Mostrar mensagens com a etiqueta 2017. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta 2017. Mostrar todas as mensagens

2 de setembro de 2020

The Babysitter (2017)


Por vezes, as pessoas que mais gostamos podem revelarem ser piores do que alguma vez imaginamos. É o que fazemos com essa revelação que conta e neste filme da Netflix, The Babysitter, descobrimos um grupo curioso de personagens e uma babysitter com intenções inesperadas.

Cole (Judah Lewis) é um rapaz que se vê numa situação muito estranha com Bee (Samara Weaving), uma babysitter atenciosa e divertida. Numa noite em que os pais de Cole os deixa sozinhos, este descobre o que acontece depois de ir dormir, quando vê um grupo de estranhos na sua sala, acabando numa aventura pela sua própria sobrevivência.


A curiosidade inata que o filme estabelece desde cedo deixa-nos colados ao ecrã, nem que seja ao cairmos pelo encanto de Bee, retratada como a imagem da perfeição, mas que esconde um grande segredo. E quando esse é descoberto perante os nossos olhos, todas as expectativas que poderíamos ter num filme que aparentava ser apenas mais um slasher de adolescentes no meio de muitos, acaba por ser algo muito mais interessante, com choque atrás de choque ao nosso sistema vulnerável.

Talvez aquilo que faça deste filme tão divertido, é o seu elenco variado de caras conhecidas, suportadas por pseudo-estereótipos e as suas qualidades auto-depreciativas, como se de uma paródia tratasse. Com ele, contamos com Max (Robbie Amell), o jovem musculado, desportista e com um ego inflacionado; Sonya (Hana Mae Lee), a asiática cirurgicamente estranha; Allison (Bella Thorne), a cheerleader fútil; e John (Andrew Bachelor), o negro que, apesar de tudo, recusa-se a conformar com o género que normalmente o mataria primeiro. 


Existe uma cena entre Max e Cole, que interrompe a violência sádica constante no filme, onde o musculado força-lhe a confrontar o seu bully, como se de um irmão maior se tratasse. É uma cena altamente inesperada, e muito querida no filme, apesar de ser curta e resumir devidamente aquilo que estava a fazer. Há até tempo para uma pequena história de amor com a crush de Cole, Melanie (Emily Alyn Lind), que pede para ser mais visto.

Assim, The Babysitter é um filme de puro divertimento, com a grande qualidade de se poder assistir novamente vezes sem conta, sem que este perca a sua alma. Existe uma mensagem qualquer no meio sobre confiança, amor adolescente e auto-estima, mas por mais que tente mostrar o seu lado mais normal, há sempre um homicídio maníaco à espreita, pronto para fazer esquecer qualquer ideia séria que possamos ter perante o filme, de uma forma que só McG sabe fazer, com um slasher de grande eficácia.

Nota Final: 4/5

23 de maio de 2020

Super Dark Times (2017)


São raros os filmes que deixam uma impressão duradora, sobretudo numa altura em que estamos constantemente rodeados de filmes dos quais nunca sabemos bem qual será a nossa reacção aquando o final. A estreia de Kevin Phillips nas longas-metragens, com o conto obscuro Super Dark Times, é uma dessas raridades, apanhando-nos de surpresa, sem nos dar uma oportunidade para nos prepararmos para o que vinha aí.

A história segue Zach (Owen Campbell) e Josh (Charlie Tahan), dois adolescentes melhores amigos que acabam por se verem numa situação para além de complicada, quando Josh acidentalmente mata outro rapaz com uma espada de colecção, deixando-nos à deriva da paranoia que lentamente os consome por de dentro, num thriller de deixar qualquer um muito, muito, ansioso.


Há um silêncio perturbador que persegue estas personagens metidas no que é o maior sarilho que poderiam estar nas suas vidas, enquanto acompanhamos de perto as consequências que as suas acções têm sobre um e o outro, como também na comunidade onde vivem e prosseguem com as suas vidas normais mantendo tudo em segredo. Algo que o filme faz muito bem é mostrar a química que duas personagens têm uma com a outra, sem que tenham que estar presentes na mesma sala, salientando as raras vezes que estão juntos após a tragédia.

A base moral desintegra quando vemos como o sofrimento influencia personagens secundárias, sobretudo Allison (Elizabeth Cappuccino), a rapariga do lado que está no centro de um triângulo amoroso que acaba por ter uma influência sobre o rumo de uma história brilhantemente escrita por Ben Collins e Luke Piotrowski, onde o inesperado está sempre à espreita.


Todos os detalhes em Super Dark Times foram minuciosamente pensados, algo que se torna claro com as várias referências de cultura-pop, o guarda-roupa, a estética, entre muito mais; algo que podemos apreciar nesta viagem negra por uma amizade tornada rivalidade, onde a morte paira no ar.

Com isto, Super Dark Times é uma incrível viagem que recompensa aqueles que se mantiverem atentos com uma história cativante, repleta de um mistério que carrega um grande peso em cima dos seus ombros, culminando num dos finais mais chocantes do cinema de género moderno. Kevin Phillips prova que está mais que à vontade no grande ecrã, após uma carreira a fazer vídeoclipes, e o pequeno, mas perfeito elenco traz as emoções à flor da pele. Este é um daqueles filmes que ficam para a memória, assombrando-nos para sempre.

