28 de fevereiro de 2021

The Kid Detective | O Miúdo Detective (2020)


Numa altura em que aparenta ser necessário renovar as ideias de velhos géneros, oferecendo-lhes algo de novo em troca de algum tipo de inovação, eis que aparece O Miúdo Detective, uma espécie de filme-noir, com uma narrativa tirada das páginas das velhas revistas para rapazes; numa obra escrita e realizada por Evan Morgan.

Abe Appebaum (Adam Brody) é um detective privado desde criança, resolvendo diversos crimes, mais ou menos bizarros mas localmente aceitáveis, como o roubo de uma cápsula temporal de um jardim, à caixa-forte da quermesse escolar. As coisas tomaram um menos mais obscuro quando Abe é incapaz de resolver o desaparecimento da sua amiga de infância Gracie, abatendo a confiança nas suas habilidades naturais. Agora com 32 anos, Abe conhece Caroline (Sophie Nélisse), uma rapariga que recorre ao detective privado, para lhe ajudar a resolver o homicídio do seu namorado Patrick.


No que se segue é uma investigação que pode ir parar literalmente a qualquer lado, enquanto é feita uma introspecção pessoal dos valores de Abe e naquilo que se tornou. Antes um detective celebrado, agora Abe é um homem perdido numa vida sem planos nem direcção, à espera de melhores dias e muito da sua esperança prende-se na forma em como este caso será desenvolvido, com reviravoltas bastante estranhas de processar.

Juntando alguns dos elementos dos clássicos noir, é notória a falta de fidelidade em como presta homenagem daquilo de que se inspira, atirando para lá vários momentos cómicos hilariantes, com um humor seco mas muito honesto nos sentimentos que transparece; traçando paralelismos com a reputação de Sherlock Holmes ou Poirot. Felizmente, é na sua estranheza que O Miúdo Detective encontra a sua verdadeira personalidade, onde Morgan não receia em deixar que a narrativa impeça de ir pelos caminhos mais cliché, subvertendo muitos desse pontos.


A contribuir muito para isso está Brody, um actor que muitos viram crescer no pequeno e no grande ecrã, desde papeis mais cómicos em Gilmore Girls e O.C. - Na Terra Dos Ricos a outros mais ousados, como em O Corpo de Jennifer ou no mais recente Uma Miúda com Potencial; encontrando-se aqui num dos papéis que deverá estar mais orgulhoso e ser relembrado pelo público, de tão fascinante que é.

Assim, O Miúdo Detective mostra-nos um lado muito diferente do que é expectável de um mistério, com uma abordagem pouco usual mas assumidamente curiosa e divertida, sem qualquer tipo de remorsos.

Nota Final: 8/10

6 de fevereiro de 2021

Malcolm & Marie (2021)


Euphoria foi uma das grandes surpresas de 2019, uma série criada por Sam Levinson, mostrando um pedaço da vida mais íntima dos adolescentes, repleto de sexo, drogas e egos.

Com uma segunda temporada muito aguardada, a pandemia não permitiu que as gravações fossem para à frente, tendo sido gravados dois episódios especiais focado em duas das personagens. Mas Levinson tinha outro projecto em mente, um combinado com Zendaya e John David Washington, este último sem saber exactamente o que fazer após o protagonismo em Tenet. Escrito em seis dias e gravado em cerca de duas semanas em 35mm a preto e branco, Malcolm & Marie chega à Netflix.


Depois da estreia do seu último filme, Malcolm (Washington) e Marie (Zendaya) regressam a casa, celebrando o feito. Mas quando vem ao de cima que Malcolm se esqueceu de agradecer à sua amada, inicia-se uma discussão de proporções épicas, reflectindo no conceito de cinema, inspiração, e o significado do amor.

Só o facto de estar a escrever uma crítica deste filme deixa-me pessoalmente em dúvida; existindo uma forte crítica vinda de Malcolm, queixando-se que a eterna busca de um significado não intencional nas obras dos seus criadores deixam-no zangado. É um sentimento expresso frequentemente, sendo um catalisador.

A forma que a narrativa está construída e encarada, de uma forma teatral, cruzado com os muitos enquadramentos pessoais destas duas personagens, são uma demonstração do núcleo do ser humano; neste caso entre duas pessoas que, acima de tudo, se amam. Como qualquer relação que valha, está repleta de altos e baixos, com muito amor e muito ódio. Não entre eles como pessoas, mas como a versões deles próprios naquele momento; ao qual a banda sonora garante não deixar nada por dizer, às vezes escalando a gravidade da discussão.


Para um filme baseado em duas pessoas e os seus sentimentos, as coisas podem ser muito bonitas, como incrivelmente feias. enquanto conhecemos um pouco das suas vidas e as suas guerras pessoais, sem conter qualquer tipo de intensidade, que ocasionalmente acertam como socos na barriga. Mas também está cheio de momentos de riso constante, seja do reconhecimento de referências do mundo real; que quando ditas em voz alta, soam altamente absurdas. Os diálogos também sabem ser dolorosos, ao ponto de sentirmos uma emoção muito série de ódio no seu discurso.

Numa nota mais pessoal, Malcolm e Marie somos, de alguma forma, nós ali encarados. Os nossos problemas, as nossas reacções, nem sempre racionais, perante a injustiça que achamos que o mundo nos criou. Não havia dupla mais relevante que Zendaya e John David Washington, ambos talentos emergentes, que possa ter feito melhor trabalho. Estes são, como picardia do filme, uma tour-de-force imparável. Possivelmente.

Nota Final: 4/5 (originalmente 8/10)

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Originalmente publicado em Central Comics a 6 de Fevereiro de 2021.

31 de janeiro de 2021

The Little Things | As Pequenas Coisas (2021)


Os thrillers do anos '90 tinham o seu próprio sabor, divididos em categorias correspondentes aos níveis de adrenalina que continham, porque por cada Speed - Perigo a Alta Velocidade e Assalto ao Aeroporto, havia um Seven - 7 Pecados Mortais ou um Silêncio dos Inocentes. A nostalgia bateu à porta de John Lee Hancock, que depois do aclamado sucesso de Um Sonho Possível, seguiu um novo caminho com Emboscada Final na Netflix, prosseguindo até ao seu mais recente filme, As Pequenas Coisas, um projecto que o realizador e argumentista tem consigo desde 1993.

