13 de janeiro de 2021

Run | Corre! (2020)

Quando Aneesh Chaganty, em conjunto com o argumentista Sev Ohanian, ofereceram-nos em 2018 um dos thrillers mais interessantes do ano, com Pesquisa Obsessiva, era claro como o dia que a dupla tinha muitas mais cartas debaixo da manga. Dois anos mais tarde, eis que estreia Corre!, continuando o seu legado no cinema de terror.

Diane (Sarah Paulson) é a mãe protectora de Chloe (Kiera Allen, na sua estreia no cinema), uma jovem com diversos problemas médicos e que requer uma monitorização constante, inclusive sendo uma estudante em casa. Um dia, Chloe suspeita que a sua mãe lhe está a esconder algo sobre a sua medicação, que causa um grande problema familiar.

É com uma incrível construção de tensão que Chaganty articula com Paulson e Allen cenas genuinamente assustadoras, enquanto torcemos por Chloe na sua busca da verdade, enquanto Diane é a personificação máxima de o que é uma mãe galinha, onde nada lhe irá impedir de proteger a sua filha do mal.

Estamos perante uma obra que desde cedo nos intriga, ao lançar algumas pistas a demonstrar alguma da estranheza da vida de Chloe, desde da sua condição física, estando ela dependente de uma cadeira de rodas; à quantidade abismal de medicamentos que a mesma tem que tomar para as suas várias doenças, passando pelo facto de ela não ter um smartphone ou acesso permanente a um computador. Todos estes elementos são mostrados de forma casual, mas são capazes de incomodar o suficiente para que as suspeitas se levantam logo de inicio.

Considerando que passamos a maioria do tempo com Diane e Chloe, é de louvar a actuação de Sarah Paulson, que tem uma espécie de magnetismo para papéis como estes, onde recentemente vimos algo semelhante em Ratchet, uma das mais recentes séries da Netflix, e que aqui continua a sua loucura inerente. Do outro lado, está Kiera Allen, que está à frente da representação de actores com deficiências físicas, ao qual ela e Chaganty foram capazes de utilizar as circunstâncias para benefício da narrativa, e pelo meio, tornar Allen numa das grandes jovens promissoras do cinema independente.

Com isto, Corre! pode agarrar numa fórmula clássica, com uma margem de manobra muito reduzida e em troca, é capaz de combinar umas das melhores actrizes com facilidade de personificar a loucura e uma jovem promessa, num filme onde escapar, seja de que forma for, é a ordem do dia. Se Aneesh Chaganty e Sev Ohanian manterem esta parceria no futuro, é certo que terão muito para contribuir ao género

Nota Final: 3.5/5 (originalmente 7/10)

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Originalmente publicado em Central Comics a 13 de Janeiro de 2021.

3 de janeiro de 2021

Archenemy (2020)


Após quase duas décadas de filmes de super-heróis e pseudo-anti-heróis, pelo meio contámos com algumas adaptações de banda desenhada mais adultas, desde Watchmen - Os Guardiões, a V de Vingança, ou mais recentemente Officer Downe - O Filme; apelando a um público diferente. Foi neste sentido que após o sucesso de Daniel: Amizade Aterradora, Adam Egypt Mortimer escreveu e realizou Archenemy, produzido pela Spectrevision de Elijah Wood.

Max Fist (Joe Manganiello) é um herói doutra dimensão, que para prevenir a ruína de Chromium, teve que escapar através de um buraco negro, que transcende o tempo e o espaço, até cair no planeta Terra, onde não tem poderes. Quando Max conhece Hamster (Skylan Brooks), um jovem jornalista guerrilha disposto a ouvi-lo, os dois formam uma amizade, enquanto que Indigo (Zolee Griggs), irmã de Hamster, está envolvida com o mundo de traficantes de drogas, liderada por The Manager (Glenn Howerton).


O que se segue é hora e meia de um híbrido entre animação neon e um filme de acção de série-B, onde Mangianiello está à frente ao centro da sua redenção, perseguido pelas aventuras que lhe atormentam e do seu arqui-inimigo, na forma de Cleo (Amy Seimetz). Ainda que dois terços do filme rondam a vida de Max e a sua vinda até ao planeta Terra, há um certo charme na sua atitude, que o torna minimamente interessante, demonstrando o talento de Mangianiello como protagonista e possível herói de acção, podendo ser algo reconhecido para além do seu trabalho em True Blood, Magic Mike e Deathstroke na nova versão de Liga da Justiça. Por outro lado, são excelentes sidekicks, mas a maioria do seu potencial é inexplorada. Mesmo os ditos vilões deste filme são incapazes de se fazerem destacar que os outros demais, optando pelo jogo seguro.

