23 de setembro de 2019

Joker (2019)


Perante uma grande quantidade de filmes de super-heróis, a necessidade de abordar o género de outra forma surgiu para quebrar a ideia que não era preciso muitas cenas em CGI para adaptar uma BD numa filme em imagem real. Foi por isso que Todd Phillips decidiu mostrar o maior vilão do universo da DC Comics no seu estado mais humano e cru, em Joker.

Arthur Fleck (Joaquin Phoenix) é um homem perturbado, com o sonho de ser um comediante. Vivendo uma vida pobre, com a sua mãe, Penny (Frances Conroy), Arthur faz o que pode como palhaço contratado, fazendo publicidade na rua ou ir animar crianças a hospitais, acreditando que o seu propósito é ser feliz e fazer os outros felizes. Uma noite, Arthur vê-se numa situação complicada e comete um crime que o torna, indirectamente, um símbolo contra o capitalismo e tudo aquilo que representa.


É louvável a prestação de Phoenix como um dos grande vilões da banda desenhada, sendo, sem dúvida, um dos melhores Joker do cinema, perfeitamente capaz de estar ao lado de Heath Ledger e Jack Nicholson e fazer esquecer a versão do Jared Leto. Por baixo de um vilão conhecido, está um homem quebrado, com uma condição médica que o faz rir de forma aleatória e incontrolável, e que pode deixar as outras pessoas com arrepios na pele.

A imunda cidade de Gotham em 1981, serve como pano de fundo para a transformação do homem em lenda. Arthur é forçado a libertar o seu lado mais obscuro para um mundo que lhe olha para baixo e lhe dá desdém, numa sociedade que traça vários paralelismos do mundo que vivemos hoje, movimentado por um ódio constante daqueles que acreditamos estar debaixo de nós na hierarquia social. Aqui não existem tecnologias para amplificar esses sentimentos, mas não deixam de ter um grande impacto emocional sobre Arthur, onde ele é sempre o grande alvo de chacota.


Com alguma surpresa, a realização de Todd Phillips é feita como se de um astuto aluno de Martin Scorsese se tratasse, inspirado por obras clássicas como Taxi Driver ou O Touro Enraivecido, sobretudo em como a cidade é retratada e como as maneiras dos habitantes de Gotham. Aliada à direcção de fotografia de Lawrence Sher e a banda sonora, cortesia de Hildur Guðnadóttir, conseguem garantir vários momentos inesquecíveis.

No fim, se retirarmos todas as referências do universo da DC, Joker continuaria a ser um drama sólido, sobre um homem que vive uma das piores fases da sua vida e como encara as consequências da sua vida infeliz, onde podemos ver pelos seus olhos, um mundo de sofrimento e dor, não pedindo empatia, mas sim compreensão. A actuação de Phoenix é o grande destaque desta obra, que irá certamente causar uma grande impressão em quem acha que já viu tudo da personagem. No entanto, por vezes distrai-se um pouco na sua loucura e o faz desligar da sua enredo principal.

Uma coisa é certa: se Joker for o primeiro passo para uma nova vaga de cinema de auteur baseada em banda desenhada, então estamos muito bem encaminhados.

Nota Final: 4/5 (originalmente 8/10)


Originalmente publicado em Central Comics a 23 de Setembro de 2019.

22 de setembro de 2019

Ad Astra (2019)


A vastidão do espaço é algo que o homem ainda está por conhecer. Durante décadas que a nossa curiosidade de ver além das estrelas no move tecnologicamente, procurando explorar o que existe pelo universo sobre nós. Neste caso, James Gray prepara Brad Pitt para ir até ao fim da galáxia em busca do seu pai perdido, em Ad Astra.

Roy McBride (Pitt) é um homem solitário, sendo um dos melhores astronautas de sempre, capaz de manter os seus batimentos cardíacos controlados sem grande esforço. A sua vida social não é das melhores, com a sua carreira ter sido uma prioridade, enquanto passa grandes períodos de tempo fora do planeta Terra, deteriorando a sua relação com a sua mulher Eve (Liv Tyler). A sua vida muda novamente quando é alistado numa missão ultra-secreta em busca do seu pai, Clifford (Tommy Lee Jones), desaparecido há mais de 30 anos, algures na base do Lima Project em Neptuno e suspeito de ser responsável por diversas descargas eléctricas que causaram vitimas mortais por todo o mundo.


Estando a ver o filme numa sala IMAX, rapidamente nos perdemos pela vastidão do espaço, onde podemos ver todos os detalhes no maior ecrã disponível, que faz realmente parecer que estamos no meio de um documentário, com a vantagem da narrativa conter mistério, contado pelos olhos de um homem que fez tudo para ser o melhor naquilo que faz.