Nota Final: 5/5

23 de julho de 2019

Power Rangers (2017)


A nostalgia é algo que é capaz de apelar o melhor em nós, que somos muitas coisas, mas acima de tudo somos fã de uma coisa da qual temos um grande carinho e que somos capaz de guardar e defender. Depois há aqueles que são os verdadeiros donos dessas mesmas propriedades que deixam outros explorar aquilo que nos é tão querido, onde o cepticismo por ser novo entra em acção. Foi assim que me senti quando o reboot de Power Rangers foi lançado em 2017.

A junção de uma mão cheia de adolescentes com problemas vários, Jason (Dacre Montgomery), Kimberly (Naomi Scott), Billy (RJ Cyler), Zack (Ludi Lin) e Trini (Becky G) são forçados a servirem juntos contra um mal maior em forma de Rita Repulsa (Elizabeth Banks). Sob a ajuda de Zordon (Bryan Cranston) e Alpha 5 (Bill Hader), este reboot dos heróis adaptados do original japonês vêm-se numa situação da qual o único escape é cumprirem até ao fim o seu chamado destino.


À primeira vista, Power Rangers não é mais nada senão um tradicional filme de adolescentes que após uma má experiência ganham super poderes e são fortes o suficiente para serem os únicos que podem salvar a Terra. A diferença é que têm duas horas e uma vilã que pouco ou nada serve senão mostrar que a união faz a força.

Esta abordagem moderna é exaustivamente insonsa na sua maioria, sendo que as coisas só começam a ficar interessantes durante a última meia hora de filme, que é sobretudo quando tudo está no seu auge. Os Power Rangers já estão nos seus terríveis fatos em CGI, com os seus veículos mais ou menos fixes e com a acção a decorrer. Até lá é tudo um grande teste à paciência enquanto toleramos uma história de origem comparável com o segundo reboot de Quarteto Fantástico, mas nem de perto tão mau.


No entanto, é razoável esperar uma coisa dentro do mesmo género que a série de televisão, que ainda vai dando cartas, mas com um orçamento maior. Sim, os efeitos da sua versão em televisão parecem saídos duma banda desenhada, algo que faz parte da identidade e que aqui se acha ser melhor que isso. Mas é de uma curiosidade tremenda em como este filme lançou as carreiras de Dacre Montgomery, que viria aparecer pouco tempo depois na segunda temporada de Stranger Things, e Naiomi Scott, que encantou o mundo como Jasmine no live-action de Aladdin e irá protagonizar a nova versão d'Os Anjos de Charlie mais tarde este ano. Entretanto, irá haver um novo reboot de Power Rangers com novos actores, ignorando por completo o star power que estes dois actores têm agora.


É importante referir que Adi Shanker produziu uma curta para adultos no âmbito do seu Bootleg Universe, intitulada POWER/RANGERS, que poderia ter sido expandida para um filme ou uma série numa das plataformas de streaming, ao estilo de como a Netflix e a Marvel fez com alguns dos seus super-heróis. Da mesma forma que parte do elenco original se juntou com outros ex-actores das séries de Power Rangers se juntaram para fazerem Legend of The White Dragon, um filme que, por questões legais, está a evitar a tudo o custo todas as associações directas ao seu material original, fiando que é bom suficiente para que seja associado apenas de forma implícita pelo espectador. Estes esforços colectivos (e independentes), apenas mostram que existe uma comunidade disposta a levar a ideia destes heróis a outros níveis, algo que é completamente admirável.


Sendo assim, este reboot é uma tentativa que não é inteiramente má, mas que merecia muito mais que uma mera história de origem, com uma personagem mais ameaçadora e uma liberdade muito maior em ser algo verdadeiramente incrível, considerando o seu orçamento, capaz de homenagear as suas humildes origens. Teremos que esperar pelo novo reboot, ainda sem data prevista, mas cruza-se os dedos para que saibam o que andam a fazer.

Nota Final: 3/5

1 de julho de 2019

Brawl in Cell Block 99 | Rixa no Bloco 99 (2017)


Após uma estreia aclamada pelo público e pela crítica, com o western A Desaparecida, o Aleijado e os Trogloditas, eis que S. Craig Zahler regressa com mais um passo interessante na sua curta carreira, ao escrever e realizar Rixa no Bloco 99, indo novamente no caminho de trazer de volta um género já pouco abordado: os exploitation films.

Bradley Thomas (Vince Vaughn) é um ex-pulgista tornado transportador de drogas, para dar à sua mulher grávida a melhor vida possível, após terem resolvido uma discussão grave onde Lauren (Jennifer Carpenter) tinha traído Bradley. Dezoito meses depois, as coisas parecem correr bem, até o que seria apenas mais uma ronda, acaba com Bradley a parar um tiroteio com a polícia. Infelizmente, este terá que cumprir uma pena na prisão pelas suas acções, algo que se torna difícil quando a sua mulher é raptada e é ameaçada a morte da sua filha ainda por nascer, caso não assassine um outro presidiário.


Estamos novamente perante um longo filme onde o foco é o desenvolvimento pessoal da personagem principal, que se vê numa situação dura de roer, a que se adiciona um problema ainda maior quando não tem outra escolha senão cavar um buraco ainda mais fundo para salvar aqueles que ama.