Joe 'Deke' Deacon (Denzel Washington), um deputado do departamento de xerifes de Kern Country vê o seu regresso a Los Angeles disputado quando vê um antigo caso ainda a ser investigado, agora por Jim Baxter (Rami Malek), um jovem detective responsável por trazer o assassino em série à justiça. À medida que vão investigado o caso, encontram um suspeito caricato, na forma de Albert Sparma (Jared Leto), que age como o culpado mas que são incapazes de o provar.


É impossível ficar indiferente ao trio principal do elenco, este composto por vencedores de Óscares e que representam a diversidade das gerações que representam. É verdadeiramente entusiasmante ver Malek num frente-a-frente com Leto, e o veterano Washington a vigiar de perto esta mutação moderna, enquanto contribui os seus talentos habituais. 

Estamos perante um filme que não poupou nos detalhes da era de '90, alguns mais interessantes que outros, desde da banda sonora, ao décor dos cenários, onde podemos ver um cartaz clássico dos No Doubt no inicio da sua carreira, a um poster de Os Rapazes da Noite, a um máquina de Mortal Kombat num mercado. Isto, aliado a uma atmosfera relativamente pesada, é capaz de recriar uma parte mais contida de Los Angeles, longe da loucura que conhecemos da cidade.


Enquanto que o desenrolar da narrativa ocorre de forma lenta e calma, revelando as suas cartas sem grandes pressões, a tensão que é construída não justifica a forma que história está a ser contada; frequentemente caindo nos clichés do género, invés de optar por uma homenagem referencial. Passaram-se 20 anos desde da década em questão e muito do progresso feito no cinema - que poderiam beneficiar este filme - são ignorados, mantendo todo ele no passado.

Infelizmente, tudo isto cria uma obra maioritariamente insatisfatória, incapaz de capitalizar os seus dois primeiros actos relativamente sólidos, merecendo muito melhor e perdendo a oportunidade ser algo para além que está no lado menos entusiasmante do espectro nostálgico, esquecendo que quando David Fincher foi confrontado numa situação semelhante, pelo menos o resultado chegou em forma de Zodíaco.

Nota Final: 2.5/5

Synchronic | Sincrónico (2019)


Aaron Moorhead e Justin Benson são dois nomes com uma legião de seguidores e com razão. A dupla que na última década começou numa cabana solitária no meio da floresta, seguido por um conto de amor inspirado por H.P. Lovecraft e voltou à floresta para dar a conhecer um culto com uma ideia muito distinta do que veríamos até então; são os mesmos que produziram After Midnight, de Jeremy Gardner e Christian Stella, num filme de monstros que era sobre tudo excepto o monstro. Com um orçamento maior, a ambição de levarem as suas ideias a um novo patamar chegou na forma de Sincrónico.

Steve (Anthony Mackie) e Dennis (Jamie Dornan) são dois paramédicos numa Nova Orleães ainda em recuperação, quando durante os seus turnos, testemunham uma série de pessoas feridas ou mortas em circunstâncias estranhas e a presença constante de uma nova droga sintética, Sincrónico. Com Steve a descobrir que tem pouco tempo de vida, este decide investigar os efeitos desta droga potente e descobrir os seus efeitos, levando-o por caminhos que jamais pensaria chegar.


Não é de estranhar que este tenha sido o próximo passo de Moorhead e Benson, com todos os elementos de ficção científica a serem-nos presenteados de uma forma mais inovadora que outros que temos visto nos últimos anos, mostrando como estamos conectados com o universo e o nosso lugar nele, por mais pequeno que este seja. É neste amor visível por contar as histórias de género, e os seus esforços aplaudíveis. 

Ainda que por vezes o ambiente possa ficar algo pesado, tal como qualquer novo conceito que desafie a realidade como a conhecemos, a ciência neste caso é apenas um motivo para explorar o carácter das personagens presentes e como elas reagem às alterações do seu mundo, invés de focar inteiramente na mudança da mecânica do seu universo físico. Isto permite-nos estar mais próximos com Steve e Dennis, dois homens cujas vidas são tão diferentes, mas que preservam uma amizade genuína, enquanto exploram os mistérios da vida, da morte e tudo pelo meio.


Aproveitando um orçamento um pouco maior, mas mantendo todo o efeito indie. Moorhead e Benson tiveram a oportunidade de trabalhar com dois actores mais conhecidos e levá-los para um filme de género; enquanto, talvez, consigam dar mais atenção aos filmes incríveis que têm feito nas suas carreiras; uma parceria onde a realização de Benson oferece uma dinâmica única e a cinematografia de Moorhead dá cor e forma ás histórias que a dupla escreve.

Assim, Sincrónico marca como um dos melhores filmes do ano, com uma abordagem, que apesar da sua motivação cientifica, é principalmente pela sua perícia em dar-nos personagens tri-dimensionais num universo fora do comum que este se torna inesquecível. 

Nota Final: 5/5

28 de janeiro de 2021

Promising Young Woman | Uma Miúda com Potencial (2020)


O subgénero de rape-revenge sempre trouxe uma conotação justiceira com ele. Afinal, queremos sempre ver a vítima a ser vingada e os perpetradores a sofrerem as consequências dos seus actos heindiosos. Eis que entra em cena Emerald Fennell, que após ter entrado em The Crown, e escrito e produzido diversos episódios de Killing Eve, a sua estreia no cinema vem em forma de Uma Miúda com Potencial.