Ad Astra não é apenas visuais brilhantes, contém também um slow burn relativamente intenso, motivado pela necessidade de cumprir a missão a todo o custo. Pitt, com poucos diálogos e uma narração, onde a sua voz é o guia, é capaz de transmitir tanta ou mais emoção que qualquer outro dos seus papéis nos últimos anos da sua carreira, podendo estar ao lado de Tyler Durden de Clube de Combate, com toda a facilidade, ainda que a sua personalidade esteja num oposto polar.


A história do mesmo é uma que nos deixa intrigados pelas suas maneiras, a sua linha de pensamento e como encara as adversidades perante esta missão impossível, onde a relação de pai-filho é posta em causa para um bem maior: a sobrevivência da humanidade. É também uma história sobre a pressão que os filhos têm quando decidem seguir os passos dos seus pais, esperando ser tanto quanto ou melhores que eles e as devidas consequências em chegar a esse ponto.

No fim, Ad Astra é um dos filmes mais visualmente incríveis do ano, proporcionando uma viagem emocional onde nenhum homem conseguiu ir, até agora. O ser humano, na sua demanda em ser uma espécie melhor, sofre na pele para atingir o derradeiro pico da humanidade, mostrando a sua verdadeira força.

Nota Final: 4.5/5

Angel Has Fallen | Assalto ao Poder (2019)


Tudo começou em 2013, quando estrearam dois filmes com a mesma premissa: uma força externa ataca a Casa Branca. Gerard Butler em Assalto à Casa Branca, estreado em Maio, e Channing Tatum em Ataque ao Poder estreado em Setembro. Ainda que fossem dois filmes com ameaças fundamentalmente distintas, a sua essência acabou por ser semelhante, gerando alguma discussão. Assalto à Casa Branca acabou por dar origem a mais dois filmes, completando agora a sua trilogia com Assalto ao Poder.

Mike Banning (Butler) continua a ser considerado um dos melhores agentes, e está em consideração para ser o director dos Serviços Secretos. Mas quando há um tentativa de homicídio ao presidente Allan Trumbull (Morgan Freeman), matando a sua equipa inteira de agentes, Mike é o bode expiatório ao ser o único sobrevivente. Em fuga, cabe a ele provar a inocência, enquanto identifica os verdadeiros culpados.


Mais uma vez estamos perante  um filme de acção puro, remanescente dos heróis dos anos ’90, onde os tentáculos da conspiração chega ao topo da hierarquia, com os seus perpetradores a seguirem a  própria agenda, utilizando esta situação para atingirem os objectivos.

Enquanto que Assalto a Londres levou demasiado a sério o género de filme que realmente é, este Assalto ao Poder retoma o rumo iniciado com o primeiro filme, onde vemos Mike a recorrer a soluções menos oficiais para descobrir quem é que o está a incriminar e porquê. Isto, enquanto enfrenta a sua própria mortalidade, resultado dos ossos do ofício.


Durante a primeira hora, a intriga desenvolve-se de uma forma suficientemente convincente, para que a segunda parte se dedique a tiroteios, explosões e ao jogo onde o melhor homem vence. Claro que por mais nonsense que seja tudo, não podemos censurar a natureza macho, cheia de testosterona, onde matar ou morrer são as únicas opções.

Neste espectáculo à base de pólvora e explosivos, juntamente com frases que poderiam ser ditas há 30 anos por Schwarzenegger, o melhor é desligar a cabeça e aproveitar uma viagem pelo mundo da sobrevivência, que inclui uma visita a Nick Nolte, a retomar os seus papéis como o louco que vive na floresta.


Com isto, Assalto ao Poder não pretende ser nenhuma obra-prima, optando por ser antes um bom serão no cinema, capaz de fazer esquecer todos os problemas que existem fora da sala, algo que faz com sucesso e sem qualquer vergonha. Agora é esperar para ver qual é a próxima ameaça que o agente Mike Banning terá que enfrentar…

Nota Final: 2.5/5 (originalmente 5/10)


Originalmente publicado em Central Comics a 22 de Agosto de 2019.

18 de setembro de 2019

Nightmare Cinema (2019)


Nos dias que correm, as antologias mantêm uma relevância importante nas narrativas episódicas, popularizadas nas massas com a série da Netflix, Black Mirror; e filmes como The ABCs of Death e The Field Guide to Evil, que juntam criativos importantes no género de terror e criam um misto de histórias com a assinatura pessoal de cada um, conduzido por um tema principal. Eis que agora entra Nightmare Cinema, que junta alguns mestres do terror clássico e moderno, para dar alguns sustos.

Este conto começa num cinema vazio e assombrado, gerido por um homem conhecido apenas como The Projectionist (Mickey Rourke), onde o nome do filme traz o título do segmento e o nome da vítima, da qual iremos ver o seu pior pesadelo no grande ecrã, sendo ele o anfitrião desta antologia.


