9 de janeiro de 2019

Escape Room (2019)


Vindo directamente da saga “coisas modernas que tinham que ser ficção”, eis que o conceito de ficar fechado numa sala a resolver puzzles tem direito à sua própria obra, com Escape Room, um filme realizado por Adam Robitel.

Um grupo de seis estranhos se encontram num edifício isolado para jogarem um jogo, com a recompensa vencedora de 100 mil dólares, mas rapidamente descobrem que estão a jogar pela própria sobrevivência, com todas as probabilidades contra eles.


Nesta amostra de personagens, que parecem ter algo em comum, reparamos que sofrem dum forte trauma individual que, de alguma forma, lhes marcou a vida, dando-lhes as ferramentas e os instintos que precisam para sobreviverem. Infelizmente estas não têm grande profundidade, e limitam-se a ser bidimensionais, e bastante cliché.

Desde Danny (Nik Dodani), o especialista em escape rooms, a Amanda (Deborah Ann Woll), uma ex-militar com algumas habilidades úteis, passando por Zoey (Taylor Russell), a intelectual e Ben (Logan Miller), o degenerado que abandonou a escola, existe uma relação extremamente disfuncional entre estas pessoas, deixando para trás qualquer investimento que queiramos lhes dar. Basicamente não existe grande espaço de manobra quando tudo está a ser explicado em cima do momento.


Com alguma facilidade, vamos ficando com a sensação que estamos perante uma nova versão de Saw – Enigma Mortal, onde os jogos são dum risco entre a vida e a morte, fiando-se sempre nas coincidências felizes que ele próprio cria. O facto de praticamente tudo correr como esperado e não haver nenhuma linguagem imprópria, tende ser desconcertante, considerando as diversas situações onde as personagens se recusam agir como humanos normais.

A narrativa tem alguns momentos interessantes, sobretudo quando quer assustar, com o seu permanente sentido de urgência, e uma sensibilidade temporal que nem todos os filmes do género são capazes. Muitas das ideias estão bem pensadas, pelo menos conceptualmente, pecando apenas na execução dessas mesmas ideias, que acabam por ir longe demais na sua lógica, seja qual ela for.


Infelizmente, as trágicas notícias dos jovens que faleceram durante um jogo na Polónia que fazem as manchetes pelo mundo, não beneficiam Escape Room de forma nenhum. Tendo agora esse aspecto da vida real ocorrido, poderá ser difícil de processar para as mais pessoas mais susceptíveis.

Assim, Escape Room, quando se esforça, vai conseguindo ser entusiasmante de ver, sobretudo na forma em que as várias salas são pensadas, deixando-se levar pela necessidade em mostrar o quão perigosos são, mas acaba por perder muita da credibilidade a que tanto apela. Ainda assim, já se ouvem notícias de possíveis sequelas, por isso duvido que seja a última vez que estaremos a enfrentar os perigos à porta fechada!

Nota Final: 2.5/5 (originalmente 5/10)

• • •

Originalmente publicado em Central Comics a 9 de Janeiro de 2019.

All About Nina (2018)


Mary Elizabeth Winstead não tem tido o reconhecimento devido, sendo uma das actrizes mais secretamente talentosas em Hollywood, passando frequentemente de despercebida pelo grande público. A actriz sempre foi bem recebida por aqueles que viram o seu trabalho, mas é com a mais recente obra, All About Nina, que Winstead mostra as suas verdadeiras cores.

Nina Geld (Winstead) é uma comediante em Nova Iorque, cujo o seu talento no stand-up é infinitamente melhor que a forma que lida com a sua desastrosa vida pessoal. Tendo a oportunidade de ir para Los Angeles candidatar-se a uma audição que poderá mudar a sua vida, Nina inicia uma viagem de introspecção. onde pelo meio conhece Rafe (Common), um homem capaz de desafiar a sua percepção dos homens.


Há uma abordagem aberta e sincera que o argumento e a realização na estreia de Eva Vives nas longas-metragens. Somos convidados a conhecer uma pessoa com problemas graves na sua vida, como estar numa relação abusiva com um homem casado, que não deveriam converter a sua personalidade em alguém capaz de fazer uma vida a contar piadas. Sem Winstead, Nina jamais teria tido o mesmo impacto emocional, já que o alcance da felicidade à miséria, estão à mercê de apenas um mau pensamento. Prova disso é o monólogo final, onde Nina expõe a sua alma em carne viva, para todos a verem o seu sofrimento, numa situação que deveria ter sido a oposta.

Tendo em conta que em 2019 já vemos outras formas de procurar um parceiro amoroso, desde aplicações no smartphones, é refrescante vermos uma relação a ser criada organicamente, à base duma dose surpreendente de honestidade e sem qualquer tipo de pressão; algo que é capaz de nos cativar em ver o seu desfecho. É impossível não apreciarmos este lado humano de All About Nina, onde toda a fórmula de comédias-românticas é posta de lado para dar espaço a uma realidade que poderá ser comum, retratando a vida duma forma fácil de nos relacionarmos. duma forma ou doutra.


