação muito pessoal com ele, ao ponto de meter o número dela no telefone dele sob apenas a letra L para garantir que ele lhe diga sempre quando tem um poema em mente. Ainda que feita duma forma muito discreta, Lisa faz um abuso emocional que naturalmente abre portas a consequências que não sabemos bem como irá lidar, tudo em busca de fazer uma conexão com alguém que compreende a sua paixão.


Mas há sempre dois lados da história: Jimmy é algo negligenciado pelo pai, que apesar de estar presente na sua vida, prefere que ele tome outros rumos na sua futura carreira, mais práticos e com maiores recompensas financeiras, reforçando a ideia que a arte não poderá dar a vida que ele quer para o seu filho. A relação acaba por ser mais complexa, pois Lisa, devagarinho, torna-se numa perseguidora que acaba por cometer erros dos quais não tem inteiramente a noção daquilo que lhe poderá acontecer.

Se por um lado Sara Colangelo faz um belíssimo trabalho a adaptar o filme original para um ambiente novo, Maggie Gyllenhaal é no fundo a mãe preocupada que nós todos queríamos de ter, mostrando aqui que é um dos maiores papéis da sua carreira.

Existe uma narrativa coesa e algo cativante, mas o filme, por vezes, deixa-se perder em alguns detalhes que tentam criar um benefício da dúvida em relação às intenções de Lisa, acabando no fim por retomar o que todos suspeitávamos.


A Educadora de Infância é uma obra com algum interesse que vale a pena explorar, sobretudo não sendo ele um drama típico ou previsível, pecando apenas na perda do foco por breves ocasiões, mas compensado depois pela incrível força maternal que é Maggie Gyllenhaal, e com o seu grande desempenho.

Nota Final: 3.5/5 (originalmente 7/10)

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Originalmente publicado em Central Comics a 2 de Janeiro de 2019.

27 de dezembro de 2018

Bird Box | Às Cegas (2018)


A Netflix, na sua missão de lançar diversos filmes e séries que acabam por se tornarem sensação entre os seus subscritores, lança agora um filme pela realizadora dinamarquesa Susanne Bier. Mais conhecida pelo seu brilhante trabalho na mini-série O Gerente da Noite, Bier traz novamente uma experiência única, ao qual se junta a veterana Sandra Bullock, em Bird Box.

Passado num futuro próximo, esta história pós-apocalíptica inspirada pelo livro com autoria de Josh Malerman conta a história de Malorie (Bullock), uma mulher grávida que se vê numa situação complicada quando entidades paranormais invisíveis invadem o mundo, tomando a forma dos piores medos da pessoas e forçando-as a cometerem suicídio, sendo que a única forma de sobreviver é fechar os olhos.


Num ambiente sombrio, Malorie refugia-se numa casa com outras pessoas, entre as quais Tom (Trevante Rhodes), Douglas (John Malkovich) e Olympia (Danielle Macdonald), a sobreviverem juntos. Adicionalmente, Olympia também está grávida, acabando ela por ser alguém que Malorie se poderá relacionar. Isto até que conhecem Gary (Tom Hollander), um homem em fuga dum gang que parece ser imune ao destino criado pelas criaturas.

Contado no passado e no presente, 5 anos depois dos acontecimentos, Bird Box mostra-nos como Malorie está a tomar conta de duas crianças, ao qual ela chama apenas Boy e Girl, a caminho dum acampamento onde possam viver seguramente, mas sem antes passarem por diversos obstáculos, onde um erro pode ditar a vida ou a morte.


Bastam cinco minutos para percebermos exactamente qual será o ritmo do filme, com um sentido de urgência apurado, algo que vai sendo consistente durante a hora e meia de filme. Não existindo propriamente uma explicação lógica da aparição das criaturas fatais, aceitamos com alguma facilidade a forma que as personagens terão que lidar com elas, numa descoberta que é feita ao mesmo tempo com o espectador.

A criação de suspense é mais impactada pelo facto destas criaturas serem apenas sombras e saliências no ar, cujas apenas vemos uma amostra via terceiros como câmaras de vigilância e sensores dum automóvel, nunca o encarando frente-a-frente. É com certeza uma abordagem diferente, mas nunca deixa na dúvida a veracidade da sua existência.

Por outro lado, as regras estabelecidas para a reacção perante tais entidades parece ser individual, sem que as suas vítimas se tornem um perigo para outros. Isto fora os psicopatas fugitivos duma prisão psiquiátrica que não são afectados, cujo objectivo é continuar o seu reino de caos. É uma reviravolta interessante, já que os que são criminalmente loucos conseguem viver mesmo vendo o seu pior medo e não serem levados ao suicídio, como as outras pessoas.