Incrivelmente, Vince Vaughn brilhante neste papel de durão, entre as várias lutas onde ainda leva uma boa dose de porrada em cima. Para um actor deste género, cujo reportório é composto grande parte dele por comédias e dramas, é bom ver que é capaz de suportar algo tão sério duma forma natural.


A narrativa demora o seu tempo a desenvolver, onde cada problema representa um passo em frente para a sua finalidade principal: chegar ao bloco 99 e cumprir aquilo que tem que fazer. Claro que tudo é prosseguido com angústia, onde pouco a pouco sentimos a raiva a crescer dentro de Bradley, que mais tarde ou mais cedo, lança o caos sem pensar duas vezes, mostrando uma realidade cruel do verdadeiro sacrifício para a família.

Mas Rixa no Bloco 99 é um filme deveras estranho de se ver hoje, considerando o mundo em que vivemos e como o filme descarta todas e quaisquer noções de politicamente correcto. Falo de situações de vocabulário racial, violação da integridade e uma descrição bastante gráfica de ferir alguém pelo puro divertimento, ao qual se junta uma boa dose de sangue e partes corporais partidas, sempre duma forma extremamente obscura e real. É assim que Zahler presta novamente homenagem a um género perdido e claro, faz-o da sua própria forma, onde a prisão é verdadeiramente um inferno.


No fim, somos brindados com uma mensagem triste e fria, sem qualquer tipo de embelezamento. A vida é terrível e mesmo quando tentamos fazer o bem e ser justos, nem sempre seremos devidamente recompensados pelas nossas acções, pois a vida não tem finais felizes e este filme muito menos. O que nos valha é que Zahler não tem intenções em parar, já que este é o primeiro filme na Cinestate, uma das produtoras que parecer ter os olhos postos em mudar o cinema independente, e está a consegui-lo.

Nota Final: 4/5

4 de maio de 2019

John Wick: Chapter 2 | John Wick 2 (2017)


Após ter criado o seu pequeno fenómeno de culto, Keanu Reeves regressa no que é certamente o papel que define a sua carreira, ao lado daqueles todos que nos lembramos dos anos '90, e claro, da trilogia Matrix. Mas John Wick é um bicho diferente, um bicho onde uma premissa relativamente simples mostra o potencial de ser algo muito maior. Naturalmente, o sucesso do primeiro filme permitiu que este John Wick 2 mergulhasse no mundo que já no primeiro quis muito contar, desta vez com Chad Stahelski a solo na realização.


Horas depois do seu confronto com os russos, o regresso de John ao submundo dos assassinos fez com que um antigo associado, Santino D'Antonio (Riccardo Scamarcio) cobrasse o que lhe era devido: um favor em forma de assassínio, neste caso da sua irmã Gianna (Claudia Gerini), que ocupa um lugar na High Table, a organização criminosa-mor deste universo.

Este favor não é fácil de cumprir para John, já que este estava reformado e ainda sobre luto da morte da sua mulher, mas que não tem outra opção se quiser sair de vez. Como seria esperado, não será tarefa fácil.


Logo à partida,apercebemos-nos que estamos perante um filme recompensado com um orçamento maior, não fosse as várias viagens que John faz ao longo da película, onde é dado a conhecer o quão longe é o alcance da High Table, quem são e as devidas consequências em não jogar pelas regras deles. Quanto mais fundo vamos prosseguindo, mais percebemos que existe todo um universo a debaixo do nosso nariz, um que acaba por, mera nostalgia, reunir Keanu Reeves a Laurence Fishburne, como um dos seus aliados, ao qual se junta novamente Ian McShane, que é de longe uma dádiva para esta série.

Enquanto que o filme anterior, um primeiro passo repleto de coincidências felizes à mercê dos argumentistas, fosse eficaz o suficiente para ser perdoável todo o aspecto básico de storytelling, esta sequela já contém mais substância, ao acompanharmos um herói que apenas se quer paz e sossego, duma vez por todas. Garantidos estão os vários tiroteios e tantas outras sequências de acção, algumas gravadas duma vez, mostrando a belíssima coreografia envolvida que realmente fazem destes filmes altamente divertidos de se ver, com um terceiro acto digno dum épico.


Ainda que o seu final se sinta um pouco forçosamente para abrir portas para uma trilogia, na verdade é difícil ter qualquer tipo de problema por terem arranjado uma desculpa para vermos mais de John Wick e vermos o quão longe ele está disposto a ir contra aqueles que o querem morto.

Nota Final: 4/5

7 de fevereiro de 2019

Happy Death Day | Feliz Dia Para Morrer (2017)


O terror sempre foi um género conhecido por explorar conceitos, aos lhes juntar com ideias que parecem não ter grande compatibilidade, sendo esse o grande desafio proposto. Desta vez, o clássico O Feitiço do Tempo, de 1993 com Bill Murray, e os slashers que vieram antes dele reinventam-se juntos, pela mão de Christopher Landon, em Feliz Dia Para Morrer.

Tree (Jessica Rothe) é uma estudante universitária que no seu aniversário vê-se numa situação complicada, quando é perseguida por um assassino que usa uma máscara de bebé. Este assassino tem sucesso na sua missão, ao conseguir matar Tree, mas a mesma acorda no inicio do dia, dando-lhe várias oportunidades de resolver o seu homicídio e descobrir quem é que lhe quer morta.