Assim, All About Nina é visto não só como uma das estreias mais interessantes do cinema actual, por parte de Vives, como também o filme onde vimos Mary Elizabeth Winstead como nunca a vimos antes, no que será certamente um papel para a vida, sendo possivelmente ser a única vez que veremos a actriz nestes modos, num ensaio onde a sinceridade genuína está em cima de todos os outros sentimentos. 

Nota Final: 4/5

6 de janeiro de 2019

The Taking of Deborah Logan | A Possessão (2014)


Numa altura em que o sub-género do found footage estava mais que dominado por filmes como Actividade Paranormal e as obras inspiradas no desejo de dar ao espectador um shot de adrenalina imediata e eficaz, eis que Adam Robitel inicia a sua carreira na realização com A Possessão, num filme produzido por Bryan Singer.

Mia (Michelle Ang), Gavin (Brett Gentile) e Luis (Jeremy DeCarlos) são três estudantes que decidem documentar a vida de Deborah Logan (Jill Larson), uma idosa a sofrer de Alzheimer, e a sua filha, Sarah (Anne Ramsay) que rapidamente descobrem que a doença da sua mãe é muito mais do que aparenta ser.


A ideia da abordagem de documentário para dar uma impressão que isto é um pedaço da vida real de alguém acaba por perder muito interesse quando durante uma boa parte do filme, este tenta convencer-nos que nada de sobrenatural se passa, para acabar por aceitar que as coisas são realmente bizarras, dobrando os seus esforços em tornar tudo assustador. Nem sempre faz sucesso, muitas vezes tirando páginas doutros filmes do género, como e espanhol [REC] ou o clássico O Projecto Blair Witch, não mostrando nada de novo.

Ainda na mesma onda, agarrar no conceito duma doença degenerativa, como é o caso do Alzheimer, e torná-la em algo sobrenatural, por vezes deixa ser difícil de acreditar, sendo que o filme frequentemente tenta justificar-se com alguma lógica e senso comum que não combinam directamente. É necessário haver uma suspensão de crenças para apreciarmos melhor A Possessão, com o filme a ficar mais interessante a partir do momento em que introduz toda a temática do ritual demoníaco.


As sucessivas tácticas de susto, desde dos vários jump scares, prontos para nos assustarem quando mais esperamos, ao incomodar a equipa de filmagem com um quadro de campainhas, que curiosamente já não funcionavam há anos; muito disto poderá ser considerado jogar pelo seguro. No entanto, são vários os momentos de body horror, com peles escamadas, uma boa dose de gore e um imaginário violento, que acabam por ser bastante cativantes, aparecendo, infelizmente, muito tarde no filme.

Ao acompanharmos Deborah durante pouco mais de 2 meses, chegamos à conclusão que muitos destes cenários aparentam ser à base de coincidências infelizes, e timings terríveis, com as consequências a não terem um impacto tão grande quanto o filme gostaria que tivesse. 


Se por um lado, temos um filme que acorda mais tarde do que deveria para proporcionar um filme interessante, pelo outro esse interesse é suportado por variações melhor pensadas de clichés tradicionais dos filmes de found footage, chegamos à conclusão que as ideias em A Possessão são bastante boas. Apenas foram executadas duma forma menos imediata e esse é o maior pecado deste filme. Fora isso, não existem grandes queixas, senão apelar que aturem os primeiros 20 minutos do filme, que é quando ele finalmente encontra o seu lugar, e daí, apreciar aquilo que realmente tem de valor.

Nota Final: 3.5/5

2 de janeiro de 2019

The Kindergarten Teacher | A Educadora de Infância (2018)


Somos constantemente confrontados que as crianças são o nosso futuro e devemos prestar atenção aos seus talentos, na possibilidade de a nossa ser um espécimen raro com algo inigualável. É com base nesta ideia que Sara Colangelo fez o remake norte-americano do filme israelita com o mesmo nome, A Educadora de Infância.

Lisa (Maggie Gyllenhaal) é uma educadora de infância preocupada com os seus alunos e insatisfeita com alguns aspectos da sua vida monótona, com o amor pelo seu marido a ficar sem chama e com os seus filhos mais crescidos a ignorarem quase por completo. Lisa também assiste a aulas de poesia, dadas por Simon (Gael García Bernal), o qual os seus colegas de turma creem que os seus poemas não são nada especiais.


Como todos os milagres, Lisa percebe que um dos seus alunos, Jimmy (Parker Sevak) recita em voz alta um dos poemas mais bonitos que ela já ouviu, e ela apropria-se do texto dele para apresentar nas suas aulas de poesia. Lisa começa assim a criar uma obsessão por Jimmy e o pelo seu talento, chegando a ter actos menos correctos.