É impossível não comparar certos aspectos de Bird Box a outro grande hit de terror deste ano, Um Lugar Silencioso, sobretudo no que toca a criaturas que exploram o poder dos sentidos humanos. Mas é indo em direcção ao perigo onde Bird Box se destaca mais, com Susanne Bier a agarrar a frieza da cinematografia dinamarquesa e a aplicá-la num contexto mais Hollywoodesco.

Assim, Bird Box é uma aventura meio futurista que cria situações aterradoras e de grande adrenalina, que nos deixa à beira do assento a sofrer de ansiedade. Ainda que sejam raras as vezes que explora o enorme potencial que tem, quando o faz, é capaz de se sobressair grande parte das vezes, e com muita emoção.

Nota Final: 3.5/5 (originalmente 7/10)

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Originalmente publicado em Central Comics a 27 de Dezembro de 2018.

12 de dezembro de 2018

Roma (2018)


Chegada a altura das nomeações para os grandes prémios, há um filme que parece se destacar como um dos grandes contendores: Roma.

O filme semi autobiográfico de Alfonso Cuarón tem sido bem recebido por muitos, mas o facto de ser uma produção do gigante de streaming Netflix faz com que outros fiquem de pé atrás sem reconhecer o seu verdadeiro valor.


Passado no México, entre 1970 e 1971, Cuarón conta a história de Cleo (Yalitza Aparicio), a governanta duma família de média classe média mexicana, numa altura em que o país estava a celebrar o Mundial de Futebol e mais tarde alcançou manchetes após um massacre na cidade do México.

Cleo toma conta dos vários filhos da família com quem vive, estando ela própria dentro do seio familiar. Vive uma vida relativamente simples, onde tem as suas tarefas diárias e uma vida privada. Tudo parece correr normalmente até ao dia em que ela descobre que está grávida dum rapaz que acaba por lhe abandonar, deixando-a numa situação complicada.


Mais uma vez Cuarón mostra-nos o lado mais artístico da vida, insistindo que cada enquadramento seja passível de uma fotografia que bem podia ter sido tirada durante esta época. Existe um enorme delicadeza na composição visual, ao qual este é reforçado ao estar em preto e branco, tornando coisas simples como cores, meramente irrelevantes.

Por outro lado, é Yalitza Aparicio que contribui para que tudo bata certo, enquanto a acompanhamos naquilo que será certamente uma das alturas mais frágeis da sua vida. Exibindo uma coragem particular, partilhamos todos os sentimentos íntimos das suas vivências, onde crescemos emocionalmente ao mesmo tempo que a sua personagem.

Durante pouco mais de duas horas, vivemos uma vida que não é nossa, onde desconhecidos se tornam rapidamente em pessoas com quem criamos uma preocupação genuína, algo que fazemos num estado vulnerável e de coração aberto. Não são muitos os filmes que têm a coragem de se apresentar deste modo, onde a experiência final vale toda a pena e mais alguma.


Do lado técnico, não só somos brindados com visuais deslumbrantes, como referido anteriormente, como também a todo um trabalho cuidado na sonoplastia, que elevam o visionamento a um nível que muitos cineastas não chegam com facilidade, mas que Cuarón o faz duma forma tão natural quanto respirar.

Porém, debaixo de um filme brilhante, está uma impressão menos feliz. Deixa-me triste saber que muitos irão perder diversos detalhes ao verem este filme num ecrã mais pequeno. Poderia-se dizer o mesmo sobre qualquer outro filme da Netflix, mas neste caso em particular existe uma experiência recompensadora, que é infinitamente melhor apreciada quando vista na grande tela do cinema. Estaria a mentir se não dissesse que me magoa saber que uma boa percentagem de espectadores irá ver esta belíssima obra no ecrã dum smartphone, num comboio a caminho do trabalho.


Roma é, estranhamente, um caso muito especial para a Netflix, ao ponto de darem um tratamento especial a Cuarón como um teste-piloto a futuros filmes de grandes autores, algo que tem sido fortemente discutido nos meios da especialidade, dividindo críticos. A conversa não irá ficar por aqui, já que a Netflix irá lançar no próximo ano o novo filme de Martin Scorsese, The Irishman, que também irá ser exibido em sala. Até lá, resta-nos apreciar esta viagem inesquecível.

Nota Final: 5/5 (originalmente 10/10)

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Originalmente publicado em Central Comics a 12 de Dezembro de 2018.

4 de novembro de 2018

The Night Comes For Us (2018)


Com a Netflix a ser cada vez mais uma plataforma onde a mistura entre ter distribuição directa ao consumidor e uma liberdade criativa sem grandes limites, eis que um dos reis do cinema ultra-violento asiático, Timo Tjahjanto, lança The Night Comes For Us.

