2 de setembro de 2018

BlacKkKlansman | BlacKkKlansman: O Infiltrado (2018)


Numa altura em que a política norte-americana se encontra numa situação frágil, devido ao presidente eleito Donald Trump, eis Spike Lee, o único realizador capaz de providenciar uma crítica objectiva e ao mesmo tempo oferecer um filme cujo valor de entretenimento é alto e nos traz o que poderá ser um dos filmes mais importantes da geração: BlacKkKlansman: O Infiltrado.

O ano é 1979 e Ron Stallworth (John David Washington, filho de Denzel Washington) é o primeiro polícia negro no departamento policial em Colorado Springs. Ambicioso, ao encontrar um anúncio do grupo Ku Klux Klan no jornal, decide ligar para o número e fazer-se passar por um defensor da raça ariana, com o objectivo de infiltrar o grupo.

Naturalmente, Stallworth não o poderá fazer ele próprio, tendo que recorrer ao seu parceiro Flip Zimmerman (Adam Driver), que irá o representar fisicamente, criando um duo que tem que trabalhar em conjunto se querem que o caso tenha sucesso.


É de loucos pensar que isto é apenas o inicio duma história baseada em factos verídicos, ou como Lee diz, “based on some fo’ real s***“, mas rapidamente percebemos que a vida é mais estranha do que a ficção.

A conotação cómica num filme denso de drama é um dos pontos altos do filme. Há vários momentos em que o espectador se sente tão pasmado que a reacção natural será rir, como em momentos onde ouvimos David Duke (Topher Grace), na altura o supremo líder dos KKK, a dizer coisas muito semelhantes que um certo presidente atual duma super potência. Soa-vos familiar?

São muitos os momentos que incentivam a raiva. Raiva esta ser uma reflexão em como nós seres humanos deixamos que o ódio chegue a este ponto; nas coisas que foram construídas na base do nosso passado tumulto e como estamos a reagir hoje perante ao fanatismo de nacionalistas.


Tudo isto é reforçado com várias peças do panorama, desde a cena da guerra civil em E Tudo o Vento Levou, ao clássico de 1915 O Nascimento de Uma Nação, que, para quem não conhece, é um filme de três horas sobre a criação do KKK, ao qual é considerado uma obra importante para este grupo.

Se por um lado Washington continua e muito bem o legado do pai, Driver mostra que o seu talento vai muito para além da saga da Guerra das Estrelas.

É graças também à realização de Spike Lee, que está sempre um passo à frente da sua narrativa e que conta esta história duma forma visualmente cuidada, sem qualquer indício de ser pretensioso.


No fim, BlacKkKlansman: O Infiltrado são 2h10m da derradeira crítica social ao que temos entre mãos hoje: Um mundo que parece não aprender dos seus erros, preferindo repeti-los. Só espero é que daqui a 20 anos olhemos para este clássico mais como uma comédia do que um “agora”.

Nota Final: 4.5/5 (originalmente 9/10)

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Originalmente publicado em Central Comics a 2 de Setembro de 2018

30 de agosto de 2018

Capt'n Sharky | Capitão Sharky (2018)


Com as aulas quase, quase a começarem, ainda há tempo para uma boa distracção no cinema. Capitão Sharky é uma das propostas em cartaz que estreia a 30 de Agosto.

Inspirado no livro alemão por Jutta Langreuter e ilustrado por Silvio Neuendorf, Capitão Sharky é um jovem pirata, o mais destemido deles todos.

Ele, juntamente com a sua tripulação animada, vão em várias aventuras, com a maior ainda por vir.

É quando a filha dum almirante foge no barco de Sharky, esta junta-se à equipa, com Paulo, um amigo novo, também a fazer o seu caminho nesta aventura.


Ao estilo da animação alemã, Capitão Sharky explora os vários significados de orgulho e o valor da amizade, com vários momentos divertidos entre humanos e animais.

Ainda com o seu orçamento reduzido, comparativamente a outros estúdios como a Pixar ou a Dreamworks, existem diversas cenas que poderão por vezes ser sobrecarregado para as crianças, isto porque a sua curta duração de apenas 73 minutos faz a história acontecer num passo demasiado rápido.

Felizmente, temos alturas onde a tensão é aliviada pela comédia e a imaginação nesta aventura.


É assim que Capitão Sharky se estreia no grande ecrã, com uma imensa vontade de ser o melhor pirata de sempre e, claro, deixar as crianças às gargalhadas.

Nota Final: 2.5/5 (originalmente 5/10)

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Originalmente publicado em Central Comics a 30 de Agosto de 2018

28 de agosto de 2018

Juliet, Naked | Julieta, Nua (2018)


Num Verão repleto de blockbusters, eis que estreia uma comédia-romântica, Julieta, Nua. Mas não se enganem pelo título do filme, ele não contém nudez absolutamente nenhuma.

Inspirado no livro de Nick Hornby, Julieta, Nua conta-nos a história de Annie (Rose Byrne), uma mulher cujo namorado, Duncan (Chris O’Dowd) é obcecado pelo compositor e cantor norte-americano Tucker Crowe (Ethan Hawke).


Esta obsessão deve-se ao álbum “Juliet” de Tucker, considerado por Duncan uma obra-prima, que passa a sua vida a analisar a fundo todos os aspectos do álbum, inspirado pelo fim de uma relação de Tucker. Desde então, que desapareceu sem rasto, deixando o ar o seu paradeiro como artista.

Um dia, Annie depara-se com uma cópia do CD com versões incompletas, intitulado “Juliet, Naked”, onde acaba por escrever uma crítica bastante dura ao que ouviu. Poucos dias depois, Annie recebe um email pessoal de Tucker, que inicia assim uma relação transatlântica com ela.