Não existe um grande sentimento de culpa da forma como Lisa literalmente rouba a arte do pequeno Jimmy, desenvolvendo uma relação muito pessoal com ele, ao ponto de meter o número dela no telefone dele sob apenas a letra L para garantir que ele lhe diga sempre quando tem um poema em mente. Ainda que feita duma forma muito discreta, Lisa faz um abuso emocional que naturalmente abre portas a consequências que não sabemos bem como irá lidar, tudo em busca de fazer uma conexão com alguém que compreende a sua paixão.


Mas há sempre dois lados da história: Jimmy é algo negligenciado pelo pai, que apesar de estar presente na sua vida, prefere que ele tome outros rumos na sua futura carreira, mais práticos e com maiores recompensas financeiras, reforçando a ideia que a arte não poderá dar a vida que ele quer para o seu filho. A relação acaba por ser mais complexa, pois Lisa, devagarinho, torna-se numa perseguidora que acaba por cometer erros dos quais não tem inteiramente a noção daquilo que lhe poderá acontecer.

Se por um lado Sara Colangelo faz um belíssimo trabalho a adaptar o filme original para um ambiente novo, Maggie Gyllenhaal é no fundo a mãe preocupada que nós todos queríamos de ter, mostrando aqui que é um dos maiores papéis da sua carreira.

Existe uma narrativa coesa e algo cativante, mas o filme, por vezes, deixa-se perder em alguns detalhes que tentam criar um benefício da dúvida em relação às intenções de Lisa, acabando no fim por retomar o que todos suspeitávamos.


A Educadora de Infância é uma obra com algum interesse que vale a pena explorar, sobretudo não sendo ele um drama típico ou previsível, pecando apenas na perda do foco por breves ocasiões, mas compensado depois pela incrível força maternal que é Maggie Gyllenhaal, e com o seu grande desempenho.

Nota Final: 3.5/5 (originalmente 7/10)

• • •

Originalmente publicado em Central Comics a 2 de Janeiro de 2019.

29 de dezembro de 2018

Skate Kitchen (2018)


Quando Crystal Moselle quis abordar o cinema de outra forma, depois de ter feito o bem-recebido documentário The Wolfpack, a mesma encontrou a inspiração necessária quando realizou a curta-metragem The One Day para a marca de roupa Miu Miu, com um grupo feminino de skate, The Skate Kitchen. A combinação das duas forças motivaram Moselle a realizar o seu primeiro filme com uma narrativa preparada, mas a sua experiência prévia provou que Skate Kitchen iria ser um filme mais próximo de si.

Acompanhamos a vida de Camille (Rachelle Vinberg), uma skater introvertida que vai até Nova Iorque onde conhece um grupo de raparigas skaters, fazendo uma amizade próxima com elas. As suas decisões de vida infelizmente trazem-lhe transtornos, entre discussões com a sua mãe e uma paixoneta por Devon (Jaden Smith), um rapaz que conheceu no parque de skate.


É dum feito incrível a naturalidade que Moselle dá a Skate Kitchen, onde podemos apanhar um bocadinho do que é certamente o dia-a-dia para este grupo unido de raparigas, com o filme a esquecer-se com muita frequência que é uma ficção e aventurando-se pelo pseudo-documentário. Não podemos neste caso considerar isso um defeito, pelo contrário, é a química orgânica entre as diversas personagens e o seu talento de andar em cima dum skate que dá um nível de autenticidade que muitos poucos filmes do género são capazes.

Enquanto que a mensagem de amizade num ambiente rebelde é retratado de forma casual, existe uma leveza em ouvir um grupo de raparigas falar sobre as coisas normais da adolescência, como o período, o sexo e a busca da identidade própria, temas que tendem ter algum tipo de estigma associado, noutros contextos. É quase poético estarmos no banco de trás a assistir à vida de Camille e como ela e todas as personagens reagem entre elas neste mundo do skate, que nos sentimos que estamos exactamente onde Moselle nos quer, a respirar a adolescência moderna, capaz de fugir dos problemas dos adultos sobre uma prancha com quatro rodas.


Por outro lado, as coisas ficam menos positivas a partir do momento em que o foco muda para a inclusão dos rapazes e mais tarde na Camille e a sua relação com Devon, acabando por cair no erro de ser tornar ligeiramente banal, ainda que queira explorar o aspecto do amor jovem. É curioso como o tom muda drasticamente a partir do momento em que os rapazes têm um destaque maior e como de repente uma história sobre girl-power se torna desinteressante por causa disso.

Assim, Skate Kitchen vai de encontro em ser um pouco mais que apenas um coming-of-age tradicional, optando por preferir retratar num contexto narrativo a vida (quase) real das verdadeiras skaters que em muito pouco tempo ganharam a atenção do mundo. Crystal Moselle tem um enorme potencial e um método que pode não funcionar noutros enredos, mas com a oportunidade certa, a realizadora é capaz de contar algo tanto memorável.

Nota Final: 3.5/5