O que Archenemy tem de positivo é na forma nua e crua como assume o seu DNA, mesmo com todas as suas falhas, por mais bizarro que alguns dos seus conceitos possam ser, ao qual teria sido bom ver mais momentos da animação e passado mais tempo a conhecer Chromium e a vida de Max por lá, invés da sua miséria no nosso planeta, com uma narrativa reduzida a pouco mais que um filme de acção tradicional.


Com isto, Archenemy é mais um passo interessante na carreira de Adam Egypt Mortimer e a sua colaboração com a Spectrevision, que tem trazido algumas propostas que valem a pena estar atentos. Dividido entre inovar com os seus conceitos mais cientifico e fiar-se na brutalidade da acção, a sua hesitação traduz-se num filme mediano, mas decente o suficiente para entreter.

Nota Final: 3/5

2 de janeiro de 2021

Fatman | Missão Vingança (2020)

O Natal sempre foi uma época estranha para o cinema de acção. Afinal, as eternas discussões sobre se Assalto ao Arranha-Céus é, ou não, um filme festivo; ou se Shane Black tem uma panca por esta altura do ano, tendem dominar as festas com aqueles amigos mais cinéfilos. Acontece que a dulpa de realizadores e argumentistas Eshom e Ian Nelms têm outros planos para celebrar o Natal, com Missão Vingança, uma tradução bizarra do título original, Fatman.

Chris (Mel Gibson) é, sem sombra de dúvida, o Pai Natal, cujo trabalho anual envolve gerir toda uma operação logística com a sua mulher, Ruth (Marianne Jean-Baptiste) e entregar prendas no sapatinho às crianças boas e pedras de carvão às crianças menos boas. Infelizmente, o pequeno gangster Billy Wenan (Chance Hurstfield), não achou muita piada à prenda que tinha tanto de original como de utilidade para uma criança e decide recorrer aos serviços de Skinny Man (Walton Goggins), um assasino contratado, para matar Chris.

Se em papel isto tudo soa a uma ideia relativamente interessante, é porque de facto o contexto do qual motiva toda esta narrativa quase roça o génio, sobretudo num mundo repleto de crianças mimadas, produtos de hereditária e meio ambiente, naquilo que chamamos vida real. Seja como for, a experiência proporcionada tinha tudo para dar certo, até poder surpreender na sua abordagem. No entanto, o que fica, é apenas um filme de série-B algo sólido na execução.

A ideia de manter a piada dentro de um universo realista é talvez um dos pontos mais imperativos que Missão Vingança tem, jamais caindo inteiramente na paródia de si mesmo, algo que seria muito fácil de fazer. Invés disso, existe um verdadeiro filme de acção onde as circunstâncias atenuantes das suas personagens principais, quase só servem de pano de fundo, mas que são aproveitadas para oferecer um factor diferenciador dentro do género; tudo sem ser estúpido ou levar-se demasiado a sério.

Enquanto que o seu pouco charme pode pôr o filme de lado como O filme de Natal para se ver todos os anos, a verdade é que pais por todo o mundo estarão certamente contentes por finalmente terem um herói da qual podem admirar. Mesmo que esse herói em tempos possa ter dito e feito algumas coisas condenáveis em Hollywood e que está desde então em busca de redenção. Mas essa conversa, creio eu mencionada anteriormente em Na Sombra da Lei, terá que fica novamente para outra altura.

Assim, Missão Vingança não ficará marcado como um clássico, mas ganha por ser um filme minimamente divertido, nas partes que realmente contam.

Nota Final: 3/5 (originalmente 6/10)

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Originalmente publicado em Central Comics a 2 de Janeiro de 2021.

30 de dezembro de 2020

Love and Monsters (2020)


Quando em 2010, a série The Walking Dead mudou a forma como o cinema e a televisão abordaram os zombies, o seu rescaldo ainda é um que está a ser fortemente sentido e difícil de livrar na última década, muito devido à saturação do género. Da mesma forma que Sangue Quente fez o seu sucesso na sua comédia a roçar na paródia, Love and Monsters, realizado por Michael Matthews, vem para desanuviar dos panoramas pós-apocalípticos.