Cassie Thomas (Carey Mulligan) é uma trintona cuja missão de vida é fingir que está bêbeda, esperando que os homens aproveitem do seu estado frágil para cometer acções duvidosas. Mas assim que pisam a linha, Cassie revela o seu verdadeiro estado, possivelmente assustando-os para a vida. A sua motivação vem ao de cima com o reaparecimento de Ryan (Bo Burnham), um velho colega de faculdade. Com um plano de vingança em mente, Cassie decide encerrar este capítulo na sua vida com a derradeira resolução, onde ninguém está a salvo.


A raiz do evento que atormenta Cassie nunca é mostrada, pelo menos de forma gráfica. Nem necessita, é uma história que lemos com demasiada frequência na comunicação social e que assombra as mulheres. Neste caso, existe alguém capaz de seguir até ao fim a sua missão e fechar o ciclo, sem mercê.

Uma Miúda com Potencial sofre de uma espécie de problema de emoções mistas. Num momento este é engraçado e espirituoso, no seguinte, aparece como uma nuvem negra se tratasse, instaurando um medo muito real que nos arrepia. É no desequilibro caótico natural que o filme mais nos convence da sua versatilidade e forma de nos dizer que, aconteça o que acontecer, a vida é feita destes momentos.

Entretanto, é quando o filme está sério e focado que mostra as suas verdadeiras cores e com orgulho; é uma história fantástica que nos move. É por isso que quando vemos Cassie a actuar os seus planos, sentimos uma satisfação como nenhuma outra, com justiça a ser feita pelas suas próprias mãos. No entanto, o filme também tem alguns períodos de distracção que retiram algum do seu impulso, ainda que seja perfeitamente capaz de rapidamente voltar aos eixos.


Aliado à narrativa e à realização está um grande elenco, liderado por Mulligan, que toma rédeas como nunca antes visto, juntamente com Burnham; mas é nas aparições momentâneas de Allison Brie ou Alfred Molina que percebemos que estamos perante de algo cuja dimensão vai mais além do que tenhamos noção de forma surpreendente.

Ainda que não seja um filme inteiramente aterrador como o sucesso independente M.F.A. de Natalia Leite e de outros antes de si, onde a raiva se torna em violência e sangue, Uma Miúda com Potencial vai para aqueles cuja dor jamais nos esqueceremos e que assumiram a responsabilidade de fazer algo.

Nota Final: 8/10

13 de janeiro de 2021

Run | Corre! (2020)

Quando Aneesh Chaganty, em conjunto com o argumentista Sev Ohanian, ofereceram-nos em 2018 um dos thrillers mais interessantes do ano, com Pesquisa Obsessiva, era claro como o dia que a dupla tinha muitas mais cartas debaixo da manga. Dois anos mais tarde, eis que estreia Corre!, continuando o seu legado no cinema de terror.

Diane (Sarah Paulson) é a mãe protectora de Chloe (Kiera Allen, na sua estreia no cinema), uma jovem com diversos problemas médicos e que requer uma monitorização constante, inclusive sendo uma estudante em casa. Um dia, Chloe suspeita que a sua mãe lhe está a esconder algo sobre a sua medicação, que causa um grande problema familiar.

É com uma incrível construção de tensão que Chaganty articula com Paulson e Allen cenas genuinamente assustadoras, enquanto torcemos por Chloe na sua busca da verdade, enquanto Diane é a personificação máxima de o que é uma mãe galinha, onde nada lhe irá impedir de proteger a sua filha do mal.

Estamos perante uma obra que desde cedo nos intriga, ao lançar algumas pistas a demonstrar alguma da estranheza da vida de Chloe, desde da sua condição física, estando ela dependente de uma cadeira de rodas; à quantidade abismal de medicamentos que a mesma tem que tomar para as suas várias doenças, passando pelo facto de ela não ter um smartphone ou acesso permanente a um computador. Todos estes elementos são mostrados de forma casual, mas são capazes de incomodar o suficiente para que as suspeitas se levantam logo de inicio.

Considerando que passamos a maioria do tempo com Diane e Chloe, é de louvar a actuação de Sarah Paulson, que tem uma espécie de magnetismo para papéis como estes, onde recentemente vimos algo semelhante em Ratchet, uma das mais recentes séries da Netflix, e que aqui continua a sua loucura inerente. Do outro lado, está Kiera Allen, que está à frente da representação de actores com deficiências físicas, ao qual ela e Chaganty foram capazes de utilizar as circunstâncias para benefício da narrativa, e pelo meio, tornar Allen numa das grandes jovens promissoras do cinema independente.

Com isto, Corre! pode agarrar numa fórmula clássica, com uma margem de manobra muito reduzida e em troca, é capaz de combinar umas das melhores actrizes com facilidade de personificar a loucura e uma jovem promessa, num filme onde escapar, seja de que forma for, é a ordem do dia. Se Aneesh Chaganty e Sev Ohanian manterem esta parceria no futuro, é certo que terão muito para contribuir ao género

Nota Final: 3.5/5 (originalmente 7/10)

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Originalmente publicado em Central Comics a 13 de Janeiro de 2021.

3 de janeiro de 2021

Archenemy (2020)


Após quase duas décadas de filmes de super-heróis e pseudo-anti-heróis, pelo meio contámos com algumas adaptações de banda desenhada mais adultas, desde Watchmen - Os Guardiões, a V de Vingança, ou mais recentemente Officer Downe - O Filme; apelando a um público diferente. Foi neste sentido que após o sucesso de Daniel: Amizade Aterradora, Adam Egypt Mortimer escreveu e realizou Archenemy, produzido pela Spectrevision de Elijah Wood.

Max Fist (Joe Manganiello) é um herói doutra dimensão, que para prevenir a ruína de Chromium, teve que escapar através de um buraco negro, que transcende o tempo e o espaço, até cair no planeta Terra, onde não tem poderes. Quando Max conhece Hamster (Skylan Brooks), um jovem jornalista guerrilha disposto a ouvi-lo, os dois formam uma amizade, enquanto que Indigo (Zolee Griggs), irmã de Hamster, está envolvida com o mundo de traficantes de drogas, liderada por The Manager (Glenn Howerton).


