19 de maio de 2020

Black and Blue | Black and Blue - Encurralada (2019)


Os polícias nem sempre são os bons da fita e no mais recente filme de Deon Taylor, Black and Blue - Encurralada, conhecemos o lado mais obscuro da cidade de Nova Orleães, quando a novata Alicia West (Naomie Harris) testemunha um homicídio de um gang por um grupo de polícias corruptos, entre eles o detective da brigada anti-drogas Terry Malone (Frank Grillo). O crime, gravado na sua body cam, é a única prova que Alicia tem e eles farão de tudo para impedir que ela chegue viva à esquadra com a filmagem.

Ainda a recuperar de o furacão Katrina, as pessoas de Nova Orleães tiveram que mudar as suas vidas de modo a sobreviverem à reconstrução da cidade, ainda considerado um dos desastres cujos estragos ainda se sentem hoje. A forma que a comunidade vê a polícia, e vice versa, nem sempre é a mais produtiva, alimentada por um preconceito de racismo e falta de empatia para com o próximo. Mas Alicia, uma ex-soldado, vinda de Candaar, está disposta a mudar o sistema por dentro e ser a mudança positiva que os cidadãos tanto precisam, mesmo que a cidade não seja a mesma que ela reconhece.


A premissa não é nada que não tenhamos visto antes, semelhante a outros dentro do género como 16 Blocks, onde o grande jogo do gato e do rato é o centro de uma narrativa que neste caso se mostra desinteressante, ainda que o mesmo tente-nos convencer que o risco é alto, num ambiente hostil. Adicionalmente, a abordagem inconsistente de temas actuais, como o racismo e a corrupção limitam-se a ser meros contextos, sem que sejam exploradas em funcionamento da história, algo que poderia ter beneficiado.

Por outro lado, podemos contar com um grande elenco, entre os já mencionados Harris e Grillo, juntam-se Mike Colter, como o gangster manda-chuva Darius, e surpreendentemente, Tyrese Gibson, como Mouse, um amigo de Alicia, num raro papel fora da saga Velocidade Furiosa. Infelizmente, as suas personagens pouco contribuem para o interesse geral do filme, sendo apenas peões no grande tabuleiro que a obra é.


No fim, Black and Blue - Encurralada mostra ter alguns factores diferenciadores dentro dos thrillers a que vemos vendo nos últimos tempo, mas falha em explorar as suas qualidades, fiando-se demasiado no seu elenco sólido, com um argumento e realização que não é nada por aí além. Competente, mas com uma mensagem baralhada, ficamos a desejar por uma alternativa mais emocionante.

Nota Final: 2.5/5

17 de maio de 2020

VFW | VFW - O Último Reduto (2019)


Joe Begos é um homem ocupado. Não só tem tido uma carreira em crescimento, com filmes como Almost Human e The Mind's Eye, como também lançou dois filmes em 2019, o carismático Bliss e este, VFW - O Último Reduto. Continuando o seu reinado no cinema de género, Begos introduz-nos a um festival induzido por drogas e homenagens a filmes clássico, como seria de esperar.

Conhecemos Fred (Stephen Lang), o dono do VFW, um bar onde veteranos de guerra se reúnem para beber uns copos e relembrar os velhos tempos das guerras onde combateram. Do outro lado está um clube infestado de drogados sob a influência de uma nova substância chamada Hype, que os deixa num estado quase zombificado, mas com o triplo da força e tolerância à dor. Nesta solene noite, os dois mundos cruzam-se quando Lizard (Sierra McCormick), decide roubar as drogas a Boz (Travis Hammer), mas ao ser apanhada, decide esconder-se no VFW, iniciando assim uma guerra que ninguém pediu.


É nesta viagem de regresso aos anos '80 que Begos nos leva a pensar nos clássicos de John Carpenter, neste caso principalmente o Assalto à 13.ª Esquadra, apenas numa infusão colorida e puramente punk, onde a adrenalina está no auge e a quantidade de testosterona é imensurável. Cabe agora a este grupo de soldados proteger Lizard e o VFW contra os drogados, que farão de tudo para terem de volta aquilo que lhes pertence.

Begos é certamente um realizador que sabe homenagear os filmes que lhe inspiram e perfeitamente capaz de os recriar na sua própria forma, mostrando que tem uma certa diversão em fazê-lo. Prova disso está na sua filmografia, ainda que curta, é suficiente para nos convencer que o conceito está em boas mãos. O realizador vai mais longe, ao fazer uma homenagem sem que ela se sinta datada, com VFW - O Último Reduto a ser uma obra verdadeiramente emocionante, com um nível desenvergonhado de violência, e consequentemente, gore e sangue, que sobem o nível das muitas cenas de acção, que nos deixam a pedir mais.