O que se segue é uma grande investigação feita por tentativa e erro, onde as sucessivas missões falhadas tornam-se na revelação de novas informações, que mais tarde ou mais cedo acabam por lidar ao verdadeiro assassino. Na verdade, o filme poderia ter sido encurtado com uma linha de pensamento mais prática, mas a necessidade de contar uma história divertida é feita prioritária.

É, como esperado, que Jason Blum e a sua produtora, Blumhouse, estejam na vanguarda contínua de oferecer novas experiências, mesmo que essas sejam inspiradas por outras e modernizadas para um público que passa o resto do dia à frente dum ecrã de smartphone. Mas é dessa mesma forma que a simplicidade como esta narrativa está disposta que permite um impacto maior e aumenta o interesse pelo mistério.


É por isso que Feliz Dia Para Morrer sem Jessica Rothe não seria a mesma coisa, pois o filme não se foca nas consequências do actos sobre o seu universo (que são bastantes, mas raramente abordadas), mas sim em Tree e como ela encara essas mesmas para resolver o seu próprio caso, cumprindo um dos princípios básicos de storytelling: haver uma mudança interior na personagem. É a olhos vistos que vemos Tree a ser menos uma rapariga irritante e mais uma pessoa com maturidade e consideração, revalidando as suas prioridades internas e as pessoas que a rodeiam.


Deste modo, Christopher Landon tropeçou no que acabaria por ser uma mina de ouro surpresa, já que o filme foi um enorme sucesso inesperado por todo o mundo e tem uma sequela prestes a estrear, expandindo a premissa para além daquilo que inicialmente suspeitámos. Assim, Feliz Dia Para Morrer oferece uma variação interessante de conceitos clássicos, com uma personagem altamente capaz de suportar todas as teorias e soluções propostas, sendo Tree uma brilhante final girl do terror moderno.

Nota Final: 3.5/5

28 de janeiro de 2019

The Killing of a Sacred Deer | O Sacrifício de Um Cervo Sagrado (2017)


Se há algo no cinema que vale a pena, é a possibilidade de passarmos uma experiência que nos transtorne a níveis mais além que um filme é suposto, quebrando a barreira invisível e impede-nos de dizer que é "só um filme". O escritor e realizador grego Yorgos Lanthimos tornou esse talento numa arma com O Sacrifício de Um Cervo Sagrado, inspirado na tragédia grega de Ifigénia em Áulide por Eurípides.

Steven (Colin Farrell) é um cirurgião cardiotorácico altamente respeitado, que nos últimos seis meses tem estado com o jovem Martin (Barry Keoghan), um rapaz que perdeu o pai numa cirurgia pela mão de Steven. Ambos têm uma relação amigável, onde Steven tenta reconfortar Martin com prendas e companhia, inclusive apresentado-o à sua família. Entretanto, algo muda e Martin ameaça Steven que tem que equilibrar as contas da morte do seu pai, tendo que matar um membro da sua família. Caso não faça uma escolha, os seus filhos, Bob (Sunny Suljic) e Kim (Raffey Cassidy), mais a sua mulher Anna (Nicole Kidman), irão morrer todos.


É deveras estranho a curva que este filme dá, a um momento tão delicado como vermos os pais a passarem pelo sofrimento dum filho em dores, neste caso, incapaz de sentir as suas pernas. É um sentimento que vai ficando cada vez mais constante, como se algo terrível se está a passar, sem nunca darmos bem conta visivelmente, fiando na nossa intuição.

Isto é possível pela cinematografia incrivelmente diversa, arriscando com vários enquadramentos que pintam uma imagem repleta de sublimidade, num estado altamente caótico. São as mesmas cenas que incomodam o espectador, que sente na pele que algo está muito de errado, algo que a banda sonora ecléctica contribui fortemente, deixando algo estranho na mente.


O Sacrifício de Um Cervo Sagrado também está cheio de pequenas alterações que parecem ser um mal comum neste universo, desde do tom mono-tónico que as personagens falam, quase duma forma clínica; como também uma atmosfera de desconfiança que estamos perante algo que se assemelhe a um culto, onde tudo tem uma ordem natural de ser. A isto se junta um peso permanente nos nossos ombros, que provavelmente nos quer afogar nas suas mágoas.

Não é de todo um filme fácil de ser ver. Não foi à primeira e certamente que não será à segunda ou à terceira, já que encontramos aqui a derradeira tragédia capaz de nos questionar das nossas decisões de vida, duma forma única que só Yorgos Lanthimos sabe fazer, querendo provar o quão longe vamos para proteger os nossos filhos e o verdadeiro significado da palavra "sacrifício".


Não existe nada como O Sacrifício de Um Cervo Sagrado, isso vos garanto, da mesma forma que jamais olharão para certas pessoas da mesma forma. Será que as conhecemos tão bem quanto achámos? Não me vá parecer que sim...

Nota Final: 4.5/5

10 de dezembro de 2018

Anna and the Apocalypse | Anna e o Apocalipse (2017)


Não é a primeira vez que os musicais se misturaram com o terror, já tendo exemplos como Repo! A Ópera Genética de 2008, ou, voltando ao ano de 1975, Festival Rocky de Terror. O que estes três filmes têm em comum é terem um pequeno grupo de seguidores fieis, com muitas ideias extraordinárias que abrem portas à junção de dois géneros que acabam por se conjugar muito bem entre eles.