O que se segue é hora e meia de um híbrido entre animação neon e um filme de acção de série-B, onde Mangianiello está à frente ao centro da sua redenção, perseguido pelas aventuras que lhe atormentam e do seu arqui-inimigo, na forma de Cleo (Amy Seimetz). Ainda que dois terços do filme rondam a vida de Max e a sua vinda até ao planeta Terra, há um certo charme na sua atitude, que o torna minimamente interessante, demonstrando o talento de Mangianiello como protagonista e possível herói de acção, podendo ser algo reconhecido para além do seu trabalho em True Blood, Magic Mike e Deathstroke na nova versão de Liga da Justiça. Por outro lado, são excelentes sidekicks, mas a maioria do seu potencial é inexplorada. Mesmo os ditos vilões deste filme são incapazes de se fazerem destacar que os outros demais, optando pelo jogo seguro.

O que Archenemy tem de positivo é na forma nua e crua como assume o seu DNA, mesmo com todas as suas falhas, por mais bizarro que alguns dos seus conceitos possam ser, ao qual teria sido bom ver mais momentos da animação e passado mais tempo a conhecer Chromium e a vida de Max por lá, invés da sua miséria no nosso planeta, com uma narrativa reduzida a pouco mais que um filme de acção tradicional.


Com isto, Archenemy é mais um passo interessante na carreira de Adam Egypt Mortimer e a sua colaboração com a Spectrevision, que tem trazido algumas propostas que valem a pena estar atentos. Dividido entre inovar com os seus conceitos mais cientifico e fiar-se na brutalidade da acção, a sua hesitação traduz-se num filme mediano, mas decente o suficiente para entreter.

Nota Final: 3/5

2 de janeiro de 2021

Fatman | Missão Vingança (2020)

O Natal sempre foi uma época estranha para o cinema de acção. Afinal, as eternas discussões sobre se Assalto ao Arranha-Céus é, ou não, um filme festivo; ou se Shane Black tem uma panca por esta altura do ano, tendem dominar as festas com aqueles amigos mais cinéfilos. Acontece que a dulpa de realizadores e argumentistas Eshom e Ian Nelms têm outros planos para celebrar o Natal, com Missão Vingança, uma tradução bizarra do título original, Fatman.

Chris (Mel Gibson) é, sem sombra de dúvida, o Pai Natal, cujo trabalho anual envolve gerir toda uma operação logística com a sua mulher, Ruth (Marianne Jean-Baptiste) e entregar prendas no sapatinho às crianças boas e pedras de carvão às crianças menos boas. Infelizmente, o pequeno gangster Billy Wenan (Chance Hurstfield), não achou muita piada à prenda que tinha tanto de original como de utilidade para uma criança e decide recorrer aos serviços de Skinny Man (Walton Goggins), um assasino contratado, para matar Chris.

Se em papel isto tudo soa a uma ideia relativamente interessante, é porque de facto o contexto do qual motiva toda esta narrativa quase roça o génio, sobretudo num mundo repleto de crianças mimadas, produtos de hereditária e meio ambiente, naquilo que chamamos vida real. Seja como for, a experiência proporcionada tinha tudo para dar certo, até poder surpreender na sua abordagem. No entanto, o que fica, é apenas um filme de série-B algo sólido na execução.

A ideia de manter a piada dentro de um universo realista é talvez um dos pontos mais imperativos que Missão Vingança tem, jamais caindo inteiramente na paródia de si mesmo, algo que seria muito fácil de fazer. Invés disso, existe um verdadeiro filme de acção onde as circunstâncias atenuantes das suas personagens principais, quase só servem de pano de fundo, mas que são aproveitadas para oferecer um factor diferenciador dentro do género; tudo sem ser estúpido ou levar-se demasiado a sério.

Enquanto que o seu pouco charme pode pôr o filme de lado como O filme de Natal para se ver todos os anos, a verdade é que pais por todo o mundo estarão certamente contentes por finalmente terem um herói da qual podem admirar. Mesmo que esse herói em tempos possa ter dito e feito algumas coisas condenáveis em Hollywood e que está desde então em busca de redenção. Mas essa conversa, creio eu mencionada anteriormente em Na Sombra da Lei, terá que fica novamente para outra altura.

Assim, Missão Vingança não ficará marcado como um clássico, mas ganha por ser um filme minimamente divertido, nas partes que realmente contam.

Nota Final: 3/5 (originalmente 6/10)

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Originalmente publicado em Central Comics a 2 de Janeiro de 2021.

30 de dezembro de 2020

Love and Monsters (2020)


Quando em 2010, a série The Walking Dead mudou a forma como o cinema e a televisão abordaram os zombies, o seu rescaldo ainda é um que está a ser fortemente sentido e difícil de livrar na última década, muito devido à saturação do género. Da mesma forma que Sangue Quente fez o seu sucesso na sua comédia a roçar na paródia, Love and Monsters, realizado por Michael Matthews, vem para desanuviar dos panoramas pós-apocalípticos.

Quando um asteróide em direcção à Terra é destruído, as consequências dos misseis utilizados condenaram os nossos habitantes, quando a chuva química provocou que todos os animais selvagens sofressem uma mutação, tornando-os em monstros gigantes. Acompanhamos Joel (Dylan O'Brien), um jovem que vive numa colónia, protegido pelo grupo que lhe acolheu durante estes incidentes, mas separado há sete anos da sua namorada Aimee (Jessica Henwick). Nisto, Joel decide embarcar na aventura da sua vida, ao viajar 85 milhas até à colónia de Aimee, onde a morte está à espreita.


Este é possivelmente um dos melhores papéis de Dylan O'Brien desde Teen Wolf, num ambiente onde o actor é capaz de balancear perfeitamente o seu charme casual e cómico, ao mesmo tempo que é capaz de manter uma boa postura durante toda a acção e aventura, trazendo o melhor dos dois mundos dele; ao qual se junta Boy, um cão muito simpático, da qual criam uma ligação muito forte e que dá outro impacto a este filme.

