18 de setembro de 2020

Sputnik (2020)

O cinema russo por vezes ganha um destaque mundial e por mais raro que seja, quase nunca desaponta, pelo menos no surrealismo dos conceitos que apresenta. Tal foi o caso de um mega-blockbuster chamado Guardians, que na altura surpreendeu o mundo e foi apelidado de ser o Vingadores russo; no ano passado o tão falado Why Don't You Just Die!, vencedor do Prémio MOTELX – Melhor Longa de Terror Europeia / Méliès d’Argent 2019; e agora Sputnik, que traz ao planeta Terra um ser do universo além.

Realizado por Egor Abramenko, na sua estreia nas longas-metragens, e escrito por Oleg Malovichko e Andrei Zolotarev, em Sputnik o ano é 1983, onde conhecemos Tatyana (Oksana Akinshina), uma psiquiatra sob investigação devido aos seus métodos menos convencionais. Recrutada pelo Coronel Semiradov (Fedor Bondarchuk), para falar com o único sobrevivente da tripulação, Konstantin (Pyotr Fyodorov), este que esconde dentro do seu corpo um ser alienígena.

Para quem se lembra de Vida Inteligente, um filme de 2017 que passou ao lado de muitos, rapidamente se apercebe de uma possível pseudo-sequela russa, mostrando aquilo que um extraterrestre é capaz de fazer quando chegasse cá. O paralelismo com a obra de culto O Primeiro Encontro, de Denis Villeneuve, também são existentes, conseguindo fazer uma mescla interessante da qual James Cameron estaria razoavelmente orgulhoso.

Tal como seria esperado, a sua sensibilidade da União Soviética demonstra uma abordagem muito fria e sombria de um grande acontecimento deste género, aliado a uma limitação tecnológica que permite que as personagens ganhem uma profundidade emocional perante a situação particular da qual se encontram. De facto, o filme faz muito para que as explicações sejam o mais científicas possível, com um foco igualmente grande na análise psicológica, movido por uma narrativa com alguns elementos dramáticos, ainda que estes sejam menos bem conseguidos, sobretudo durante a parte final que parece um pouco apressada.

Entretanto, é que louvar toda a experiência de terror que o filme propõe, enquanto conhecemos esta criatura espacial e como é estudada nas instalações industriais. Existe uma quantidade certa de violência, repleto de sangue e gore, muitas vezes remanescente do cinema de série-B, mas este é sobretudo contido numa frieza que jamais encontraríamos na sua versão espectacularmente fútil de Hollywood, que certamente iria reduzir a emoção em algo mais frenético.

Dito isto, Sputnik é um excelente esforço em trazer para a frente a qualidade do cinema russo, num contexto que com certeza irá agradar a fãs de género, principalmente aqueles que procuram uma proposta alternativa, valendo também pela possibilidade de ver as coisas noutra perspectiva que senão o patriotismo tradicional norte-americano.

Nota Final: 3.5/5 (originalmente 7/10)

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Originalmente publicado em Central Comics a 18 de Setembro de 2020.

16 de setembro de 2020

Scare Me (2020)


Josh Ruben é um homem com um currículo extenso, mais reconhecido pelo seu trabalho no popular site de comédia CollegeHumor.com, tendo enveredado por outros caminhos. Talvez um dos menos esperados era que escrevesse, realizasse e protagonizasse um filme da produção Shudder, a plataforma de streaming de terror (que ainda não chegou a Portugal!) com Scare Me, um filme muito, muito, curioso.

Fred (Ruben) é um argumentista que viaja até a uma cabana na floresta, em busca de paz para escrever o seu novo filme, sobre lobisomens. Lá, ele encontra Fanny (Aya Cash), uma famosa novelista, recentemente tornada uma autora best-seller com o a imprensa diz ser “o melhor livro de terror de sempre”: Durante uma queda de energia à noite, Fanny vai até casa de Fred para jogarem um jogo: Scare Me; onde terão que contar histórias assustadoras um ao outro.


Olhando para além da premissa simples de Scare Me, apercebemos-nos o quão trabalhado este exercício de acting é feito em frente dos nossos olhos, onde durante quase duas horas, somos levados pela imaginação destes contadores de histórias, como se de um acampamento se tratasse. Há igualmente uma questão de pensarmos quanto disto é improvisado, e é fácil de imaginar que uma boa parte dele foi pensado na hora, surgindo organicamente.

Longe de ser um filme tradicional, esta é uma obra que, mais que tudo, serve para demonstrar as capacidades criativas de Ruben, como também de Cash, que encaram as suas personagens com muita convicção, às vezes demasiada; provando que as nuances e os pequenos detalhes, como as vozes, os efeitos sonoros e, de vez em quando, os efeitos visuais, podem captar e manter a atenção de quem vê. Estes são, de longe, os aspectos mais divertidos do filme, onde cada ideia ganha uma vida onde é fácil nos deixarmos levar.


