15 de agosto de 2018

Maryline (2018)


Maryline só queria uma coisa da vida: ser actriz. Mas na vida, infelizmente, raramente deixa os nossos planos correr sem percalços, e o desta rapariga francesa, protagonizada pela encantadora Adeline d’Hermy, mostra que os nossos sonhos estão sempre do outro lado dum caminho árduo.

Neste filme, escrito e realizado por Guillaume Gallienne, Maryline acompanha a vida duma jovem mulher que se muda da aldeia para a cidade, em busca do sonho de representar.

Desde da sua primeira produção de alto orçamento, um filme histórico, realizado por um tirano alemão, à representação em palco, a história flui duma forma pouco tradicional e esse é apenas um dos seus charmes.


Com um tom melodramático, percebemos que existe uma vida para além dos nossos sonhos, que por muitas vezes são arrastadas por circunstâncias desfavoráveis, que nos forçam a tomar outro rumo para o melhor do nosso futuro. É o caso de Maryline, que durante esta descoberta, cria um vício de álcool e perde interesse no que é viver.

Do outro lado, ela também encontra aliados, entre os quais um realizador e uma actriz companheira, que vê o que ela tem de bom e o que traz de único num filme em que ela é assistente duma celebridade que tem cancro. São os pequenos detalhes que revelam a cumplicidade entre d’Hermy e Gallienne, estando em sintonia em todos os momentos.



Nada em Maryline é por acaso, e tal como a vida real, todas as decisões criam um caminho natural onde esta aspirante actriz consegue mostrar um crescimento emocional, que poucos são capazes de fazer desta forma.

Ainda que o filme seja cinema de auteur, na verdade, temos aqui uma obra belíssima do cinema Europeu, que apesar de andar debaixo do radar de muitos, é sem dúvida algo que vale muito a pena ver.

Nota Final: 4/5 (originalmente 8/10)


Originalmente publicado em Central Comics a 15 de Agosto de 2018

Down a Dark Hall | O Corredor Assombrado (2018)


A um primeiro olhar, Corredor Assombrado parece o típico filme de adolescentes desajustados da sociedade, que de repente encontram o caminho para a salvação. Na realidade, não está muito longe, mas por debaixo do cliché, este filme realizado por Rodrigo Cortés esconde alguns segredos interessantes.

Corredor Assombrado segue a vida de Katherine ‘Kit’ Gordy (AnnaSophia Robb), uma adolescente que não cresceu sem lidar com o desaparecimento e subsequente morte do seu pai, tornando-se numa rebelde autêntica.

A solução? Enviá-la para uma escola para sobredotados no meio do nada, neste caso Blackwood, onde a directora Madame Duret (Uma Thurman), faz promessas de ser local onde se criam pessoas extraordinárias.


Com Kit, chegam outras raparigas com personalidades distintas, como Sierra (Rosie Day) e Veronica (Victoria Moroles), também elas com um talento escondido e uma inclinação para a rebeldia contra a autoridade.

Pouco a pouco, vamos percebendo o que a Madame Duret e os professores de Blackwood são capazes, ao trazerem ao de cima o melhor de cada uma das alunas, desde uma não perceber álgebra, a resolver grandes mistérios de matemática, ou como o caso de Kit, tocar uma peça musical sem ter tocado num piano há mais de uma década.

À medida que a narrativa avança, vamos apanhando algumas pistas que algo maior está a acontecer, sem que seja demasiado no nariz, dando ao espectador a oportunidade de ligar os pontos por si mesmo.

É quando as grandes revelações começam que o filme começa a descair no cliché, querendo que o grande finale seja algo mais fantástico do que realmente é.


Rodrigo Cortés regressa à realização, depois duma carreira inconsistente no grande ecrã nos últimos 8 anos, com o fantástico Buried de 2010 e o não tão fantástico Red Light – Mentes Poderosas.

Este regresso é assinalado com uma realização com vários momentos tensos e algumas cenas bem construídas, também com uma experiência algo imersiva. Por vezes, infelizmente, parece ser um filme contido apesar de ciente de todo o seu potencial.

No fim, Corredor Assombrado, apesar dos seus defeitos, é uma entrada com personalidade, mais que bem-vinda ao cinema de terror no circuito comercial, que continua a ser invadido pelas repetitivas sequelas, prequelas e reboots.