Longe de cair nos típicos clichés do rom-com, Julieta, Nua prefere antes tomar o rumo de mostrar as consequências de mudar um dia-a-dia banal, sem grande interesse.

Enquanto que essa monotonia desaparece, Annie é forçada a reagir às cartas que a vida lhe dá, havendo espaço então para que as personagens em seu redor cresçam com estas mudanças, sobretudo quando mais tarde Tucker vai a Londres para conhecer Annie.

Naturalmente, a vida de drogas, álcool e rock ‘n roll é substituta pela responsabilidade do seu filho, Jackson (Azhy Robertson), sendo que Tucker apenas se preocupa com o seu paz e sossego, enquanto vive na garagem da sua ex-mulher.


A narrativa, apesar de sentir muito orgânica, decide não trazer nada de novo ao género, deixando por vezes algumas oportunidades passar, sobretudo na comédia.

No fim, Julieta, Nua é um filme discreto o suficiente para o espectador casual, que procure uma boa distracção, enquanto que os blockbusters dominam as estreias.

Nota Final: 3/5 (originalmente 6/10)

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Originalmente publicado em Central Comics a 28 de Agosto de 2018

23 de agosto de 2018

The Happytime Murders | Pela Hora da Morte (2018)



Desde da década de ’50 que Jim Henson trouxe ao mundo as icónicas personagens d’Os Marretas, que foi formado um culto à volta dos fantoches que sabiam exactamente o que dizer. Mais tarde, foi a Rua Sésamo a dominar a nossa imaginação.

Em 2018, Brian Henson, filho de Jim, teve outras ideias para mostrar o lado perverso da arte performativa com Pela Hora da Morte.

Passa-se num mundo em que fantoches e humanos partilham o mesmo espaço, ainda que exista algum ódio contra eles.

É quando Phil Philips (a voz de Bill Barretta), ex-polícia tornado detective privado se encontra no meio duma série de assassinatos do elenco de The Happytime Gang, que toma rédeas ao mundo em que vive.


Mas nem tudo são rosas. A sua ex-parceira, Connie Edwards (Melissa McCarthy), é a detective principal no caso e os dois terão de trabalhar novamente em conjunto para descobrir quem está por detrás dos crimes.

Contado duma perspectiva do cinema noir, são as piadas grotescas que fazem o prato principal deste filme, desde vermos pornografia com fantochada e muitos palavrões a cabeças de feltro e algodão a explodir.

Da quase hora e meia de filme, são imensos os momentos divertidos e politicamente incorrectos. Podem crer que isto não é um filme para crianças.



Apesar da sua história cliché, Pela Hora da Morte nunca condescende o espectador, um factor importante para sua apreciação. Não há nenhum sentimento de arrependimento por quem fez o filme. Pelo contrário, Brian Henson divulgou recentemente que piadas mais adultas sempre fizeram parte do set d’Os Marretas e Rua Sésamo, mas que naturalmente, nunca foram gravadas.

Pela Hora da Morte é certamente a melhor homenagem ao que Jim Henson criou, deixando aqui a cereja no topo do bolo que é o legado dele.

Nota Final: 3.5/5 (originalmente 7/10)

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Originalmente publicado em Central Comics a 23 de Agosto de 2018

21 de agosto de 2018

The Meg | Meg: Tubarão Gigante (2018)


Os tubarões têm sido uma espécie de moda, quase da mesma forma como os vampiros também tiveram a sua dose de filmes na última década.

Num mundo em que o Shark Week continua a ser das semanas que os norte-americanos se deixam fascinar por esta criatura marinha e o Sharknado vê o seu fim no sexto filme, a ser exibido em Portugal em breve, é apenas natural que o tubarão encontre um caminho para aparecer novamente no grande ecrã.

Deem as boas vindas ao Meg: Tubarão Gigante!


O filme conta a história dum grupo de investigadores marinhos que descobrem novas espécies sob uma nuvem gelada a quase 11.000 metros debaixo de água. Estes ficam presos depois de terem sido atacados por o que parece ser um tubarão gigante, ou o chamado megalodon.

Liderado por Jonas Taylor (Jason Statham), um homem que deu de caras com o tubarão previamente mas desacreditado como se fosse um louco, a missão de salvamento é um sucesso, mas, no caminho de volta, Meg aproveita a ruptura temporária da nuvem e causa o caos na água.

Statham faz novamente o papel do herói de acção típico, no qual já ninguém o via assim a divertir-se desta forma há anos, fora das sequelas que deu continuidade.


Do outro lado, o elenco variado vai dando cartas para que haja alguma dinâmica, a realização de Jon Turteltaub (O Tesouro) faz o filme andar para a frente a cada 5 segundos, dando um sentido de urgência ao tempo disponível para eliminar a ameaça.

Desde one-liners com piada, a risos nervosos, ver Meg: Tubarão Gigante em IMAX 3D traz alguns benefícios adicionais, sobretudo porque a experiência neste caso é imersiva.

No entanto, o filme também tem algumas inconsistências científicas e outras que causam plot holes do tamanho de uma bola de neve, que força o espectador a acreditar um pouco demais naquilo que está a ver.

Naturalmente, não estamos perante nenhum Tubarão nem nenhum futuro clássico. Aliás, ninguém o espera. Mas há algo estranhamente confortante neste filme que certamente poderá um dia ser de culto, com todo o seu feel de filmes de série-B, mas que faz bom uso do seu orçamento superior.
Apesar dos seus defeitos, é aí que Meg: Tubarão Gigante ganha.

Nota Final: 3/5 (originalmente 6/10)

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Originalmente publicado em Central Comics a 21 de Agosto de 2018