Composto por cinco segmentos, cada um é realizado por um de cinco realizadores, entre os quais o veterano Mick Garris (Seres do Espaço – Parte II), e David Slade (Black Mirror: Bandersnatch). Nenhuma das narrativas sem se interligam entre si, dando oportunidade de cada realizador poder explorar a sua ideia individual de o que seria o derradeiro pesadelo para as suas personagens.

Todas a histórias agarram em elementos conhecidos no terror, desde o psicopata assassino em The Thing in the Woods (de Alejandro Brugués), à demonstração do pior cenário possível numa cirurgia plástica, como em Mirai (de Joe Dante), passando por um demónio que assombra uma escola católica em Mashit (de Ryûhei Kitamura); um terrível sonho a preto e branco, em This Way To Egress (de David Slade), terminando com uma ideia das consequências em trazer alguém dos mortos, em Dead (de Mick Garris).


O que as faz destacar é a qualidade consistente entre cada uma delas, assumindo de forma natural a sua pele mais old school e de baixo orçamento, num formato que sempre desafiou o contar da narrativa com uma abordagem mais directa, focando no essencial e divertindo-se com o resto. As tradicionais reviravoltas e subversão do imaginário estão presentes, com histórias que no fim nos deixam a pensar, tendo um grande aproveitamento do charme ao descobrirmos um novo filme a cada 25 minutos.

Assim, Nightmare Cinema está na mesma linha que as antologias clássicas, preferindo explorar ideias sólidas já fomentadas no passado, longe dos filmes VHS ou do mais recente Southbound, onde neste último, a separação dos segmentos é feita de uma forma mais orgânica, sem cortes. Assim, este é o género de filme que, mantendo a sua peculiaridade, pode realmente abrir portas para que várias forças criativas colaborarem em conjunto, sejam eles lendas do cinema ou novas estrelas em ascensão.

Nota Final: 3.5/5 (originalmente 7/10)


Originalmente publicado em Central Comics a 18 de Setembro de 2019.

17 de setembro de 2019

A Good Woman Is Hard to Find (2019)


Abner Pastoll não é estranho em mostrar personagens principais femininas fortes, e no seu mais recente filme, A Good Woman Is Hard To Find, apresenta-nos o que acontece quando testam uma mulher até ao limite.

Sarah (Sarah Bolger) é uma viúva com dois filhos, a tentar sobreviver o dia-a-dia sozinha, com o mínimos de apoios. Um dia, Tito (Andrew Simpson), um traficante de droga, decide roubar de um gangue, e foge para casa de Sarah, forçando a sua entrada. Com receio de represálias, a mulher insiste que não o quer em casa dela, muito menos quando descobre que ele esconde drogas roubadas. Farta de estar a ser explorada por este criminoso, Sarah bate com o pé, e as consequências são inimagináveis.


Logo à partida, Sarah Bolger faz para agarrar a nossa atenção, mostrando ser uma mulher a fazer o que pode para dar tudo aos seus filhos, ficando abalada por o assalto à sua vida. As interacções entre Sarah e Tito, pouco a pouco, vão criando alguns diálogos que aprofundam a sua cumplicidade forçada, mas que, na sua essência, só prejudicam a sua vida e dos seus filhos, enquanto tenta dar os melhores exemplos.

Neste thriller de crime urbano, Pastoll aborda o género de uma forma interessante, criando uma enorme empatia pela situação desta mãe, que, neste filme, tem várias tarefas na sua lista: como descobrir quem matou o seu marido, como se livrar deste traficante de droga e como dar uma melhor vida para aqueles que ela ama, tudo num curto espaço de tempo. Naturalmente, e como seria de esperar, não são tarefas fáceis de gerir, mas existe uma força em Sarah que nos faz acreditar daquilo que é capaz, surpreendendo-nos pelo caminho; ainda que existam momentos que tendem alongar-se demasiado.


Quando Road Games estreou em 2015 (tendo passado no MOTELX no ano anterior), havia algo sobre a realização e a produção por detrás da estreia nas longas-metragens de Pastoll, juntando um leque de personagens de emoções profundas com uma narrativa bem escrita, onde os diálogos batem nos momentos certos. Algo que faz novamente neste filme, com uma facilidade enorme e que é sempre um prazer de ver.

Assim,  A Good Woman Is Hard To Find prova mais uma vez o talento do realizador britânico, dando a oportunidade de Sarah Bolger fazer um dos melhores papéis da sua carreira, num misto de emoções fortes que nos deixa agarrados à cadeira.

Nota Final: 4/5 (originalmente 8/10)


Originalmente publicado em Central Comics a 17 de Setembro de 2019.