Quando um asteróide em direcção à Terra é destruído, as consequências dos misseis utilizados condenaram os nossos habitantes, quando a chuva química provocou que todos os animais selvagens sofressem uma mutação, tornando-os em monstros gigantes. Acompanhamos Joel (Dylan O'Brien), um jovem que vive numa colónia, protegido pelo grupo que lhe acolheu durante estes incidentes, mas separado há sete anos da sua namorada Aimee (Jessica Henwick). Nisto, Joel decide embarcar na aventura da sua vida, ao viajar 85 milhas até à colónia de Aimee, onde a morte está à espreita.


Este é possivelmente um dos melhores papéis de Dylan O'Brien desde Teen Wolf, num ambiente onde o actor é capaz de balancear perfeitamente o seu charme casual e cómico, ao mesmo tempo que é capaz de manter uma boa postura durante toda a acção e aventura, trazendo o melhor dos dois mundos dele; ao qual se junta Boy, um cão muito simpático, da qual criam uma ligação muito forte e que dá outro impacto a este filme.

O argumento, escrito por Brian Duffield (The Babysitter) e Matthew Robinson (Dora e a Cidade Perdida), demonstram ser o par perfeito para criarem um universo o sentido de aventura e o sentido de humor estão equilibrados, ao qual é importante destacar que a narrativa é um excelente exemplo da estrutura clássica da chamada "Jornada do Herói", podendo ver aqui um crescimento claro da personagem principal.


Se não existe maior motivação que o amor, por outro lado, os monstros jogam ao mesmo nível, sentido cada confrontação como uma batalha de grande importância, capaz de ameaçar a vida e o rumo da história, onde vemos Joel a aprender e aplicar as suas capacidades com cada uma que tem que ultrapassar

Assim, Love and Monsters é uma comédia aventureira, a levar a vida com alguma levidade, onde a acção intensa e os risos calorosos oferecem espaço para respirar e, acima de tudo, divertir; enquanto aborda a sua narrativa de uma forma sólida, numa viagem autêntica em vermos um zero a tornar-se no derradeiro herói.

No meio disto tudo, ainda é capaz de ser mais interessante do que a adaptação de Monster Hunter...

Nota Final: 4/5

28 de dezembro de 2020

Shithouse (2020)


Fazer um filme não é uma tarefa fácil, ainda mais expor uma história que é intensamente pessoal e traduzir isso em algo que sequer se assemelhe a algo próximo de cinema. Mas, de alguma forma, Cooper Raiff atirou-se cegamente ao desafio ao escrever, realizar e protagonizar a sua primeira longa-metragem, Shithouse.

Alex (Raiff) é um estudante numa universidade, sentido-se sozinho e afastado de tudo e de todos durante o seu tempo por lá. Uma noite, ele conhece Maggie (Dylan Gelula), uma residente assistente na residência universitária que teve um dia péssimo e lhe convida para passarem tempo juntos. 


Mais que tudo, Shithouse é a representação de todos os introvertidos e outros afins, incapazes de fazer conexões activamente pela faculdade, sobretudo se for um ambiente totalmente novo. Existem milhares de Alex pelo mundo no mesmo caso, abrido desde já o jogo perante o tipo de vida que o jovem vive diariamente. O elemento de novidade, em forma de uma rapariga bela, que acaba por surgir um pouco do nada, é uma demonstração em como a vida não-planeada, composta por momentos espontâneos, acabam por ser aqueles que nos fazem sentir mais felizes. 

A direcção de fotografia de Rachel Klein, mostra toda a experiência de uma relação universitária na sua forma mais verdadeira e genuína, intimista e que expõe os medos de qualquer relação, entre duas pessoas que inesperadamente se encontraram. É um amor como muitos, onde Cooper Raiff explora de forma coerente a simplicidade aparente da sua premissa, que podemos admirar como um exemplo de como as coisas acontecem por alguma razão.


Ainda que por vezes caia nas trupes do costume, levadas a cabo pelas comédias românticas da geração actual, é todo o texto de diálogos que faz com que Shithouse se destaque dos outros demais, onde cada frase marca a narrativa, junto com uma pitada de comédia, onde não falta sequer uma referência a De Repente, Já nos 30!. 

Com isto, Shithouse é uma obra onde vemos Cooper Raiff a revelar-se como uma dos grandes estreantes do ano, num filme que grita alto para todos aqueles que estão apenas a tentar viver, à procura daquela experiência única que lhes irá mudar para sempre as suas vidas. Jamais ousando seguir por clichés, por vezes a perspectiva da vida real é mais que suficiente para contar uma história que vem de um lugar próximo, onde conseguimos ver Raiff e Gelula de alma e coração cheio.

Nota Final: 4/5