No caso de Anna e o Apocalipse, John McPhail traça o seu próprio caminho com a sua personalidade mais britânica, indo em conta às suas inspirações locais, como o clássico de zombies de Edgar Wright, Shaun of The Dead. Com um argumento escrito pelos seus amigos Alan McDonald e o falecido Ryan McHenry, este último escreveu e realizou em 2011 a curta-metragem que viria inspirar este filme. Zombie Musical.


Anna (Ella Hunt) é uma estudante do liceu que após se graduar, quer viajar até à Austrália durante um ano, antes de ir para a faculdade. Mas algo bizarro se passa na pequena vila de Little Haven, quando uma epidemia mortal torna toda a gente em zombies, iniciando o que é o fim da civilização.

Anna não está sozinha, tendo vários amigos ao lado dela, como John (Malcolm Cumming), o melhor amigo apaixonado por ela; Lisa (Marli Siu), a amiga de sangue e Steph (Sarah Swire), a americana abandonada enquanto os pais exploraram o Mundo sem ela. Estes terão, juntamente com outras personagens, sobreviver esta catástrofe em conjunto. Enquanto isso, vários pais estão encurralados na escola do director ditador Savage (Paul Kaye), mais preocupado em seguir as regras e o seu poder, do que ajudar as pessoas necessitadas.


As músicas originais ficam na cabeça e, apesar deles estarem na situação complicada de lidarem com zombies, existe uma certa leveza na abordagem da narrativa, mesmo com sangue a jorrar por tudo que é lado e cabeças a saltar. Garanto-vos que não existe nada mais natalício que um bocadinho de violência contra mortos-vivos com uma bengala doce gigante.

Com uma história bem segmentada, Anna e o Apocalipse tem a capacidade incrível trazer ao de cima os vários sentimentos necessários para ser um musical digno da sua história, com muitos risos, alguns choros, acompanhado de sangue, tripas a um nível altamente divertido, que faz esta obra o novo filme de Natal favorito de toda a gente, com certeza mudando o rumo das tradições de Natal para futuras gerações. Adeus Música no Coração, olá Anna! 

Nota Final: 4.5/5

27 de novembro de 2018

American Satan (2017)


O diabo e o rock 'n roll vão de mão em mão desde há muito, quando se ainda acreditava que Elvis estava possuído e era uma encarnação do mal. Engraçado como a história não muda...

O estado do rock e do metal moderno deu asas à imaginação a Ash Avildsen, que não só é argumentista e realizador, também fundou uma das companhias discográficas mais relevantes do género, a Sumerian Records, onde artistas como Asking Alexandria, The Dillinger Escape Plan e o grupo sensação Palaye Royale tiverem grande sucesso. 

Também bem sucedido é Andy Biersack, vocalista dos Black Veil Brides, que faz aqui a sua verdadeira estreia como actor, ao lado doutro músico que está a enveredar como actor, Ben Bruce, guitarrista dos Asking Alexandria. A eles ainda se junta um dos reis do cinema de terror, Malcom McDowell, no papel de facilitador diabólico no meio disto tudo.


Conhecemos The Relentless, uma banda cujo sonho é serem as novas estrelas do rock e estão dispostos a trabalhar para isso. Mas após de um inicio atribulado na sua carreira, estes fazem um negócio com o diabo, que lhes dá tudo aquilo que querem. Claro que esse excesso de poder traz novos problemas, em forma de sexo, drogas e sangue.

Acompanhamos Johnny (Andy Biersack), Leo (Ben Bruce), Vic (Booboo Stewart), Lily (Jessie Sullivan) e Ricky (John Bradley) durante um período de 2 anos, onde vemos-los crescerem de uma banda local a mártires com seguidores que não deixam nada se meta à frente da sua admiração por eles.

Ainda que frequentemente o filme pareça demasiado forçado nas suas acções, desde da criação de conflicto entre uma banda rival, ao acordo com uma entidade que lhes promete tudo que imaginam, existe aqui um paralelismo claro perante as inúmeras histórias de bandas que foram prometidas o mundo e que estão agora na bancarrota e com uma grande lista de arrependimentos.


Mesmo assim, existe um esforço notável para criar algo que seja mais um filme para a televisão, onde todos os ingredientes típicos para um filme do género estão presentes. Apenas funciona duma forma diferente daquilo que possam esperar, com conotações bíblicas reinterpretadas para um novo público.

Se o filme é medíocre, a banda sonora por outro lado ganha fãs, entre temas originais compostos para o filme e que são incrivelmente actuadas, a temas de bandas como Deftones e The Pretty Reckless, que frequentemente definem bem o ambiente em seu redor

Com isto, American Satan é um filme que começa duma forma descontraída para rapidamente se levar demasiado a sério, com o cheiro a sexo com groupies, cocaína, heroína, demónios e mais panóplia e meia de actividades ilícitas porque é assim que a reputação do rock 'n roll tem que ser mantida. A ideia tem algo de brilhante, mas o produto final deixa muito a desejar. Infelizmente.

