14 de abril de 2019

Greta | Greta - Viúva Solitária (2019)


Em 1994, Neil Jordan fez furor entre os adolescentes ao meter Tom Cruise a contracenar com Brad Pitt em Entrevista com o Vampiro, tornando-se num dos cineastas pelo qual deveríamos prestar mais atenção nos anos '90. Na verdade, desde então não conseguiu repetir o sucesso que o seu filme de vampiros, mas abordou a violência duma forma crua em A Estranha em Mim e regressou aos ambientes obscuros no fantástico Byzantium. Agora, Jordan regressa com um conto ao bom estilo Hitchcock-iano com Greta - Viúva Solitária.

Frances (Chloë Grace Moretz) é uma jovem que está a tentar criar uma vida em Nova Iorque, juntamente com a sua melhor amiga Erica (Maika Monroe), após o falecimento da sua mãe. A sua vida dá uma reviravolta quando encontra uma mala abandonada no metro e decide ir devolver ao seu dono, conhecendo Greta (Isabelle Huppert), uma víuva cujas boas intenções vão para além do que aparentam.


O que primeiro parece ser um melodrama comum, rapidamente se torna num thriller mais ou menos assustador, nem que seja pela obsessão que Greta cria por Frances, ultrapassando vários limites do que é considerado razoável. Esta perseguição é o que mais move o filme, mas infelizmente nem sempre por bons caminhos.

Somos confrontados com uma situação mais plausível do que gostaríamos no mundo de hoje, onde as consequências da bondade são demonstradas com cenários não tão extremos. Afinal, Greta quer, e muito, ser amiga de Frances a todo o custo, nem que isso lhe arruíne a vida. Mas existe uma introspecção q.b. que nos força a pensar o que faríamos na mesma situação, desafiando muita a lógica por trás dum argumento frequentemente confuso e pela forma como coloca obstáculos desnecessários que criam mais problemas que soluções, onde Frances é incapaz de ser mais que uma mera vítima.


É na vitimização da sua personagem principal onde reside o maior problema de Greta - Viúva Solitária, já que oportunidades não lhe faltam para dar a volta à sua situação terrível, sendo nós espectadores vítimas da falta de senso comum da narrativa.

Não que tudo seja tão mau quanto isso, este jogo do rato e do gato proporciona alguns momentos psicologicamente assustadores, ainda que desnecessários, que definem o tom que acompanha o crescendo até ao derradeiro - e previsível - clímax.


Com isto, Greta - Viúva Solitária agarra nas suas inspirações violentas e aplica-as numa narrativa onde as personagens servem apenas o argumento e pouco mais.

Considerando que Moretz e Huppert são veteranas em cada uma das suas eras, seria de esperar mais das suas prestações, que aqui ficam diluídas a apenas peões do argumentista. Não foi desta que Neil Jordan voltou a fazer um clássico intemporal e a este andar, as coisas ficam difíceis.

Nota Final: 1.5/5 (originalmente 3/10)



Originalmente publicado em Central Comics a 14 de Abril de 2019.

2 de abril de 2019

Pet Sematary | Samitério de Animais (2019)


Admiradas como são entre fãs de literatura fantástica e de terror, não é surpresa que as adaptações cinematográficas das obras de Stephen King tenham alguma expectativa, já que o autor cobre nos seus títulos uma variedade de temas sociais modernos, num cenário normalmente assustador. É por isso que a segunda rendição no grande ecrã de Samitério de Animais é um dos filmes mais esperados do ano.

A família Creed, composta pelo Dr. Louis (Jason Clarke), a sua mulher Rachel (Amy Seimetz) e os seus filhos Ellie (Jeté Laurence) e Gage (Lucas Lavoie) mudam-se da grande metrópole para a pequena cidade de Ludlow, com o objectivo de abrandarem a sua vida e viverem num meio pacato. Mas algo de bizarro existe nas traseiras da sua casa nova. Um cemitério de animais que é muito para além daquilo que poderiam esperar despertará novas e estranhas sensações.


Se já em 1989, quando o filme foi adaptado pela primeira vez por Mary Lambert, o mesmo sofria de algumas limitações tecnológicas que não traduziram a obra tão bem para o grande ecrã. 30 anos depois, a dupla de realizadores Kevin Kölsch e Dennis Widmyer (o brilhante Starry Eyes - Amaldiçoada) agarrou na essência do livro original e explorou todos os cantos possíveis para que fosse das adaptações mais assustadoras de King de sempre, algo que realmente o é.

Para um filme que começa de forma muito tranquila, rapidamente se torna sombrio quando o mistério do Samitério dos Animais faz aparecer uma nuvem negra de terror em forma de traumas psicológicos, mortes terríveis e terras sagradas com poderes místicos, tudo coisas que compõem este filme em algo que certamente não será para corações fracos.