O argumento, escrito por Brian Duffield (The Babysitter) e Matthew Robinson (Dora e a Cidade Perdida), demonstram ser o par perfeito para criarem um universo o sentido de aventura e o sentido de humor estão equilibrados, ao qual é importante destacar que a narrativa é um excelente exemplo da estrutura clássica da chamada "Jornada do Herói", podendo ver aqui um crescimento claro da personagem principal.


Se não existe maior motivação que o amor, por outro lado, os monstros jogam ao mesmo nível, sentido cada confrontação como uma batalha de grande importância, capaz de ameaçar a vida e o rumo da história, onde vemos Joel a aprender e aplicar as suas capacidades com cada uma que tem que ultrapassar

Assim, Love and Monsters é uma comédia aventureira, a levar a vida com alguma levidade, onde a acção intensa e os risos calorosos oferecem espaço para respirar e, acima de tudo, divertir; enquanto aborda a sua narrativa de uma forma sólida, numa viagem autêntica em vermos um zero a tornar-se no derradeiro herói.

No meio disto tudo, ainda é capaz de ser mais interessante do que a adaptação de Monster Hunter...

Nota Final: 4/5

28 de dezembro de 2020

Shithouse (2020)


Fazer um filme não é uma tarefa fácil, ainda mais expor uma história que é intensamente pessoal e traduzir isso em algo que sequer se assemelhe a algo próximo de cinema. Mas, de alguma forma, Cooper Raiff atirou-se cegamente ao desafio ao escrever, realizar e protagonizar a sua primeira longa-metragem, Shithouse.

Alex (Raiff) é um estudante numa universidade, sentido-se sozinho e afastado de tudo e de todos durante o seu tempo por lá. Uma noite, ele conhece Maggie (Dylan Gelula), uma residente assistente na residência universitária que teve um dia péssimo e lhe convida para passarem tempo juntos. 


Mais que tudo, Shithouse é a representação de todos os introvertidos e outros afins, incapazes de fazer conexões activamente pela faculdade, sobretudo se for um ambiente totalmente novo. Existem milhares de Alex pelo mundo no mesmo caso, abrido desde já o jogo perante o tipo de vida que o jovem vive diariamente. O elemento de novidade, em forma de uma rapariga bela, que acaba por surgir um pouco do nada, é uma demonstração em como a vida não-planeada, composta por momentos espontâneos, acabam por ser aqueles que nos fazem sentir mais felizes. 

A direcção de fotografia de Rachel Klein, mostra toda a experiência de uma relação universitária na sua forma mais verdadeira e genuína, intimista e que expõe os medos de qualquer relação, entre duas pessoas que inesperadamente se encontraram. É um amor como muitos, onde Cooper Raiff explora de forma coerente a simplicidade aparente da sua premissa, que podemos admirar como um exemplo de como as coisas acontecem por alguma razão.


Ainda que por vezes caia nas trupes do costume, levadas a cabo pelas comédias românticas da geração actual, é todo o texto de diálogos que faz com que Shithouse se destaque dos outros demais, onde cada frase marca a narrativa, junto com uma pitada de comédia, onde não falta sequer uma referência a De Repente, Já nos 30!

Com isto, Shithouse é uma obra onde vemos Cooper Raiff a revelar-se como uma dos grandes estreantes do ano, num filme que grita alto para todos aqueles que estão apenas a tentar viver, à procura daquela experiência única que lhes irá mudar para sempre as suas vidas. Jamais ousando seguir por clichés, por vezes a perspectiva da vida real é mais que suficiente para contar uma história que vem de um lugar próximo, onde conseguimos ver Raiff e Gelula de alma e coração cheio.

Nota Final: 4/5

The Cleansing Hour (2020)


Quando em 2016 a dupla Damien LeVeck e Aaron Horwitz impressionaram os fãs do cinema de terror com a sua curta homónima, integrante do programa de curtas do site da especialidade Bloody Disgusting, foi muito fácil ver que aquela história tinha muito mais para contar. Demorou cerca de três anos até que The Cleansing Hour chegasse agora numa longa-metragem, onde a espera parece ter valido muito a pena.

Father Max (Ryan Guzman) é um "padre" que fazer "exorcismos" ao vivo via as suas livestreams, com uma legião de seguidores muito fiel e fanáticos pela sua missão religiosa. Afinal, Max está a salvar pessoas dos seus demónios; mas na verdade não passa de uma fraude narcisista em busca de fama, com uma plataforma que não passa a nada mais que mero entretenimento, criado juntamente com o seu melhor amigo Drew (Kyle Gallner). A certo dia, o que era suposto ser apenas mais uma transmissão torna-se no pior pesadelo de qualquer um, quando a "vítima" é Lane (Alix Angelis), namorada de Drew, que é possuída por um verdadeiro demónio, testando ao limite o seu espectáculo.


O que poderia ser apenas mais um filme com exorcismos, nada podia preparar-nos para o que vinha, tomando de assalto qualquer preconceito que tenhamos com este sub-género de filmes, onde o demónio é verdadeiramente assustador e, através de uma multitude de truques na manga, mostram muito bem a forma que LeVeck e Horwitz expandiram a sua curta-metragem para um dos melhores filmes do ano.

Max tem uma hora para mostrar aquilo do que é realmente feito, à mercê de um demónio que está disposto fazer refém uma rapariga inocente, sem escrúpulos ou medo, numa obra repleta de diálogos intensos e onde o terror chega-nos debaixo da pele. Até a abordagem da exploração do tópico das redes sociais, que frequentemente não passam da futilidade do que realmente são, é em The Cleansing Hour utilizado para causar dor e sofrimento ao impostor.

Mesmo quando o filme envereda por outros caminhos, estes mais dentro da investigação, que se assemelham ao melhor episódio de Caçadores de Demónios de sempre, este é capaz tornar todos os elementos em verdadeiros momentos de um sonho muito mau, sem o mínimo de esforço.


Ainda que por vezes os efeitos especiais parecem estranhos, não é suficiente para arruinar a experiência, sobretudo com um elenco que cumpre e bem os seus papéis; mas é Alix Angelis quem leva o prémio pelo desempenho multi-facetado e aterrador.