Nota Final: 3/5 (originalmente 6/10)


Originalmente publicado em Central Comics a 15 de Agosto de 2018

13 de agosto de 2018

Revenge | Vendeta (2018)


Numa altura em que a indústria cinematográfica e os movimentos sociais que lhe perseguem vão ditando algumas tendências para as temáticas dos filmes que vão estreando, eis que aparece a estreia no grande ecrã da francesa Coralie Fargeat, com Vendeta, protagonizado por Matilda Lutz.

Vendeta conta a história de Jen (Lutz), uma jovem que se encontra numa situação desesperante: Está perdida no meio do deserto, depois dum amigo do seu amante lhe ter violado.
Ferida e revoltada, esta busca a derradeira vingança, de fazer arrepender os homens pelas suas acções.


Todas as associações feministas que o filme tem feito no último ano, depois da sua estreia mundial no Festival Internacional de Cinema de Toronto no ano passado, nem sempre são as mais certeiras. Sim, é um filme realizado por uma mulher e protagonizado por uma, mas Vendeta vai mais longe que isso.

Tudo o que se vê no filme, desde dos grandes planos duma paisagem vazia, ao gore de ver um pé cortado a esguichar sangue; é relevante para contar esta história de rape-revenge, muito ao estilo dos exploitation films dos anos ’70 e ’80, como Mulher Violada (1978) e Vingança de uma Mulher (1981), como também de obras modernas como Kill Bill e a trilogia vingativa do sul-coreano Park Chan-wook.


Ainda que por vezes, Vendeta mostra-se excessivo, metendo os dedos dos pés no sobrenatural, a verdade é que entre uma realização cuidada e detalhada, uma banda sonora electrizante, cortesia Robin Coudert e uma protagonista com um objectivo que a põe num caminho de retribuição, temos aqui todos os ingredientes para algo verdadeiramente memorável.

Nota Final: 4.5/5 (originalmente 8.5/10)


Originalmente publicado em Central Comics a 13 de Agosto de 2018

14 de julho de 2018

Escape Plan 2: Hades | Plano de Fuga 2: Hades (2018)


Da saga “Sequelas que Ninguém Pediu”, chega-nos Plano de Fuga 2: Hades, que enquanto tem a sua estreia em home video e on-demand nos Estados Unidos, por cá teremos a oportunidade de o ver nas salas. Mas, realmente, era preciso o Stallone vir outra vez?

Depois de ajudar Schwarzenegger a escapar no primeiro filme, Ray Breslin (Sylvester Stallone) abriu a sua própria empresa de segurança privada, especializando em missões de alto risco.
Mas quando uma das missões resulta na morte dum civil, Breslin é forçado a despedir um dos seus melhores operativos, Kimbral (Wes Chatham), que preferiu confiar num software inteligente que na sua própria equipa, podendo ter evitado a situação.


Pouco tempo depois, os restantes operativos Shu (Xiaoming Huang) e Luke (Jesse Metcalfe), são raptados e colocados numa prisão de máxima segurança, denominada o Zoo, pois “apenas os mais fortes sobrevivem”. Agora com o desaparecimento da sua equipa, Breslin, juntamente com o hacker Hush (50 Cent), Abigail (Jaimie King) e o especialista de armas Derosa (Dave Bautista), têm que encontrar e salvar a sua equipa.

Como seria mais que esperado, este Plano de Fuga 2: Hades não vem aqui tentar ser um filme que muda vidas ou que até inspire seja o que for. Estamos perante um filme carregado de testosterona, que vai bem com uma grade de cerveja e pizza.

Dito isto, a narrativa e os actores podem não ser propriamente os melhores, mas há todo um divertimento, que fará os fãs de filmes de série-B delirar com todos os tiros, explosões e one-liners nada memoráveis, mas que apenas adicionam uma camada de ser mau e fixe.


A esta altura, já começamos a pedir para pararem com estas sequelas, referindo à grande quantidade que as produtoras em Hollywood e na China, que continuam a lançar filmes de baixo-orçamento, à procura duns trocos à custa de um talento de renome e mostrar algum talento local.

