11 de setembro de 2020

Historia de lo Oculto (2020)


Cristian Ponce é um dos mais recentes talentos argentinos, com um currículo versátil, desde curtas a séries de televisão, inclusive La Frecuencia Kirlian, um dos segredos mais bem guardados do nosso catálogo da Netflix. Com Historia de lo Oculto, este será marcado pela sua estreia no grande ecrã, que certamente abrirá novos caminhos para o cinema latino.

Este é o último programa do 60 Minutos Para a Meia-Noite, o mais famoso programa de investigação jornalística na televisão. Após várias polémicas, perdeu todos os apoios financeiros e a confiança da cadeia de televisão onde deixará de ser exibida. Este programa tem um convidado especial, Adrian Marcato (Germán Baudino), um homem que irá expor uma conspiração que liga o governo a um covil de bruxas, onde os acontecimentos mais inesperados podem acontecer.


A sua decisão de ter o filme maioritariamente a preto e branco, define um tom clássico a uma história que prende pelo seu valor intrigante. Será que as bruxas existem e têm uma influência nos altos cargos políticos? Ou será tudo uma fachada, apenas para causar uma histeria em massa, num programa cuja credibilidade já é irrelevante? Estas são as perguntas que ficam no ar, e que a cada momento, são pouco a pouco desvendadas, oferecendo alguma informação para que vejamos o puzzle inteiro, seja qual esse for.

Com uma curiosidade aguçada, o elenco, dividido em locais distintos, permite-nos ver as coisas por perspectivas algo diferentes, entre o apresentador e os convidados em estúdio, e os produtores do programa, esperando que toda a investigação que fizeram não seja em vão. Estes são os 60 minutos mais importantes da história do país, onde as revelações podem causar uma instabilidade política como nenhuma outra.


Cristian Ponce, por sua vez, injecta muita tensão nesta intriga por decifrar, onde acreditar nas personagens depende do quão convincentes são os seus argumentos e perceber até que ponto é tudo verdade. As consequências são reais e Ponce faz da sua realização, um filme mais thriller político e menos terror, onde os elementos sobrenaturais são subtis, com momentos que num abrir e fechar os olhos já se perderam; fazendo  para captar a nossa atenção para nos convencer que existe algo neste mundo que está incerto.

Assim, Historia de lo Oculto é uma das grandes surpresas do ano, num filme que tem tanta substância, quanto de estilo, onde é fácil cairmos na paranóia que o filme instala durante os 80 minutos de película. Até que ponto isto é inspirado por factos reais, nunca saberemos, mas a sua convicção que algo para além dos nossos olhos está em controlo, deixa-nos a tremer.

Nota Final: 4/5 (originalmente 8/10)

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Originalmente publicado em Central Comics a 11 de Setembro de 2020.

10 de setembro de 2020

Unhinged | Em Fúria (2020)


Todos temos dias maus, mas alguns podem levar alguém ao limite, sobretudo quando para isso basta uma buzinadela. É este o conceito básico do mais recente filme realizado por Derrick Borte e escrito por Carl Ellsworth, com o thriller Em Fúria.

Tom Cooper (Russell Crowe) é um homem instável que ultrapassa todas as barreiras quando é buzinado por Rachel (Caren Pistorius), uma mulher a lidar com uma altura difícil da sua vida, entre o divórcio com o seu marido e manter um trabalho estável. Tom, esperando que Rachel lhe pedisse desculpa pelo sucedido, faz com que esta tenha o pior dia da sua vida quando entra alvoroço violento, em que o homem fará de tudo para que ela sofra as consequências das suas acções.
Zero é a quantidade de empatia que temos por Tom, que escala o desentendimento para algo com proporções incríveis, ao ponto de assediar e perseguir uma pobre mulher, com a maior das intenções de destruir a sua vinda inteira. Por causa de uma buzinadela.


Na verdade, toda esta história poderá ser vista como uma alegoria, exagerada para os seus próprios efeitos de paródia e provar um ponto sobre a violência na estrada. Aliás, a sequência dos créditos iniciais do filme é ela maioritariamente composta por vídeos de noticiários e das redes sociais, onde vemos o tal “road rage” em efeito no mundo real. No entanto, duvido que todos tenham começado por algo tão banal e ignorante.

Enquanto Russell Crowe está sempre em modo grunhirão zangado, a sua capacidade de manter o mesmo registo de maníaco durante a hora e meia de filme é de aplaudir, mesmo que este contribua para o problema de oferecer violência gratuita em todos os momentos possíveis. Entretanto, é a personagem de Caren Pistorius por quem mais torcemos, que no meio de tanto sofrimento, é capaz de ultrapassar as dificuldades, mesmo que estas são longe de serem plausíveis.