Por outro lado, podemos contar com um elenco composto por veteranos em clássicos do cinema e da televisão, com Lang (Nem Respires), William Sadler (Assalto ao Aeroporto), Fred Williamson (Aberto Até de Madrugada), Martin Kove (Momento da Verdade), David Patrick Kelly (O Corvo) e George Wendt (Cheers, Aquele Bar). A eles se juntam o mais novo Tom Williamson, que tem uma grande carreira pela frente. Ver este grupo de actores todos juntos novamente adiciona uma camada de credibilidade que não existiria se fosse um elenco de desconhecidos, algo que podemos apreciar.

Dito isto, VFW - O Último Reduto é mais uma criação vencedora de Joe Begos, compondo em hora e meia de filme tudo aquilo que amamos dos filmes de acção e terror dos anos '80, com um filme altamente estilizado e com algum bom conteúdo, sobretudo no que toca às trocas de violência. Mal podemos esperar para ver o que Begos faz a seguir!

Nota Final: 3.5/5

Vivarium (2019)


Quantos de nós, durante toda a nossa vida, vamos percebendo que a ordem natural que a sociedade impõe nas nossas relações é de conhecer alguém para passar o tempo, enquanto ficamos velhos, ter filhos e prosseguir com "a nossa parte" da manutenção da humanidade? Esta é a realidade que Lorcan Finnegan subverte no seu mais recente filme, Vivarium.

Gemma (Imogen Poots) e Tom (Jesse Eisenberg) são um casal à procura de um sítio que podem chamar de casa, até que visitam Martin (Jonathan Aris), um corrector de imóveis que lhes leva até Yonder, um bairro nos subúrbios, onde as casas aparentam ser todas iguais, mas que Martin vende como as casas perfeitas para passarem o resto das suas vidas. Yonder é um local estranho, onde tudo é simétrico e as cores esverdeadas e azuladas fazem parecer que estão a viver um sonho. O problema começa quando Martin desaparece e o casal não consegue encontrar a saída do bairro, forçados a viver na sua casa nova, onde entretanto terão que criar uma criança, deixada às suas portas.


Somos gradualmente puxados para um mistério intrigante, onde vivemos na esperança que a dada altura nos seja explicado que raios estamos a ver e porquê, nem que seja para percebermos onde a criança se insere no meio disto tudo. No entanto, enquanto que bem podemos esperar sentados, resta-nos absorver o que é apenas comparável à personificação de uma pintura surreal num universo que bem poderia vir duma versão obscura de Dogville, vinda da mente de Lars Von Trier, ou até ao ecléctico Debaixo da Pele, de Jonathan Glazer. Ainda que se faça difícil de compreender, Vivarium faz tudo para que não desviemos o olhar, algo que faz muito bem, deixando-nos a pensar no o que estará do outro lado da cerca.

Entre cenários falsos, demasiado plásticos para que se assemelhe a algo do mundo real, estes próprios algo assustadores, Finnegan explora de uma forma cirúrgica temas como o isolamento social, a paternidade e o significado de o que é a vida que a sociedade geral nos impõe, com os seus ideais romântico-sociais, que vemos constantemente a serem glamorizados na cultura, tudo em forma de uma lição que fica colada à nossa mente, onde tanto Imogen Poots, como Jesse Eisenberg encaram de forma assustadora as suas novas realidades, perante uma criança que cresce num homem-criança em meros dias.


Assim, Vivarium pode ser classificado como algo dentro de um género relativamente novo, o eco-terror, contando histórias onde a natureza vai contra a humanidade e as suas necessidades, provando a difícil luta contra a biologia humana. Ainda que num formato mais experimental, podemos contar com vários momentos de introspecção, mas a viagem poderá não ser a mais interessante para alguns. Para os outros, certamente irão encontrar aqui uma proposta curiosa, onde a realidade e o imaginário cruzam caminhos.

Nota Final: 3.5/5

6 de maio de 2020

Blade II (2002)


São raros os filmes que merecem uma sequela que mergulha no universo da personagem que acompanhamos. É discutível se Blade é um desses casos, mas quando o realizador mexicano Guillermo del Toro é quem é confiada essa sequela, é apenas natural abrirmos rapidamente os braços a Blade II.

Dois anos depois dos eventos do primeiro filme, Blade (Wesley Snipes) vai em busca do seu amigo Whistler (Kris Kristofferson), a quem julgava morto. Como se não bastasse, existe uma nova e mais poderosa ameaça que força os vampiros a procurarem Blade, em busca de uma aliança, para derrotar o tão temido Nomak (Luke Goss), responsável pela morte de diversos vampiros.