Com isto, The Cleansing Hour é um dos melhores exemplos em como tornar um conceito provado em algo que vai muito para além das expectativas, virando ao contrário todos os clichés esperados deste tipo de filme, provando que com alguma originalidade é possível surpreender e deixar-nos com um medo muito verdadeiro.

Nota Final: 5/5

Spontaneous (2020)


Brian Duffield é talvez um dos argumentistas do qual deveremos prestar muita atenção nos próximos anos, tendo escrito The Babysitter e a sua sequela para a Netflix. Desta vez, o mesmo estreia-se na cadeira de realizador com Spontaneous, levando mais uma vez um misto de terror com comédia, de uma forma que apenas ele sabe fazer; inspirando-se num livro de Aaron Starmer.

Mara (Katherine Langford) é uma estudante do liceu que não sabe bem como quer continuar a sua vida, mas vê-se forçada a mudar de perspectiva quando os seus colegas de turma começam a explodir espontâneamente, sem qualquer explicação. Aterrorizada, ela e a sua amiga Tess (Hayley Law), começam a lidar com o fenómeno estranho, onde pelo meio Mara encontra o amor com Dylan (Charlie Plummer), que perante os eventos, decidiu arriscar em exprimir os seus sentimentos.


Na verdade, Spontaneous nunca se contém quando quer ser horrífico, com baldes de sangue a serem explodidos sem meias-medidas, onde a sua natureza obscura é coberta por diálogos repletos de comédia negra, que apesar que não serem politicamente correctos, têm uma tendência de serem hilariantes; pelo menos durante toda a situação, da mesma forma que as coisas podem ficar muito assustadoras, com fluidos corporais e bocados de carne humana por todo o lado!

No entanto, pelo meio está uma belíssima história de amor adolescente, que frente à tragédia, são motivados a aproveitarem cada momento ao máximo, onde piadas sarcásticas são expressões amorosas, que na verdade apenas servem de cobertura para sentimentos de medo e solidão, num equilíbrio natural. Mesmo durante uma altura mais conflituosa, onde o riso parece não conseguir superar os sentimentos de negatividade, Spontaneous consegue manter o seu espírito vivo e contagiar-nos com a esperança que tudo se vai resolver, duma forma ou doutra.


Se por um lado a dupla de Langford e Plummer fazem um par perfeito, é com o argumento e realização de Duffield que o filme é elevado a um estado novo, onde literalmente tudo pode acontecer; e quando acontece, é capaz de nos deixar a rir ou inundar os nossos pensamentos com tristeza, gerindo incrivelmente bem a inteligência emocional que quer passar.

Assim, Spontaneous é uma das grandes surpresas de 2020, demonstrando-se como um esforço genuíno em mostrar que no meio de tanto medo e incerteza, é possível encontrar alguma luz e esperar que tudo corra pelo melhor; e se for preciso rirmos um pouco para não chorar, tanto melhor.

Nota Final: 4/5

23 de dezembro de 2020

No Escape (Follow Me) | #SemSaída (2020)

Vindo da eterna saga do cinema de terror pós-moderno, onde a Internet e as redes sociais têm que, de alguma forma, ser o centro da tecnologia utilizada para causar medo, vem #SemSaída (com hashtag incluído e tudo), escrito e realizado por Will Wernick.

O filme conta a história de Cole (Keegan Allen), um pseudo-YouTuber que irá celebrar o seu 10º aniversário de carreira com uma surpresa numa viagem que o leva até à Rússia. Com ele está os seus amigos Erin (Holland Roden), Dash (George Janko), Thomas (Denzel Whitaker) e Sam (Siya), que o levam até um escape room, o que esperam ser uma das experiências mais únicas de sempre, uma promessa que Cole nunca irá esquecer.


Ignorando o facto que Wernick realizou um filme sobre um escape room em 2017 - titulado Escape Room e não confundir com o Escape Room de 2019, este realizado por Adam Robitel - é de estranhar que volte a bater na mesma tecla, num ambiente demasiado semelhante para ser coincidência. Ou afinal, Wernick está numa missão de adaptar para cinema as inúmeras experiências proporcionadas pelos escape rooms do mundo. Mas muito disto não bate certo.

A dada altura, um dos grunhos russos diz aos nossos amigos "por mais verdadeiro que possa parecer, vocês estão em segurança", como se uma frase tão dramática não fizesse soar alarmes na cabeça de qualquer um. Levando isto e junta-se uma ingenuidade estúpida, quase estereotipada, de um certo tipo de YouTuber que tanto amamos odiar; e, na verdade, Cole é mesmo muito estúpido. Ou pelo menos assim o aparenta, pela forma que navega pelos puzzles mortais.

Mesmo quando o filme tenta impressionar com as suas reviravoltas óbvias, o facto de nem sequer se esforçar a fazer algo minimamente original é desapontante, ao ponto de quase gritar "plágio" a cada 5 minutos.

SAW e Hostel ficariam muito tristes ao verem o que as suas obras acabaram por inspirar, com #SemSaída a roubar descaradamente do mesmo género de filmes que deseja homenagear ou sequer mostrar influência. Até SAW, que acabou por criar todo um universo de sequelas, descaindo para um contexto nonsense do cinema comercial, mantém a sua integridade com a sua coerência e capacidade de reconhecer que não basta só fazer número. De alguma forma, nem a Blumhouse tocaria neste filme, nem com um pau de 5 metros.

E nós já vimos a Blumhouse a fazer coisas muito más. Minimamente toleráveis. Mas más...

Nota Final: 0.5/5 (originalmente 1/10)

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Originalmente publicado em Central Comics a 23 de Dezembro de 2020.

9 de dezembro de 2020

Jiu Jitsu (2020)


Em 2017, Dimitri Logothetis, realizador conhecido pelos seus filmes Kickboxer; juntamente com Jim McGrath, lançaram a novela gráfica que representasse a sua carta de amor perante as artes marciais que tanto amam. Bastaram três anos até que uma adaptação cinematográfica de Jiu Jitsu, liderada pela mesma dupla, chegasse ao grande ecrã.