Originalmente pensada para ser uma novela gráfica, o filme introduz Ito (Joe Taslim), um ex-membro da tríada em fuga, poupa a vida de uma criança, este vê-se no meio de uma batalha violenta nas ruas de Jakarta durante o seu regresso à cidade.


Tal como seria esperado, o actor e coreografo de artes marciais Iko Uwais também protagoniza o filme, no papel de Arian, um homem que joga em ambos lado das cerca, não sabendo bem para que lado confiar mais. Naturalmente, com ele, está todo um elenco secundário já conhecido destas andanças, como Zack Lee, Sunny Pang, Shareefa Daanish e Julie Estelle, todos eles com papéis em filmes do mesmo género, como The Raid 2: Berandal de Gareth Evans e Headshot do próprio Tjahjanto. 

Existe um enorme poço de criatividade por detrás do planeamento das cenas de acção, sobretudo se tiver um elemento de luta coreografada. Um exemplo claro é durante uma cena passada num talho, onde não só o uso do ambiente em redor é feito duma forma extraordinária, como o uso de todos os recursos existente à volta são fair play. Mais tarde, o espaço apertado duma carrinha de transporte da polícia de repente se torna num autêntico massacre. Por cada pancada, corte, tiro ou soco, é fácil sentirmos na pele toda a violência a ser feita, que se repete várias vezes nas duas horas de filme, sendo elas genuinamente excitantes cada vez que acontecem.


Enquanto que há uma dramatização excessiva quando são os homens à porrada, do outro lado, as lutas com o sexo feminino tendem ser mais elegantes e discretas, mantendo no entanto todo o nível de sangue esperado do uso de um fio garrote a atravessar um pescoço.

Mas não é apenas de cenas destas que vive o filme, enquanto Ito faz o máximo possível para que a rapariga sobreviva, vemos como a relação entre os dois vai crescendo e como uma simples decisão de redenção pesa emocionalmente na personagem principal e que consegue fazer estes momentos mais calmos a serem levados mais a sério.

Atrás da câmara, Timo Tjahjanto põe-nos no meio de toda a acção, com uma cinematografia feita à mão, onde planos rápidos, mudanças súbitas e ângulos arriscados acabam por oferecer uma experiência como mais ninguém é capaz de oferecer, com excepção de Gareth Evans, ao qual ambos de juntaram no V/H/S 2 no segmento “Safe Haven”.


Assim, The Night Comes For Us pode por vezes não fazer grande sentido – priorizando toda a parte das actuações e das inúmeras cenas exaustivamente coreografadas do que ter uma narrativa inteiramente sólida – mas nunca deixando que por um segundo o espectador não fique com o coração aos saltos e a respiração cortada.

Nota Final: 4.5/5 (originalmente 9/10)

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Originalmente publicado em Central Comics a 4 de Novembro de 2018

17 de outubro de 2018

Apostle | Apóstolo (2018)


Gareth Evans. Um nome que para muitos é associado a vários dos melhores filmes de acção e artes marciais made in Indonesia, com Merentau e The Raid – Redenção, ao qual agora faz algo um bocadinho diferente que esperado em Apóstolo, um filme da Netflix lançado a 12 de Outubro.

Com ele está o igualmente charmoso Dan Stevens, mais conhecido pelos seus papéis em Downton Abbey ou em Legion, tendo também colaborado anteriormente com outro dos grandes realizadores de terror, Adam Wingard, em The Guest.


O ano é 1905 e Stevens é Thomas Richardson, um homem cuja missão é infiltrar um culto religioso isolado numa ilha para salvar a sua irmã, Jennifer (Elen Rhys), onde está refém pelo carismático Prophet Malcom (Michael Sheen). À medida que Thomas conhece a comunidade na ilha, este é confrontado com a situações de corrupção one até a hierarquia é rejeitada por alguns membros mais ambiciosos.

Longe, mas não muito, dos grande thrillers repletas de cenas de lutas coreografadas, Apóstolo prioriza a carga dramática com consequências emocionais. Felizmente, a violência extrema esperada ainda está no mesmo sítio, sendo várias as cenas onde damos conta que nem Evans é capaz de se afastar muito daquilo que faz perfeitamente: acção bem pensada ao ínfimo pormenor onde a parada é alta. Tudo isto é acompanhado com o estilo assinatura de shaky cam do realizador e um banda sonora folclórica intrigante, garantido que seja uma experiência genuína que vale a pena viver.