Nota Final: 2/5

31 de outubro de 2018

The Endless | O Interminável (2017)


Quando Aaron Moorhead e Justin Benson se apresentaram ao mundo em 2012 com Resolução Macabra, pouco saibamos que estávamos perante o que seria uma das pérolas mais bem conseguidas do cinema moderno e o inicio de algo grandioso. Após uma pausa em 2014, com Spring, eis que vemos o duo expandir o universo do seu primeiro filme em O Interminável.

Desta vez, Moorhead e Benson não só escrevem, produzem e realizam, como também são os protagonistas deste filme, encarando  personagens com o mesmo primeiro nome que o deles, certamente uma decisão criativa propositada ainda que não se estejam a retratar a si mesmos.


Aaron e Justin são dois irmãos que há 10 anos atrás escaparam ao que chamam um "culto de morte OVNI", perseguindo uma vida normal, tendo sessões frequentes de desprogramação ainda após uma década. Um dia, recebem uma cassete com uma gravação de um dos membros do culto e ao que tudo parece é uma mensagem de despedida. Aaron, que não tem grandes memórias do seu tempo em Camp Arcadia, implora ao seu irmão para os visitarem antes de ascenderem, seja o que for que isso significa.

Como esperado, há algo de pesado na atmosfera tal como é habitual nos filmes da dupla. É algo que não conseguimos bem pôr o dedo sobre o que é, mas sabemos que existe algures nos planos que vemos. Daí ficarmos cada vez mais intrigados por cada nova personagem do culto que conhecemos, como por exemplo Anna (Callie Hernandez), uma rapariga que sempre teve um fraco por Aaron ou Hal (Tate Ellington), o líder que não acredita ser perante as pessoas que o seguem. Há uma história por detrás cada um deles e uma motivação persistente que os faz acreditar que têm um propósito maior, sendo isso uma parte importante das suas crenças.


A isto junta-se a reintrodução da mitologia, que faz mover esta narrativa de forma coesa, enquanto vamos descobrindo o quão profunda é esta toca de coelho que tanto puxa por nós e nos deixa curiosos em descobrir. À medida que as pistas vão sendo deixadas discretamente, vamos compreendendo um pouco do grande puzzle no qual as personagens estão inseridas e que não imaginam o quão grande ele é. Estas pistas são variadas indo desde pequenas estátuas de pedra a cassetes de video e fotos mostrando que algo maior os está a ver, sendo impossível não ficar atraído pela forma como somos consumidos por este universo e as suas regras.

A aparição de Mike (Peter Cilella) e Chris (Vinny Curran) de Resolução Macabra não só nos deixa felizes em ver os dois melhores amigos novamente juntos, como sabendo o que lhes aconteceu depois do seu fim inesperado, demonstrado no final do primeiro filme.

Assim, O Interminável é apenas mais uma prova o quão longe vai o talento de Aaron Moorhead e Justin Benson em frente e atrás da câmara, com um filme que deixa no ar perguntas sobre a humanidade e as suas crenças numa entidade maior.

Nota Final: 5/5


• • •

Originalmente publicado em Cinema à Rolha a 30 de Outubro de 2018

27 de outubro de 2018

Amar (2017)


María Pedraza é neste momento uma das jovens actrizes a mudar o mundo. Com apenas 22 anos, a actriz já tem no seu currículo duas séries das séries mais vistas internacionalmente na Netflix, com La Casa de Papel e o recentemente lançado Élite, como também faz a sua estreia no cinema, em Amar de Esteban Crespo, que também estreia-se nas longas-metragens.

Baseada na curta-metragem homónima de 2005, também de Crespo, Amar conta-nos a história de Laura (María Pedraza) e Carlos (Pol Monen), dois jovens que estão perdidos no amor um pelo outro, não deixando que nada nem ninguém impeça-lhes de prosseguirem com os seus sonhos de eterna felicidade.

É com amor que vemos Laura e Carlos a explorarem a influência que está em torno deles, sobretudo amigos e família, como também a sua sexualidade como casal. Estamos de facto perante duas pessoas que parece que se amam incondicionalmente, mas claro que como podem calcular também têm os seus altos e baixos. Nem tudo é fácil; ambos têm objectivos de vida algo diferentes muito por causa da família de onde vêm: Laura é filha de uma divorciada de classe-média, enquanto que Carlos vem de uma família rica, ainda que o seu objectivo de vida seja de se afastar de tudo isso.


Enquanto que Pedraza e Monen são o típico casal de escola moderno, constantemente a trocarem mensagens e a sonhar com um futuro brilhante, os obstáculos que testam o seu relacionamento são das mais normais possível, havendo aqui uma naturalidade em como o filme encara a vida destes dois. É com a mesma mentalidade de A Vida de Adele que Amar faz o seu percurso em mostrar as variáveis do amor jovem, onde notamos realmente que María Pedraza tem, por mero acaso, algumas semelhanças que a  francesa Adèle Exarchopoulos.

São vários as vezes em que o amor dos dois é contagiante, sendo estas personagens construídas de uma forma incrível. A isto se junta uma cinematografia perfeitamente inconsistente, acompanhando os momentos bons e maus da sua relação, feita de forma quase poética e um sentimento familiar por detrás das suas intenções.