Com uma narrativa facilmente quebrada com problemas que poderiam ser facilmente resolvidos com uma chamada à polícia logo no instante que acontecem, fica difícil gostar do desenvolvimento da mesma e como prossegue na sua missão de usar a força humana para aterrorizar uma pessoa.

Com isto, Em Fúria é um thriller que cai no esquecimento a partir dos créditos finais, salvo se for para lembrarmos de um Russell Crowe com um dad-bod, a ser a pessoa mais ruim à face da terra por, literalmente, razão nenhuma; deixado a sensação que o filme apenas existe para alimentar uma fantasia sádica qualquer. E isso não pode ser bom.

Nota Final: 1.5/5 (originalmente 3/10)

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Originalmente publicado em Central Comics a 10 de Setembro de 2020.

9 de setembro de 2020

Butt Boy (2019)


Se existe um género que permite experimentar conceitos aparentemente absurdos sem grandes consequência, é certamente o terror. Pelo menos é a ideia de Tyler Cornack, que escreveu, realizou e protagonizou Butt Boy.

Chip Gutchell (Cornack) é um homem com uma vida mundana, até ao dia que faz o seu exame da próstata e descobre todo um mundo novo de prazer. O pior de tudo, Chip acaba por meter literalmente tudo pelo cu acima, desde objectos, a seres humanos; este último que lhe causa alguns problemas com a lei. Anos mais tarde, este conhece o detective Russel B. Fox (Tyler Rice) numa reunião de alcoólicos anónimos e torna-se seu padrinho, quando os seus caminhos cruzam novamente num caso de uma criança desaparecida.


É impossível não ficar, no mínimo, intrigado com a ideia geral de Butt Boy, mas é admirável a forma com o filme não se mostra envergonhado pela sua abordagem, enquanto que o faz sem escárnio, levando a sério algo que muitos achariam pouco usual. Muito disto vem da dupla de Cornack e Rice, que fazem dos seus diálogos intensos verdadeiros momentos de desenvolvimento, onde vemos a fundo as cartas que a vida lhes deu.

É igualmente divertido todo o sentimento de filme de série-B dos anos ’80 que este oferece, quase como se tivéssemos a ver um VHS de algo super desconhecido, o que cria quase um status de culto só por si. No entanto, dois terços da obra são dedicadas a um thriller relativamente desequilibrado, onde a cada momento esperamos que o ridículo tome conta da narrativa, algo que nunca inteiramente chega a fazer; e um último terço que faz jus do título do filme.


Há algo de profundo em Butt Boy, que vem de um lugar de uma criatividade genuína em contextualizar algo conhecido pela sua saturação de clichés, e colocar uma situação tão fora do que se poderia imaginar, conseguindo escrever e realizar uma película com boas intenções e fazê-lo com muito sucesso. São muitos poucos os auteurs capazes de agarrar e fugir com uma ideia tão absurda e torná-la em algo palpável e é exactamente isso que Cornack fez.

Assim, Butt Boy é uma das surpresas mais interessantes do ano, capaz de convencer até o espectador mais cético, indo muito mais para além da sua sinopse, que se lê de forma ridícula; oferecendo uma visão séria o suficiente para escapar à paródia e ser algo doutro mundo. Mesmo que esse seja no cu.

Nota Final: 4/5 (originalmente 8/10)

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Originalmente publicado em Central Comics a 9 de Setembro de 2020.

6 de setembro de 2020

32 Malasana Street | O 3º Andar: Terror na Rua Malasaña (2020)


Já durante muitos anos, o cinema espanhol tem oferecido propostas de grande interesse e entretenimento, algo que tem vindo a ser mais aparente com a estreia de muitos filmes nas nossas salas. O terror, este género que tem talvez um grupo forte de fãs, sabe que da a sua variante espanhola tem um sabor diferente; e eis que aparece O 3º Andar: Terror na Rua Malasaña, realizado por Albert Pintó e inspirado por uma história verdadeira que decorreu num dos bairros mais emblemáticos de Madrid.

O ano é 1976 e durante o que é chamada a transição espanhola, uma família do campo decide mudar-se para a cidade para uma vida melhor, esta percebe que a casa tem alguns problemas sérios de assombramento, com uma figura idosa e aterrorizar os novos habitantes, de forma a arruinar as suas sanidades mentais e emocionais, como nunca antes viram.