Ainda que alguns dos seus elementos mais sobrenaturais demorem a sobressair, há muito para nos sentirmos inquietos, ao percebermos o quão volátil algumas das pessoas na ilha são. Se dum lado existe o Prophet Malcom, um homem que apesar de ser loco pelas suas crenças,é também tão firme quanto justo na sua jornada, enquanto do outro há quem procure torcer essa fonte de fé apenas para abusarem o poder que lhes traz.

Isto vai ao ponto de uma das cenas vermos um jovem a ser torturado e morto por um dispositivo semelhante a um saca-rolhas primitivo, só por ter impregnado a filha dum dos homens, revelando também todo um universo de patriarcado, onde as mulheres apenas existem para tarefas e necessidades básicas.


No fim, resta-nos apreciar é um filme que começa de uma forma e discretamente transforma-se no seu próprio monstro, onde ninguém está a salvo. É por isso que Apóstolo, ao oferecer uma abordagem diferente dos cultos cujas histórias passam muitas vezes por mitos, consegue fazer o que poucos filmes são capazes: deixar o espectador na ponta da cadeira com o coração aos saltos. E Gareth Evans sabe exactamente como fazer isso.

Nota Final: 4/5 (originalmente 8/10)

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Originalmente publicado em Central Comics a 17 de Outubro de 2018

10 de maio de 2018

Anon (2018)


Vindo provavelmente da popularidade da série de culto Black Mirror, ou pelo menos inspirada na antologia de “terror-porque-é-completamente-plausível”, vem um filme que estreia na Netflix em muitos países estrangeiros, mas que alguns terão a oportunidade de ver no grande ecrã. Sendo apologista que os filmes vêem-se melhor numa sala escura, num ecrã 20 vezes maior que eu, Anon foi um filme que não tinha nenhuma expectativa atrás dele e com tudo para se dar bem.

Daqui a uns anos, a nossa privacidade vai nos ser retirada, com a defesa que tem que existir transparência junto às autoridades, facilitando a nossa identificação permanentemente. Juntando a isso, existe um registo de tudo o que fazemos em vídeo, não vão as provas físicas serem insuficientes quando tens o culpado em flagrante delito.

É este o futuro que Anon nos dá. Pelos vistos também nos oferece um futuro sem sol, pois nas quase duas horas de filme, o cinzento era a cor dominante.


É quando uma série de homicídios ditos estranhos acontecem, o Detective Sal Frieland (Clive Owen) é o homem ideal para os investigar. Recorrendo ao sistema de vigilância humano, é possível ver que o sistema visual delas foi hackeado e foram capazes de ver a sua própria morte, nunca podendo então ver quem ser o seu assassino.

A intriga rapidamente foge para a associação da personagem sem nome de Amanda Seyfried, uma rapariga incapaz de ser identificada pelo tal sistema futurista, deixando assim assumir que ela é a culpada.

Duma forma ou doutra, todas as provas apontam para esta rapariga anónima, que eventualmente se descobrem os seus talentos informáticos em alterar os registos e gravações visuais, sem deixar grandes rastos. É fácil de então perceber que a sociedade presente fia-se tanto neste sistema de provas concretas, que são incapazes de aceitar provas que possam ser contraditórias sem sequer considerarem a sua legitimidade no caso.


Toda a narrativa baseia-se no que vemos, com o filme a passar entre dois aspect ratios diferentes, com um letterbox para o mundo real e um 16:9 para o mundo real com sobreposição do virtual. O problema é que estas passagens tornam-se rapidamente enfadonhas e a visão de Point of View (POV) aborrecida ao fim de 3 cenas repetidas.

Anon é um filme que queria muito ser um episódio de Black Mirror, mais claro do que isso é impossível. Mas acabou por ser demasiado pensado, com toda a sua essência de surpresa retirada à força, com um argumento que finge enganar o espectador e uma realização comprometida pelo uso dos efeitos visuais e sobreposições da tecnologia.

Dito isto, e tendo em conta a tecnologia real existente nos dias de hoje, é possível considerar Anon como um falhanço necessário para vermos o potencial que a ideia do espectador decidir o rumo da narrativa dum filme pode ser uma opção viável.


Isto é possível através da CtrlMovie, uma empresa que tem andado nas bocas do mundo estas últimas semanas, depois da 20th Century Fox anunciar que iria produzir um filme onde nós podíamos escolher os caminhos das personagens, dando uma experiência mais personalizada.

Assim, se Anon adoptasse esta tecnologia, talvez teria tido outro destino. Mas da forma que o vemos hoje no formato tradicional de cinema, é uma experiência que, infelizmente, não tem valor que lhe valha.

Nota Final: 3/5

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Originalmente publicado em Geek'Alm a 10 de Maio de 2018.