Com isto, Esteban Crespo expande para além da recriação da sua curta-metragem original, sendo Amar um coming-of-age romântico, que retrata de forma relativamente fiel como o amor entre a juventude é vista, onde os problemas comuns das relações são resolvidos à medida que a experiência de vida é criada. Só assim se poderá ser verdadeiramente feliz.

Nota Final: 3.5/5
• • •


Originalmente publicado em Cinema à Rolha a 26 de Outubro de 2018

26 de outubro de 2018

Bajo La Rosa (2017)


Lidar com o desaparecimento da própria filha nunca poderia ser algo fácil, sobretudo se o sequestrador aparecer à nossa porta à procura da resposta de uma pergunta vaga. É com base nessa premissa que o realizador Josué Ramos cria a tensão por detrás do seu mais recente filme, Bajo La Rosa.

Quando Julia (Elisabet Gelabert) e Oliver (Pedro Casablanc) sabem que a sua filha, Sara (Patrícia Olmedo), foi raptada por um homem que quer aparecer em casa deles, a família entra num jogo psicológico, onde a única coisa que o homem de negro (Ramiro Blas) quer é que eles admitam um erro que cometeram, revelando vários segredos que irão mudar estas pessoas para sempre.

Em busca deste segredo, o homem de negro nunca revela o seu nome, apenas as suas intenções de se fazer descobrir a verdade que o motivaram às suas acções, deixando nós espectadores a perceber tudo ao mesmo tempo que família sequestrada. Todos são culpados de alguma coisa má, sendo esta a oportunidade de se redimirem de um erro que nem eles próprios sabem se é aquilo que o homem de negro procura.


Claro que as quase duas horas de filme garantem que não acertam à primeira a razão deste homem ter cometido um crime de rapto, mas não deixa de ser intrigante descobrirmos pouco a pouco o porquê das motivações. Aliás, só muito mais perto do final do filme é todas as decisões tomadas fazem sentido, dando assim espaço para uma análise sobre quem é realmente o vilão desta história.

Por outro lado, o ritmo do filme é onde se descai mais, dando muitas vezes voltas desnecessárias em torno do homem de negro, que, apesar de trazer muita tensão, acaba por cair na repetição dos seus erros. Um exemplo é este agir como mero espectador, deixando que os membros da família confessem vários acontecimentos que acham que seja a verdade que ele procura, pressionando na culpa. Nem sempre resulta, quase sempre faz com que se volte à estaca zero com apenas uma consequência que, apesar de ser levada com seriedade, não avança tão bem a narrativa tanto quanto se gostava.


Com isto, Bajo La Rosa é um thriller intenso, com uma narrativa de deixar qualquer com um ataque de ansiedade. No entanto, poderia ter beneficiado uma duração mais curta e momentos em que sentimos que o risco é verdadeiramente real antes do clímax, que esse sim merece toda a nossa atenção.

Nota Final: 2.5/5
• • •


Originalmente publicado em Cinema à Rolha a 25 de Outubro de 2018

24 de outubro de 2018

Perfectos desconocidos (2017)


Álex de la Iglesia é uma referência no cinema espanhol,« com uma abordagem bastante criativa dando uma vida entusiasmante aos seus filmes. É por isso que a adptação do filme italiano Perfetti Sconosciuti traz um outro sabor na língua dos nuestros hermanos, em Perfectos desconocidos.

Os jantares de amigos jamais serão os mesmos quanto sete amigos se juntam e são desafiados a meterem os telemóveis em cima da mesa. Todas as mensagens terão que ser lidas em voz alta e as chamadas atendidas em alta voz para todos ouvirem. Claro que estamos perante sete pessoas com as vidas mais interessantes de sempre.


Durante um eclipse lunar, coisas estranhas acontecem tal como todos os segredos serem relevados porque, como seria de esperar, todos têm uma vida privada que não revelam tanto. Mas é com base nesse conceito que la Inglesia faz o que faz melhor: oferecer entretenimento do mais alto nível, onde nunca sabemos o que vai acontecer a seguir. Sendo este a 14ª longa-metragem do realizador espanhol, este consegue sempre sair por cima de todos os desafios que vêm atrás da criação de novas histórias.

Apresento-vos um dos melhores elencos deste ano, que mais fazem andar para a frente nesta narrativa, desde da psiquiatra Eva (Belen Rueda), ao seu marido cirurgião plástico Alfonso (Eduard Fernandez), mostram ser o mais maturos da mesa, enquanto que Antonio (Ernesto Alterio) e Ana (Juana Costa) têm um casamento complicado e passam a noite a falarem mal um com o outro. Noutra ponta da mesa está Eduardo (Eduardo Noriega) e Blanca (Dafne Fernández), a mostrarem o que é o amor jovem, onde nenhum obstáculo é tão grande. Finalmente, a ovelha negra desta família de amigos está Pepe (Pepón Nieto), um homem desempregado mas com uma reputação de ter sempre a namorada mais gira.


Em conjunto, há uma permanente dança entre as personagens, jogando sempre com o suspense no ar. A qualquer momento algo revelador poderá surgir e ficamos nós sentados à ponta da cadeira, nervosos em saber como é que a história se irá desenrolar e eventualmente as suas consequências, já que ninguém é inocente nesta trama. Pouco a pouco, as teias da conspiração entrelaçam entre a verdade e a mentira, provocando muitas vezes ataques de riso que não podemos simplesmente conter e também algumas lágrimas.