Quando Jake (Alain Moussi), um guerreiro com amnésia regressa ao seu ponto de partida para lutar contra um poderoso alienígena, Brax (Ryan Tarran), este terá que contar com o resto do seu clã de lutadores profissionais, entre eles Kueng (Tony Jaa), Harrigan (Frank Grillo), Forbes (Marrese Crump) e Carmen (JuJu Chan), para o derrotar. Pelo meio, também está Wylie (Nicholas Cage), que é o grande mestre no meio disto tudo.

Se a premissa soa tão nonsense quanto aparenta, é porque Jiu Jitsu é exactamente aquilo que esperamos dele: quase duas horas de lutas coreografadas com alguns elementos de qualquer coisa semelhante a ficção científica, ou algo do género…


Olhando para o elenco, este composto quase todo ele por actores com experiência comprovada fora do cinema nas artes marciais, inclusive Tarren, que recentemente foi considerado como um dos melhores duplos da actualidade, temos Nicholas Cage a fazer de Nicholas Cage como se fosse uma personagem tipo Raiden de Mortal Kombat, mas com um orçamento mais limitado. No entanto, ver o actor a pseudo-lutar é uma experiência de deixar qualquer um a querer desviar o olhar do desastre que está perante nós.

Naturalmente, o filme acaba por ser tolo na sua íntegra, com coreografias visivelmente artificiais e com momentos de câmara lenta e efeitos visuais a um nível de filme de estudantes. Jiu Jitsu até tenta abordar a ideia de cenas vistas na primeira pessoa, relembrando-nos que elas funcionam tão melhor nos videojogos que nos filmes.


É triste vermos talentos como estes a serem gastos num filme aleatório, com uma futilidade cujo respeito pela modalidade é quase nula, sobretudo quando existem exemplos que promovem de uma forma mais interessante e criativa as artes marciais, como Gareth Evans, que já trabalhou com Tony Jaa no brilhante The Raid – Redenção, provando que é possível oferecer algo incrível dentro do género, para além dos filmes básicos que continuam a invadir os videoclubes, protagonizados por actores que recusam a ideia de reforma.

Jiu Jitsu não é mau, é terrível. É um terrível no sentido que é divertido vê-lo falhar miseravelmente a tentar ser algo mais do que é. Há o adicional de, se chegarmos ao fim, esperamos receber algum tipo de recompensa, nem que essa seja um pontapé na cara por qualquer um destes actores e artistas marciais. Fora isso, a única coisa que se perde é tempo, sendo mais interessante reunir estes talentos todos num ringue.

Nota Final: 1/5 (originalmente 2/10)

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Originalmente publicado em Central Comics a 9 de Dezembro de 2020.

8 de novembro de 2020

Possessor (2020)

Quando Brandon Cronenberg lançou em 2012 a sua primeira longa-metragem, Antiviral, as comparações como as expectativas que o seu filme estivesse ao nível daqueles feitos pelo seu pai, David, foram muitas. Afinal, ser o filho de um dos realizadores mais reconhecidos pela proliferação de um dos mais grotescos sub-géneros do terror, o chamado body horror, não seria fácil. Foi com o sucesso de Antiviral que o mundo se apercebeu que a maçã não cai muito longe da árvore, mas Brandon foi mais longe do que apenas seguir as pisadas do seu parente; iniciou um caminho todo seu. Foram precisos oito anos até que este fizesse o seu regresso, desta vez com Possessor.

Tasya Vos (Andrea Riseborough) é uma agente de uma organização secreta, que utiliza a tecnologia de microchips cerebrais para inabitar o corpo de outros, tornando-os em assassinos natos para uma clientela disposta a pagar o preço. O seu mais recente trabalho, esta irá habitar a mente de Colin Tate (Christopher Abbott), para assassinar a sua namorada, Ava (Tuppence Middleton) e o pai dela, John (Sean Bean), abrindo caminho para um novo CEO de uma empresa de tecnologia.

Cronenberg apresenta assim uma das obras mais horríficas do inicio da década, subtilmente levada pela narrativa obscura, repleta de sangue e momentos mais fora-da-caixa; demonstrando a sua capacidade inata de contar uma história que causa calafrios e demonstrar perfeitamente o seu sentimento. Talvez uma das suas maiores provas é ser um alto-conceito sangrento, algo que muitos provavelmente não achariam que seria uma boa combinação, mas que o realizador faz na perfeição, sem qualquer esforço. Desde uma palette de cores que podem ir do desinteressante para o alarmante em tempo recorde, às decisões chave das personagens e à forma de como a tecnologia funciona, tudo em Possessor claramente tem um propósito muito real.

Num momento em que o cinema de terror está surgir com um interesse mais nuance, Possessor poderia, com muita facilidade, ser um episódio de Black Mirror; com algo altamente intrigante à medida que vamos percebendo como a tecnologia poderá ser explorada para benefício dos mais ricos e que o futuro próximo será, de facto, o nosso fim.

Deste modo, Possessor é um dos filmes mais incríveis do ano, causando todo o tipo de sentimentos mais no cérebro, com sequências de deixar qualquer um boquiaberto, existindo espaço para toda a experimentação que o sub-género está associado. Este não é um filme qualquer, com uma intenção clara que causar a maior impressão possível, seja que, em alguma altura, pareça um truque dissimulado. Apenas desejamos que não demore mais oito anos a regressar ao grande ecrã.

Nota Final: 5/5

29 de setembro de 2020

Antebellum | Antebellum – A Escolhida (2020)



Em 2017, Jordan Peele abriu as portas para um sub-género dentro do cinema, com Foge, classificado como algo entre o drama e o terror (ou a comédia e o musical, caso estejam a ser considerados para os Globos de Ouro), onde a crítica política-social demonstrou um cenário de análise do racismo no Estados Unidos. Esta abertura permitiu que um dos seus produtores, Sean McKittrick, seguisse o seu reportório recente, juntando-se à dupla de argumentistas e realizadores, Gerard Bush e Christopher Renz, que se estreiam nas longas-metragens em Antebellum – A Escolhida.