Mal começa o filme quando nos deparamos com uma notória evolução de quase todos os aspectos que o filme nos apresentou, com cenas de luta mais rápidas e concisas, como também inimigos mais resistente, que requerem algum tipo de upgrade, já que estes são mais eficazes a causar danos sérios. Ainda assim, grande parte das vezes, mantém-se divertidas de ver, com Snipes a conseguir manter o registo do filme anterior, agora com menos catchphrases e mais acção coreografada.

Desta vez Blade não está sozinho, tem ao seu lado um pequeno exército de vampiros com diversos talentos, entre eles Nyssa (Leonor Varela), Reinhard (Ron Perlman), Snowman (Donnie Yen), e muitos outros, que acabam por ter um grau de relevância variado durante todo o filme. Felizmente, e porque não seria um filme de Del Toro sem ele, podemos contar com a inclusão de criaturas sanguessugas e com vida própria, algo que em 2002 já era algo muito próprio do realizador.


Outro dos aspectos onde parece ter havido algum tipo de progresso é na forma que algumas sequências demoram a desenvolver, culminando em fantásticos momentos cinematográficos, sobretudo cenas de muita acção, onde sentimos que o desfecho é que alto risco. É aqui que Nomak contribui mais como o novo vilão, alguém cuja inteligência é racionalidade permitem causar um caos controlado e magoar os seus oponentes sem remorsos, com algumas reviravoltas interessantes pelo meio, que mantêm os olhos no ecrã.

Assim, Blade II orgulha-se em ser uma das poucas sequelas que, para todos os efeitos, é melhor que o primeiro, fruto do talento de um realizador que, na altura, víamos ter uma percepção muito inovadora, mais que nos dias que correm. A isto se junta mais um argumento escrito por David S. Goyer, da qual desejávamos que se juntassem novamente, fomentando a definição de "filme de culto".

Nota Final: 4/5

5 de maio de 2020

Blade (1998)


O cinema de superheróis pré-novo milénio eram obras que não sabiam bem como adaptar as páginas de banda desenhada e como as tornar apelativas a um público que considerava ler BD como um hobby de nicho. Ainda que na altura a Marvel já tinha, muitas vezes, testado algumas das suas propriedades no grande ecrã, foi com Blade que a Marvel iniciou um percurso que iria lhe levar a um grande sucesso, numa altura em que o mundo ainda estava a recuperar da quadrologia de Batman e um encontro com Spawn em O Justiceiro das Trevas. Talvez o mais interessante no meio disto tudo é que o filme é para uma audiência adulta e Blade não é o típico superherói.

Neste filme, conhecemos Blade (Wesley Snipes), um meio-vampiro, meio-mortal, que é o auto-designado protector dos humanos, que terá que enfrenta uma nova ameaça, na forma de Deacon Frost (Stephen Dorff), um humano tornado vampiro com um complexo de Deus, depois de conseguir traduzir os manuscritos antigos de uma profecia, pondo Karen Jenson (N'Bushe Wright), uma hematologista no meio de uma guerra sangrenta.


Nos primeiros momentos do filme, podemos compreender como este se rapidamente um dos papéis mais icónicos de Snipes, não apenas pelo seu estilo, por vezes duvidoso, de moda; como também as maravilhosas catchphrases que o mesmo diz, encarando uma personalidade que tanto assenta o mundo obscuro que nos é apresentado, convencendo-nos que os vampiros existem seja por onde andemos, cortesia de um argumento escrito por David S. Goyer, que se manteve nos eixos das adaptações de banda desenhada nas décadas seguintes, mostrando não só o seu talento, como também o impacto que teve na indústria.

Blade é, maioritariamente, composto por cenas de acção descabidas, entre a utilização de armas carregadas com balas de prata, luz ultravioleta e uma espada, entre outros brinquedos divertidos, tudo com o objectivo de eliminar os vampiros de formas bastante criativas. Felizmente, Frost mostra ser um oponente de grande valor, já que este joga por outras regras, sem respeito pelos acordos secretos entre humanos e vampiros, o que, juntamente com a sua ambição, lhe torna num vilão que é puro mal e particularmente perigoso, conseguindo manter-se a par com Blade durante os seus confrontos.


Ainda que a narrativa siga a fórmula tradicional do bom versus o mau, existem diversas cenas que em retrospectiva parecem estar à frente do seu tempo, com excepção do uso terrivelmente datado de CGI, mesmo para a altura em que o filme foi lançado inicialmente e uma realização algo ecléctica por parte de Stephen Norrington. Fora isso, Blade é o filme anti-vampiros que mundo mereceu, ao qual podemos aplaudir a subversão histórica de o que facilmente poderia ser um Blaxploitation moderno, dando o importante primeiro passo para a dominação da banda desenhada no cinema.

Nota Final: 3.5/5