É de facto que Stallone já não tem o chamado star power que tinha durante as décadas de ’80 e ’90. Aliás, esses são os filmes que são melhor recordados, depois do anúncio surpresa que o clássico Stallone vs. Snipes, O Homem Demolidor, irá ser homenageado durante a San Diego Comic-Con deste ano.

Aqui o talento local chama-se Xiaoming Huang, um actor especializado em artes marciais é o maior destaque deste filme, sendo que as coreografias as que mais impressionam no meio dum filme que atinge o mínimo dos mínimos a ser decente.


No fim, percebemos que estas sequelas existem também porque as contas da luz nas mansões em Hollywood precisam de ser pagas, e quando o dinheiro é verde, é possível ir aos correios acertar contas. Sim, porque Stallone paga a conta da luz nos correios.

Nota Final: 1/5 


Originalmente publicado em Geek'Alm a 14 de Julho de 2018.

5 de julho de 2018

Taxi 5 (2018)


Numa era pré-Velocidade Furiosa, decorria o ano 1998 e, sem aviso, um filme Francês sobre um táxi altamente modificado mudou o panorama do cinema europeu como o conhecemos. Misturando a sensibilidade cómica típica do cinema francês, com um thriller de alta velocidade, onde também temos uma Marion Cotillard a dar os primeiros passos no grande ecrã; Taxi foi um alto sucesso que desencadeou mais três sequelas, todas elas divertidas o suficiente para garantir que o público voltasse.

Depois da estreia do quarto filme em 2007, foi altura das amáveis personagens se reformarem e pensávamos nós que jamais veríamos um novo filme do franchise. Até agora, com Táxi 5 prestes a estrear nos cinemas!

Agora um pseudo-reboot, Taxi 5 reintroduz a magnifica e sempre cinemática cidade de Marselha, novamente sob assalto por um gang imparável Italiano, que conduzem Ferraris e Lamborghinis.


Quando o super-polícia parisiense Sylvain Marot (Franck Gastambide, o chamado Vin Diesel francês que também realiza o filme) é forçado a mudar-se para Marselha, este integra a equipa da Polícia Municipal, que, apesar da falta de recursos, determinam em impedir os Italianos, custe o que custar. Para isso, Sylvain necessita duma ajuda, em forma do Peugeot conduzido por Daniel dos filmes prévios (que aparentemente mudou-se para Miami) e que está agora na responsabilidade de Eddy Maklouf (Malik Bentalha), um condutor que apenas sabe conduzir carros automáticos. Juntos, este duo-dinâmico descobre que nas suas diferenças está a solução dos seus problemas.

Remanescente dos buddy cop movies, Táxi 5 conta mais uma vez com uma missão repleta de adrenalina e velocidade, sem nunca esquecer grandes doses de comédia. Nesse registo, e o elenco ser composto quase todo ele por personagens novas, a aposta na comédia fácil sai-se naturalmente, como também na quantidade de acções disparatadas e das situações criadas por estes polícias secundários. No entanto, esse mesmo tipo de comédia, que jamais funcionaria de tão boa forma num filme de Hollywood, surge aqui como uma naturalidade leve e orgânica, deixando-nos a rir às gargalhadas com frequência. Considerando o absurdo de algumas cenas, pelos visto é tudo uma questão de contexto.


Sendo uma espécie de reboot, ou neste caso, apenas uma razão para trazer de volta um franchise querido, Táxi 5 dá cartas mais que suficientes do lado da acção, com algumas perseguições de carros e recriações a outros filmes que se inspira. É claro que o actor e realizador Franck Gastambide tem um amor especial pelos filmes anteriores e que se esforçou em mostrar que, no panorama actual do cinema, ainda é possível ir buscar recordações ao passado sem as arruinar. Foi uma tarefa que muitos falharam redondamente, pelo que apenas podemos tirar o chapéu pela iniciativa.

No fim, Táxi 5 não nos vai surpreender nem oferece nada de novo, mas apela à nostalgia e ao carinho que temos pelo franchise, sem abrir portas permanentes a mais sequelas a virem. É, acima de tudo, uma noite divertida no cinema.

Nota Final: 2.5/5


Originalmente publicado em Geek'Alm a 5 de Julho de 2018.