Pela primeira vez em muitos anos, a impressão conflituosa entre o filme e o seu material promocional, que passam duas ideias muito distintas entre elas, dificulta explicar a narrativa de uma forma que não revele a sua reviravolta. Mas é possível descrever o filme ao conhecermos Veronica Henley (Janelle Monáe), uma autora com muito sucesso, que se vê numa situação bizarra, ao se encontrar no século XVIII, como uma escrava numa plantação de algodão, em plena guerra civil.


Pondo de parte todo o mistério aparente do filme, é possível dividirmos Antebellum – A Escolhida em alguns momentos minimamente interessantes, sobretudo o seu retrato desconfortável da escravatura dos negros, ainda mais quando temos em conta o seu contexto político-social em pleno ano de eleições nos Estados Unidos; relembrando-nos dos actos cruéis da Confederação e os seus generais. São imagens fortes, intensas e que geram revolta, mas o filme não é só feito deste retrato.

No presente, somos apresentados a Veronica, uma mulher forte, cujo sucesso gera uma discussão, e recebe o ódio dos tais haters, que não podiam fazer falta. No entanto, o filme reduz toda a importância actual a sequências que fingem querer assustar, ou pior, imitar os filmes de terror que tenta invocar nas suas ideias. É igualmente frequente vermos um conjunto de cenas irrelevantes, que quebram o ritmo do filme e nos deixa a pensar como é que existe tempo na sua duração para vermos as muitas interações fúteis, antes de nos atropelar com a reviravolta, que é mais confusa do que propriamente chocante.


Enquanto que Monáe carrega às costas uma obra que a mesma admite catártica, e que é visível durante as quase duas horas de filme; o resto do elenco, Jena Malone e Eric Lange inclusive, não passam de meras desculpas para justificar os actos hediondos que vemos e muito esforçam tirar o pior de nós para fora. Bush e Renz provam que sabem realizar, com uma cena inicial impressionante, e claramente têm boas ideias, sendo é necessário reconhecer que elas o são; mas a sua execução é deitada à terra pelas péssimas decisões executivas, sobretudo na montagem, que arruína a experiência assim que apanharmos em flagrante delito aquilo que o filme está a tentar impor

Antebellum – A Escolhida podia ter sido um filme muito decente, cuja mensagem poderia gritar bem alto para a atenção a ter perante um país que está a passar uma das piores crises políticas da sua história, mas a tentativa de ser mais inteligente cai assim que percebermos que estes momentos têm um valor a nível narrativo praticamente nulo. Talvez aquilo que mais irritação causa é ao aperceber que estas consequências vêm de uma complicação desnecessária de estilo, distraindo da substância razoável que o filme oferece.

Nota Final: 2/5 (originalmente 4/10)

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Originalmente publicado em Central Comics a 29 de Setembro de 2020.

20 de setembro de 2020

Rent-a-Pal (2020)


Num tempo longínquo, muito antes do Tinder, os serviços de matchmaking era à base de VHS manhosas, onde as pessoas apresentavam-se num curto vídeo, esperando que outro ser humano eventualmente lhes ache interessante. Era assim que se faziam as coisas nos Estados Unidos no inicio dos anos '90, como pano de fundo da estreia de Jon Stevenson nas longas-metragens com Rent-a-Pal.

David (Brian Landis Folkins) é um quarentão solteiro, a viver na cave da casa da sua mãe demente Lucille (Kathleen Brady), da qual ele toma conta. David aparenta ser um homem perdido, sem um objectivo de vida, mas que procura uma alma gémea através do serviço Video Rendezvous. Um dia, David pega numa cassete com o título Rent-a-Pal, um filme onde Andy (Wil Wheaton) é uma espécie de amigo virtual, tendo uma conversa pré-concebida com quem vê. Naturalmente, David sente uma grande ligação por Andy, ou pelo menos esta versão dele; não sabendo o caos que este trará para a sua vida.


Este foco em Andy, o homem na televisão, olhado como um amigo, disposto de estar de braços abertos e ser uma boa companhia para David, preenche-lhe um vazio que, de alguma forma, não consegue na vida real; procurando conforto para a sua mente fragilizada, encontrando-a numa fita. Por outro lado, a encarnação de Wheaton, faz dele talvez um dos vilões mais simpáticos dos últimos anos. 

Rent-a-Pal prova assim, ser um conto obscuro sobre um homem em busca de uma forma de felicidade, incapaz de ter sucesso na vida. David vai mais longe, ao partilhar uma história amorosa que lhe correu mal, quando era mais novo e trocava notas com uma rapariga, mostrando-nos como o mundo o castigou. Este momento está inserido numa sequência de 20 minutos onde vemos a relação entre Andy e David a florescer a um patamar quase divino, onde este não consegue ver mais a linha de o que é verdadeiro e o que é virtual, sendo absolutamente arrepiante.


O facto de o filme se passar nos anos '90, também adiciona um contexto retro, abordando um tema que hoje é, grande parte dele, tão impessoal e concentrado nas redes sociais, onde também podemos encontrar exemplos tanto ou quanto extremistas como David a desabafarem sobre como a culpa é das mulheres que são uns falhados, em sítios como chan sites ou fóruns, exprimindo uma frustração de futilidade. Retirada a componente de internet, a parte física fica para trás, mostrando a sua verdadeira personalidade, mesmo quando filme introduz-nos a Lisa (Amy Rutledge), uma possível paixão.

Estamos perante um dos slow-burn mais interessantes do ano, com um bom equilíbrio entre balanço e um terror relativamente discreto, acompanhada por uma banda sonora que perdura na calada da noite, enquanto constrói a sua narrativa para um último acto de levar as mãos à cabeça. Nunca uma cassete causou tanto mal desde Ring - A Maldição.

Nota Final: 4/5