Scare Me não aborrece, apesar do seu conceito aparentemente simples, mas as suas quebras entre histórias são talvez a parte menos interessante do filme, que tentam ocupar o tempo até ao próximo conto, que podem contar com uma diversão que não irão encontrar noutros filmes do género. Talvez muitos irão considerar, não só a estrutura, mas também as decisões artísticas do filme como demasiado básicas para o efeito; enquanto outros irão encontrar uma obra com muita personalidade, pela sua abordagem ousada.

No fim, Scare Me é um filme com muito entretenimento, com uma batalha divertida entre duas pessoas altamente criativas, cujo único objectivo é divertir e assustar um pouco, prezado com uma ideia minimamente original e cheia de alma.


Nota Final: 3.5/5 (originalmente 7/10)

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Originalmente publicado em Central Comics a 16 de Setembro de 2020.

15 de setembro de 2020

Relic (2020)


O cinema australiano tem oferecido alguns dos filmes de terror mais marcantes do género, desde Wolf Creek (2005), a O Senhor Babadook (2014), este último realizado por Jennifer Kent, uma das mulheres que destacou o trabalho dos talentos femininos do cinema independente. Desta vez, com Relic, a realizadora e argumentista japonesa-australiana Natalie Erika James traz-nos uma proposta surpreendente.

Edna (Robyn Nevin) é uma senhora de idade, que sofre com um caso grave de demência. Quando a mesma desaparece, a sua filha Kay (Emily Mortimer) e a sua neta Sam (Bella Heathcote), viajam para a casa, em sua busca. Edna acaba por reaparecer, mas algo de errado parece-se estar a passar, iniciando uma viagem pelo sofrimento doença.


A subtileza no terror que Relic causa é impressionante, pois a mesma não é directamente assustadora, optando semear ideias, em forma de detalhes e pistas, não só deixando-nos a pensar o que se passa com Edna, mas também tudo aquilo que está em seu redor, estando este a deteriorar perante os seus olhos. Ao fazer isto, o verdadeiro medo vem dos nossos pensamentos e raciocínio, que tentam fazer sentido de tudo aquilo que vemos.

Natalie Erika James, na sua estreia nas longas-metragens, oferece um algo que vai muito mais além do cinema de terror tradicional, onde a presença inexistência de um monstro óbvio segue um caminho diferente, dando-nos uma história sobre o amor geracional de quebrar o coração, escondido nas entrelinhas de imagens perturbadoras, na forma de manifestações físicas Esta abordagem permite que tudo aquilo que vemos, ainda que seja de uma forma alegórica, se mantenha connosco durante muito depois do final da película e força-nos a fazer uma reflexão sobre a forma que tratamos a demência como um estigma.


Esta familiaridade facilita um relacionamento fácil entre o espectador e o filme; todos temos alguém que nos preocupamos e queremos protegê-las dos males que o mundo tem, e em Relic, o aperto de que uma variante destes eventos possam realmente acontecer a qualquer um de nós, mesmo sem os elementos mais sobrenaturais, certamente não irão deixar ninguém indiferente.

Assim, Relic mostra-se como um dos primeiros grandes filmes de terror da década, com um incrível elenco, unido com uma narrativa que se entranha na mente, dando por nós a gritar para as paredes. No fim, vão com certeza ter vontade de ir abraçar os vossos ente queridos, na esperança que não tenham uma experiência semelhante e com este filme presente na vossa cabeça para sempre.

Nota Final: 4.5/5 (originalmente 9/10)

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Originalmente publicado em Central Comics a 15 de Setembro de 2020.

14 de setembro de 2020

Saint Maud (2020)


A religião no terror sempre foi um tópico controverso no cinema, sobretudo da forma que os devotos são retratados, ou as consequências pela sua devoção oferecerem uma ideia contrária de o que consideram justas pelas sua fé. Isto é feito há décadas, com clássicos como A Semente do Diabo (1968) ou O Exorcista (1973), a serem os mais emblemáticos. Após ter feito furor em diversos festivais no final do ano passado, eis que a estreia da argumentista e realizadora britânica Rose Glass nas longas-metragens, com Saint Maud, chega finalmente ao grande público.

Maud (Morfydd Clark) é uma enfermeira privada, que tem uma grande devoção a Deus, à qual ela dá crédito por mudar a sua vida para um caminho melhor. Ela conhece a sua mais recente paciente, Amanda (Jennifer Ehle), à qual Maud está convencida que tem uma missão de salvar a sua alma, por todos os meios necessários.