Assim, Perfectos desconocidos, apesar de não ser uma ideia original, é certamente uma adaptação divertida que agarra-nos pelo colarinho e mostra-nos como a tecnologia será um dia o nosso fim. A começar pelas nossas mentiras.


Nota Final: 4/5
• • •


Originalmente publicado em Cinema à Rolha a 23 de Outubro de 2018

23 de outubro de 2018

El intercambio (2017)


Fazer uma troca de casais envolve uma certa mentalidade para que as coisas corram da melhor forma, onde no fim a relação deverá ser mais forte. É com essa intenção que Eva (Natalia Roig) e Jaime (Pepón Nieto) vão, a caminho de conhecerem um outro casal disposto a oferecer uma experiência fora-da-caixa. Jaime está muito confiante que a noite será esplêndida, enquanto que Eva pensa que o homem com quem vai estar tem "cara de hamster".

Ao chegarem ao apartamento, estes descobrem que as pessoas que contactaram não são iguais a do site, ao conhecerem Máximo (Hugo Silva) e Dómina (Rossy de Palma), duas pessoas com uma mentalidade aberta, onde o sexo e o amor são predominantes. Inseguro que Eva irá deixar de gostar dele, Jaime decide sabotar a noite através de uma série de ideias meio descabidas e que não parecem que vá resultar de todo.


Certamente criado a partir de uma ideia de "os nossos pais" não saberem lidar com experiências mais liberais, El intercambio decide assim ser um filme inteiramente passado na casa do garanhão Máximo, um homem que apesar de tudo tem a cabeça e a alma no lugar certo, sendo o dito homem perfeito. Do outro lado, Dómina é uma prostituta que adora o seu trabalho e destrói todas as noções que as trabalhadoras do sexo fazem-no apenas por necessidade. 

É esta mistura de personalidades, da mais conservadora à mais liberal, que Ignacio Nacho apoia-se nesta película que é mais conversa que acção. Concedido, uma boa parte da conversa é engraçada, pelo menos durante grande parte do filme.

O maior problema de El intercambio é como é feita o desenvolvimento da narrativa e das decisões tomadas pelas personagens, que vão imediatamente parar ao caminho da paródia nas situações relativamente séries que eles próprios criam.  


Naturalmente, seria de esperar algum cepticismo, sobretudo na abordagem mais extrovertida do casal que vistam, mas fica difícil gostarmos de personagens que estão em todos extremos opostos sem que haja um diálogo mais calmo e colectado a modos para que a experiência à qual se estão a sujeitar seja, no mínimo, divertida  No fim, não parecem ter saído da situação mudados pelos acontecimentos o que se torna extremamente frustrante de se ver.

Não fosse por essa conclusão, El intercambio talvez tivesse sido uma peça de teatro tornado filme muito melhor, deixando assim os seus defeitos levarem a melhor dele, num filme que tinha algum potencial dentro de si.

Nota Final: 2/5
• • •


Originalmente publicado em Cinema à Rolha a 22 de Outubro de 2018

10 de maio de 2018

Mom and Dad | Cuidado com a Mamã e o Papá (2017)


Nicholas Cage tem andado ocupado nos últimos anos, passando do grande ecrã para o universo de cinema de série-B, entrando em dezenas de filmes de fraca substância. Mas este Cuidado Com a Mamã e o Papá é capaz de ser um ponto de viragem. Entretanto, Brian Taylor, que acaba de lançar a sua nova série Happy! na Netflix, traz agora um filme com uma premissa demasiado lunática para ser verdade.

Depois dum sinal transmitido pelas televisões torna os pais de criança em assassinos natos, cabe agora aos mais novos sobreviverem aos devaneios das suas mamãs e papás.


No meio de tantos pais a quererem, literalmente, matar os filhos sem razão aparente, está uma família disfuncional, com o pai Brent (Cage), a mãe Kendall (Selma Blair) e os filhos Carly (Anne Winters) and Josh (Zackary Arthur).

O grande nível de violência que nos toma de assalto é de deixar qualquer um quase em estado de choque. É feito por vezes de formas tão gráfica, que não há como não ficarmos incomodados, pelo menos no inicio, ao vermos como este virus se espalha e afecta os outros pais.

Quando a narrativa passa para a família Ryan, é que as coisas tomam um rumo mais focado, sobretudo porque é neste filme que vemos Nicholas Cage no seu estado mais louco desde… Bem, desde sempre.


São muitos os momentos de intensidade presentes no filme, de cortar a respiração, pois nós espectadores não temos escape nenhum ao que é testemunhado. Considerando a filmografia de Taylor e o seu trabalho com Mark Neveldine nos filmes Crank – Veneno no Sangue e Jogo, o nome é sinónimo de insanidade sem contenção e é exactamente o que este Cuidado Com a Mamã e o Papá é, mas multiplicado por dez.

Como se não bastasse, no fundo está uma banda sonora que causa um incomodo tal como quase tudo que vemos, aproveitando ao máximo o assalto sensorial de choque que o filme quer dar.

No fim, resta-nos uma experiência de fazer tremer de tanta emoção, e com medo de falar com os nossos pais.

• • •

Originalmente publicado em Geek'Alm a 10 de Maio de 2018.