Há uma atenção aos pormenores onde o cenário também ele conta muito da história em seu redor, como também as personagens que integram o seu novo mundo, sobretudo Jud (John Lithgow), que é mais que apenas um residente reformado em Ludlow. É ao bom estilo do terror que os medos pessoais de cada um são abordados de forma individual e que se mostram relevantes perante a situação presente que estão a viver, dando uma oportunidade bem aproveitada de criar pessoas com alguma emoção e abordar sem medos as questões filosóficas da vida e da morte.

Numa altura em que o remake de It tem feito furor - a sua sequela está prevista para Setembro deste ano - parece-nos que é uma excelente altura para trazer ao cinema o lado mais assustador das obras de Stephen King, pensadas com cuidado e que de facto homenageiam o material original. Sim, A Torre Negra, estou a olhar para ti...

Nota Final: 4/5 (originalmente 8/10)



Originalmente publicado em Central Comics a 2 de Abril de 2019.

22 de março de 2019

Captive State | Captive State - Cercados (2019)


Não será a primeira, nem sequer a última vez que os extraterrestres invadem a Terra, apoderando-o para várias finalidades, desde extinguir a raça humana, a governá-lo de forma que os seus recursos sejam maximizados. É com este último cenário que Captive State - Cercados, se guia, mostrando as consequências dum governo alienígena cooperativo pelos humanos.

Num futuro próximo, extraterrestres invadem o nosso planeta, escravizando-o sob a mensagem de união, onde várias das capitais mundiais reflectem em mudanças positivas. A taxa de desemprego é baixa, a extracção de recursos naturais na Terra multiplicaram por dez e o crime praticamente não existe. Acompanhamos Gabriel Drummond (Ashton Sanders), um jovem órfão que faz parte dum grupo de rebeldes, onde o seu irmão mais velho, Rafe (Jonathan Majors), fora um dos seus grandes líderes.


Após uma emboscada, acabando com a vida de todos os membros da célula, esperava-se que fosse o fim da rebeldia, mas o Detective William Mulligan (John Goodman) suspeita o contrário, perseguindo Gabriel até conseguir as respostas esperadas.

São vários os exemplos de onde este Captive State - Cercados se poderá ter inspirado, como os clássicos modernos Distrito 9, de Neill Blomkamp, ou Os Filhos do Homem de Alfonso Cuarón, a séries de televisão que apresentam cenários políticos semelhantes, como Colony. A sua abordagem de mostrar ambos os lados da moeda, neste caso particular, acabam por não resultar na totalidade, provocando uma mescla de ideias pouco aprofundadas.


Ao vermos como é que a revolta vai acontecer, conhecendo novos rebeldes que esperam mudar o mundo, os oficiais governamentais, que acharam boa ideia passar a batata quente política para os alienígenas que só nos querem explorar, a quem está algures numa zona cinzenta; no fim, notamos uma grande inconsistência em como todas as peças se juntam. É com grande pena que as poucas vezes que vemos os ETs, não parecem ter sequer um quarto da inteligência necessária para governar seja lá o que for.

Se por um lado podemos aplaudir o escritor e realizador Rupert Wyatt por trazer uma história original, por outro a sua execução fica bastante aquém ao esperado, considerando que até realizou o sucesso Planeta dos Macacos: A Origem. Seja como for, é bom ver que o actor veterano John Goodman ainda tem muitas cartas para dar.


Com isto, Captive State - Cercados mostra-nos uma realidade alternativa pouco passível de ser verdadeira, focada nos problemas sociais e políticos do lado humano, deixando no ar a ideia de como é que os visitantes intergalácticos conseguiram fazer tanto em tão pouco tempo sem grandes obstáculos. Devemos ser mesmo incompetentes...

Nota Final: 2/5 (originalmente 4/10)




Originalmente publicado em Central Comics a 22 de Março de 2019.

6 de março de 2019

John McEnroe: In the Realm of Perfection | John McEnroe: O Domínio da Perfeição (2018)


O ténis e o cinema são duas coisas que muito raramente coincidem um com o outro, mas existia um homem que achava que eram uma combinação naturalmente perfeita: Gil de Kermadec. Nos anos '70 e '80 fez uma série de filmes ligados ao desporto de eleição, onde titãs competiam. Excepto que, muitas destas gravações nunca viram a luz do dia, até que Julien Faraut descobriu dezenas de fitas, compilando assim o que acabaria por ser John McEnroe: O Domínio da Perfeição.