Há um crescendo de eventos ao longo do filme, que desde cedo estabelecem quem Maud é e aquilo que ela representa, confrontada agora com alguém que necessita de alguma intervenção divina. O laço que Maud e Amanda criam, acaba por ser forte, com uma participação especial do grande Senhor do céu, até chegar a um ponto de ruptura.

Saint Maud é uma obra perturbadora, que deixa, assumidamente, calafrios até nos fãs mais assíduos do cinema de terror, não apenas pela abordagem obsessiva de Maud, como também a personificação da religião; esta que não é de todo exagerada, mas cuja mensagem é amplificada pelos visuais hipnotizastes, com uma atenção incrível ao detalhe.

As interpretações de Clark e Ehle, numa dinâmica que transcende para o espiritual, fazem com que estejamos num sofrimento constante de antecipação, à espera do próximo momento que nos irá chocar, fazer saltar da cadeira, ou ambos. Como se isso não bastasse, o visual é aliado a uma banda sonora de deixar os tímpanos a tremer, pelo medo que instaura.


Rose Glass, um dos novos talentos britânicos, oferece-nos uma obra-prima que olha para as suas influências como inspirações para algo maior, mais ousado e que decididamente será falado durante muitos anos, dando um novo rumo ao género, ele próprio repleto de devotos a um nível quase religioso.

Assim, Saint Maud é a prova que novas interpretações do terror são mais que bem-vindas, tendo a originalidade de olhar para a religião com outros olhos e um ver o ser humano como vaso humano frágil para o pecado que ele realmente é. Garantidamente será um dos novos filmes de culto que assentam como uma luva lado-a-lado com outros novos auteurs do terror, como Ari Aster, Kevin Phillips ou Natalie Erika James, numa estreia marcante.

Nota Final: 5/5 (originalmente 10/10)

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Originalmente publicado em Central Comics a 14 de Setembro de 2020.

13 de setembro de 2020

The Rental | O Segredo do Refúgio (2020)


Dave Franco, o mais novo dos três Franco’s, estreia-se pela primeira vez na cadeira de realizador com O Segredo do Refúgio, um filme que aparenta ser de terror mas que contém muito pouco do género.

Charlie (Dan Stevens) e Mina (Sheila Vand), são amigos e colegas de trabalho que convencem as suas caras metades, Michelle (Alison Brie) e Josh (Jeremy Allen White), a passar um fim-de-semana numa luxuosa casa com uma vista incrível mas no meio do nada. O que eles não sabem, é que este será o pior fim-de-semana das suas vidas.


Descrever O Segredo do Refúgio como um filme de terror é inexacto, por diversos motivos. O terror por si é quase inexistente, algo estranho numa película que não chega a hora e meia. Ainda mais estranho é tomar o seu tempo até que as coisas comecem a ficar interessantes, deixando-nos ansiosos com a antecipação de eventos que acontecem demasiado tarde para que queiramos saber. E, quando acontecem, tendem a ser confusos, sem qualquer motivo aparente ou explicação para o que estamos a ver. É na frustração e da má gestão de expectativas que o filme cria um sabor agridoce na boca.

Felizmente, o elenco reduzido, mas forte, demonstra uma qualidade insuperável, ainda mais quando nos apercebemos que três dos quatro actores principais já tiveram contacto com o cinema de terror moderno, com Stevens em The Guest, Brie em Horse Girl e Vand no incrível Uma Rapariga Regressa de Noite Sozinha a Casa; oferecendo uma experiência de tensão ocasional que acontece de uma forma minimamente orgânica e aceitável, pelo menos até as coisas descambarem de um drama familiar para um slasher.


O trabalho de Franco é também ele de uma qualidade superior, com a câmara frequentemente em “cima dos actores”, num registo muito pessoal e invasivo, o que também contribuí para alguma da claustrofobia causada pelo desconhecido. A mudança súbita e notável da banda sonora também ajuda. Na verdade, as influências de Franco demonstram um cineasta apreciador do terror, mas com alguns problemas em executar uma narrativa suficientemente consistente para se qualificar como um filme do género, algo que certamente merece ser revisto nos seus projectos futuros.

Com isto, O Segredo do Refúgio, é um filme que gostava de ser mais assustador, com um excelente conjunto de actores que carregam os pecados inegáveis de um argumento que necessitava de mais de trabalho, e um plano mais entusiasmante para nos cortar a respiração. Ainda assim, a mensagem de como nestes tempos temos uma confiança simplificada em desconhecidos, seja um condutor privado através de uma aplicação, seja o aluguer de uma casa, por mera conveniência, prova-nos que existe um potencial em explorar histórias do género.

Nota Final: 2.5/5 (originalmente 5/10)

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Originalmente publicado em Central Comics a 13 de Setembro de 2020.