Estabelecendo a localização para o que será agora uma paragem obrigatória para qualquer fã de terror que visite Madrid, estamos perante um filme que contém todos os elementos clássicos de uma casa assombrada, utilizando e muito bem, todas as suas cartas tradicionais esperadas do género. O facto de o mesmo decorrer durante a década de ’70, permite que haja tecnologia básica suficiente para oferecer grandes sustos, muitos deles que certamente irão deixar pele de galinha nos espectadores mais susceptíveis aos sustos.

O seu tom acerta, em grande parte, no alvo certeiro, com uma mistura de jump-scares e cenas cuidadosamente desenvolvidas para maximizar o medo, como uma onde a televisão é utilizada com o veículo para causar grandes transtornos, e que funciona de forma muito eficaz. Do mesmo lado, o foco no elemento familiar e o seu status socioeconómico, permitindo que o terror seja sentido mais próximo de nós, da qual é importante destacar Begoña Vargas, no papel de Amparo, que quem mais no convence da realidade que o filme impõe.


É igualmente aparente que houve um esforço na resolução de alguns do problemas de narrativa que o filme cria, introduzindo uma força externa para a sua resolução. Infelizmente, essa abordagem acaba por se sentir sentir um pouco fora do contexto que o este até aquele momento estabelece, e uma explicação para o assombramento que não tem tanto impacto quanto que intende.

Assim, O 3º Andar: Terror na Rua Malasaña pode não introduzir nada de inteiramente novo num género com fãs repletos de paixão, mas que é sólido o suficiente para fazer dos clichés habituais algo surpreendente, capaz de cortar a respiração e fazer-nos tapar os olhos, de vez em quando.

Nota Final: 3.5/5 (originalmente 7/10)

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Originalmente publicado em Central Comics a 6 de Setembro de 2020.

2 de setembro de 2020

The Babysitter (2017)


Por vezes, as pessoas que mais gostamos podem revelarem ser piores do que alguma vez imaginamos. É o que fazemos com essa revelação que conta e neste filme da Netflix, The Babysitter, descobrimos um grupo curioso de personagens e uma babysitter com intenções inesperadas.

Cole (Judah Lewis) é um rapaz que se vê numa situação muito estranha com Bee (Samara Weaving), uma babysitter atenciosa e divertida. Numa noite em que os pais de Cole os deixa sozinhos, este descobre o que acontece depois de ir dormir, quando vê um grupo de estranhos na sua sala, acabando numa aventura pela sua própria sobrevivência.


A curiosidade inata que o filme estabelece desde cedo deixa-nos colados ao ecrã, nem que seja ao cairmos pelo encanto de Bee, retratada como a imagem da perfeição, mas que esconde um grande segredo. E quando esse é descoberto perante os nossos olhos, todas as expectativas que poderíamos ter num filme que aparentava ser apenas mais um slasher de adolescentes no meio de muitos, acaba por ser algo muito mais interessante, com choque atrás de choque ao nosso sistema vulnerável.

Talvez aquilo que faça deste filme tão divertido, é o seu elenco variado de caras conhecidas, suportadas por pseudo-estereótipos e as suas qualidades auto-depreciativas, como se de uma paródia tratasse. Com ele, contamos com Max (Robbie Amell), o jovem musculado, desportista e com um ego inflacionado; Sonya (Hana Mae Lee), a asiática cirurgicamente estranha; Allison (Bella Thorne), a cheerleader fútil; e John (Andrew Bachelor), o negro que, apesar de tudo, recusa-se a conformar com o género que normalmente o mataria primeiro. 


Existe uma cena entre Max e Cole, que interrompe a violência sádica constante no filme, onde o musculado força-lhe a confrontar o seu bully, como se de um irmão maior se tratasse. É uma cena altamente inesperada, e muito querida no filme, apesar de ser curta e resumir devidamente aquilo que estava a fazer. Há até tempo para uma pequena história de amor com a crush de Cole, Melanie (Emily Alyn Lind), que pede para ser mais visto.

Assim, The Babysitter é um filme de puro divertimento, com a grande qualidade de se poder assistir novamente vezes sem conta, sem que este perca a sua alma. Existe uma mensagem qualquer no meio sobre confiança, amor adolescente e auto-estima, mas por mais que tente mostrar o seu lado mais normal, há sempre um homicídio maníaco à espreita, pronto para fazer esquecer qualquer ideia séria que possamos ter perante o filme, de uma forma que só McG sabe fazer, com um slasher de grande eficácia.

Nota Final: 4/5