Longe de ser o tradicional documentário biográfico, ou sequer um documentário sobre desporto, o grande objectivo deste filme é mostrar a simbiose entre um realizador com uma paixão extensa por John McEnroe, na altura um dos maiores tenistas à face da terra, conquistando tantos fãs como haters pela sua natureza caótica, mas sempre educada. Certamente não era um homem fácil de lidar, mas capaz de cativar interesse com o charme que mais ninguém tinha naquela altura.


Somos brindados com longos clips, brilhantemente restaurados e altamente coloridos, que nos levam de volta aos anos de ouro do ténis, onde as rivalidades tinham uma importância comparável ao que vemos nos livros de banda desenhada, substituindo o herói e o vilão por atletas talentosos com a reputação em linha.

É o caso da rivalidade de McEnroe com Ivan Lendi, ao qual o filme se foca principalmente, havendo um crescimento até à derradeira partida no French Open de 1984, onde estes dois homens se defrontaram numa final que durou pouco mais de 4 horas e meia em campo, sendo este o grande ponto alto do filme, cujo mostra uma tensão que nos faz arrepiar até aos ossos.

Para além disto, vemos de perto, e de modo desconstruído, a forma agressiva como McEnroe jogava, recorrendo a diversas tácticas estratégicas que frequentemente intimidavam os seus oponentes, o que lhes fazia sentir na pele o quão competitivo este era. Os campeonatos tinham que ser ganhos de alguma forma, não é?


John McEnroe: O Domínio da Perfeição é uma obra que existe por uma mera coincidência feliz, motivada pela curiosidade dum cineasta apaixonado pelo mundo em seu redor e que no fim cria algo brilhantemente editado, sendo algo muito mais para além do que Gil de Kermadec poderia ter imaginado com as dezenas das suas gravações. Uma coincidência feliz, que no fim nos deixa com um sorriso de orelha a orelha por poderem ter sido partilhadas num cenário onde todos somos vencedores. Game, set, match.

Nota Final: 4/5 (originalmente 8/10)



Originalmente publicado em Central Comics a 6 de Março de 2019.

1 de março de 2019

The Prodigy | O Prodígio (2019)


Tem-se notado nos últimos tempos uma tendência de filmes que reutilizam as clássicas fórmulas de forma directa, com o único objectivo de os actualizar com as novas ideias da vida moderna. O Prodígio insere-se neste campo, com uma obra naturalmente previsível, mas nunca desce do standard estabelecido previamente pelo género.

Miles (Jackson Robert Scott) é um rapaz de 8 anos muito inteligente, com um Q.I. enorme e uma capacidade cerebral como poucas pessoas. Contudo, Miles também demonstra tendências psicopatas, às quais tudo tem uma explicação minimamente lógica e envolvem um assassino em série. Quem sofre com isto é a mãe dele, Sarah (Taylor Schilling), que acredita que Miles tem salvação e que vai em busca duma solução a modo de curar Miles das suas intenções maquiavélicas.


Tal como praticamente todos os filmes onde surge uma criança com uma veia ruim, o constante dilema de se é tudo uma farsa ou não continua presente neste filme e fá-lo duma forma bem feita, capaz de suscitar uma dúvida razoável em que nós torcemos para que tudo termine bem. Aliás, muitos dos aspectos d'O Prodígio, apesar de em momento nenhum introduzirem algo que nunca tenhamos visto antes, estão bem feitos, algo que Nicholas McCarthy tem experiência, como já vimos no caso de At the Devil's Door em 2014.

A nível de narrativa, não existe praticamente nenhum percalço ou desafio que se faça destacar, sendo este filme focado na relação de mãe-filho entre Sarah e Miles, e a missão de encontrar uma cura, enquanto vivemos na esperança que tudo se resolva da melhor forma. É neste aspecto que Scott e Schilling encaram a sua relação com extrema preocupação e familiaridade, com Scott a mostrar uma bipolaridade incrível, dividindo o tempo entre ser um rapaz inocente e um mais malvado, que certamente irão deixar muitos arrepios.


Desta forma, O Prodígio utiliza de forma eficaz o conceito ao qual se baseia, mesmo que não traga nenhuma novidade refrescante ao género. Não que isto signifique que seja necessariamente mau, pelo contrário, o que não faltam por aí são filmes que confundem a invenção ecléctica de ideias com conceitos inovadores, que acabam por prejudicar fortemente o seu produto final. Sendo assim, jogar pelo seguro foi a melhor decisão que este filme poderia ter feito, já que tudo está decentemente realizado.

Não podemos é deixar de pensar que o filme poderia ter terminado ao fim de 20 minutos, caso alguém se lembrasse de fechar a criança numa caixa para sempre. Sendo assim, lá teremos que assistir às dezenas de oportunidades perdidas para terminar isto de vez.

Nota Final: 2.5/5 (originalmente 5/10)




Originalmente publicado em Central Comics a 1 de Março de 2019.